Propaganda

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Essenciais

 

Primeiro, só serviços essenciais. Depois, só produtos essenciais. Logo, só pessoas "essenciais". Quando você perceber que não está entre os "essenciais" do sistema, não poderá fazer mais nada.

Eliot Ness

Durante a pandemia de COVID-19, que começou em 2020 e se estendeu por anos, governos do mundo inteiro - incluindo o Brasil - adotaram o conceito de "serviços essenciais" e "trabalhadores essenciais" como base para as regras de lockdown e quarentena.

Supermercados, farmácias, hospitais, transporte público, bancos e indústrias de alimentos continuaram funcionando, enquanto bares, academias, salões de beleza, escolas e grande parte do comércio foram fechados por meses.

Milhões de pessoas foram obrigadas a ficar em casa, exceto quem exercia funções consideradas "essenciais" pelo poder público. No Brasil, decretos federais, estaduais e municipais definiram listas de atividades permitidas. Governadores e prefeitos decidiam o que era ou não essencial - muitas vezes de forma arbitrária ou influenciada por pressões econômicas e políticas.

Trabalhadores de aplicativos de entrega, motoristas de ônibus, funcionários de supermercados, médicos, enfermeiros e policiais foram classificados como "essenciais" e tiveram que continuar trabalhando, expostos ao risco de contaminação, sem muitas opções de proteção ou remuneração extra.

Enquanto isso, donos de pequenos negócios, autônomos, artistas, professores particulares e milhões de informais foram impedidos de exercer suas atividades, levando a desemprego em massa, endividamento e aumento da pobreza.

O termo "essencial" ganhou um significado quase orwelliano: quem era "essencial" podia circular, trabalhar e sobreviver economicamente; quem não era, ficava confinado, dependendo de auxílios emergenciais (como o auxílio emergencial de 2020-2021) que, embora ajudaram muita gente, eram temporários e insuficientes para muitos.

A frase "fique em casa" soava nobre para uns, mas para outros significava perda de renda, isolamento forçado e dependência total do Estado ou de familiares. Com o tempo, a distinção se aprofundou: vacinas foram priorizadas para grupos "essenciais" (profissionais de saúde, idosos, forças de segurança), enquanto outros esperavam meses.

Medidas de controle, como passaportes vacinais em alguns lugares, reforçaram a ideia de que certos direitos (trabalhar, viajar, entrar em espaços públicos) dependiam de cumprir critérios impostos pelo sistema.

Quem não se enquadrava - por escolha, desconfiança ou barreiras de acesso - era marginalizado. Essa lógica de "essencialidade" revelou algo mais profundo: em momentos de crise, o sistema decide quem importa e quem pode ser descartado ou controlado.

Trabalhadores de baixa renda, muitas vezes negros, pobres ou periféricos, foram os mais expostos e os que mais morreram proporcionalmente, enquanto elites podiam se isolar em casas confortáveis ou trabalhar remotamente.

A pandemia acelerou uma tendência que já existia: a concentração de poder nas mãos de quem define o que é "essencial" - governos, grandes corporações e instituições internacionais.

Quando o próximo evento de controle global chegar (seja outra pandemia, crise climática, ciberataque ou instabilidade econômica), a pergunta será a mesma: você estará na lista dos "essenciais"?

Ou será daqueles que, sem permissão oficial, não poderão fazer mais nada - nem trabalhar, nem se locomover livremente, nem exercer direitos básicos? A frase atribuída a Eliot Ness (o famoso agente que combateu Al Capone na era da Lei Seca nos EUA) serve como alerta: em tempos de restrição, o que começa como medida de "proteção" pode evoluir para um mecanismo de exclusão e dominação.

A pandemia nos mostrou na prática como isso funciona. Cabe a cada um refletir: quem define o essencial? E o que acontece quando você deixa de ser?

0 Comentários: