Sou biólogo e viajo com frequência pela
savana do meu país. Entre trilhas de terra vermelha, rios sazonais e árvores
que resistem à seca, encontro pessoas que nunca aprenderam a decifrar as letras
impressas nos livros.
Não dominam o alfabeto formal, não reconhecem
palavras em páginas encadernadas. Ainda assim, sabem ler - e leem com precisão
admirável. Eles leem o chão, interpretando pegadas quase invisíveis; leem o
vento, pressentindo mudanças no tempo; leem o silêncio dos animais e o murmúrio
das folhas.
Leem o céu, reconhecendo sinais de chuva, de
estiagem, de perigo e de abundância. Cada gesto, cada pausa, cada olhar carrega
um significado que não se aprende em salas de aula, mas na convivência íntima
com a terra e com o tempo.
Nesse universo
de outros saberes, percebo o quanto minha formação acadêmica, construída entre
laboratórios e livros científicos, é insuficiente. Trago diplomas, conceitos,
métodos e classificações, mas tropeço diante de conhecimentos que não cabem em
gráficos ou artigos.
Sou incapaz de compreender plenamente a
linguagem da savana, a sabedoria transmitida de geração em geração sem jamais
ser escrita.
Ali, onde a vida
se organiza por sinais ancestrais, sou eu quem não sabe ler. Sou eu o
analfabeto, limitado por um tipo de alfabetização que ignora outras formas de
inteligência e de entendimento do mundo.
Aprendo, então, que o verdadeiro saber não se
mede pela quantidade de palavras conhecidas, mas pela capacidade de escutar,
observar e respeitar aquilo que existe fora dos livros.
Essa inversão de
papéis me ensina humildade. Mostra que há múltiplas maneiras de ler a realidade
e que nenhuma delas é superior às outras. Há mundos que se escrevem com letras,
e há mundos que se escrevem com passos, gestos e silêncios. E, muitas vezes,
são esses últimos que dizem mais sobre a vida.
Homenagem inspirada na obra de Mia Couto









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