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segunda-feira, janeiro 05, 2026

Analfabeto

 


Sou biólogo e viajo com frequência pela savana do meu país. Entre trilhas de terra vermelha, rios sazonais e árvores que resistem à seca, encontro pessoas que nunca aprenderam a decifrar as letras impressas nos livros.

Não dominam o alfabeto formal, não reconhecem palavras em páginas encadernadas. Ainda assim, sabem ler - e leem com precisão admirável. Eles leem o chão, interpretando pegadas quase invisíveis; leem o vento, pressentindo mudanças no tempo; leem o silêncio dos animais e o murmúrio das folhas.

Leem o céu, reconhecendo sinais de chuva, de estiagem, de perigo e de abundância. Cada gesto, cada pausa, cada olhar carrega um significado que não se aprende em salas de aula, mas na convivência íntima com a terra e com o tempo.

Nesse universo de outros saberes, percebo o quanto minha formação acadêmica, construída entre laboratórios e livros científicos, é insuficiente. Trago diplomas, conceitos, métodos e classificações, mas tropeço diante de conhecimentos que não cabem em gráficos ou artigos.

Sou incapaz de compreender plenamente a linguagem da savana, a sabedoria transmitida de geração em geração sem jamais ser escrita.

Ali, onde a vida se organiza por sinais ancestrais, sou eu quem não sabe ler. Sou eu o analfabeto, limitado por um tipo de alfabetização que ignora outras formas de inteligência e de entendimento do mundo.

Aprendo, então, que o verdadeiro saber não se mede pela quantidade de palavras conhecidas, mas pela capacidade de escutar, observar e respeitar aquilo que existe fora dos livros.

Essa inversão de papéis me ensina humildade. Mostra que há múltiplas maneiras de ler a realidade e que nenhuma delas é superior às outras. Há mundos que se escrevem com letras, e há mundos que se escrevem com passos, gestos e silêncios. E, muitas vezes, são esses últimos que dizem mais sobre a vida.

Homenagem inspirada na obra de Mia Couto

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