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segunda-feira, fevereiro 23, 2026

O Homem da Bandeira Vermelha e o Primeiro Criminoso de Trânsito do Mundo


No final do século XIX, as leis britânicas sobre veículos a motor eram extremamente restritivas. Elas refletiam não apenas o medo da população diante das novas “carruagens sem cavalos”, mas também a pressão de interesses já estabelecidos, como as companhias ferroviárias e o setor de transportes movidos a tração animal, que viam nos automóveis uma ameaça econômica e social.

A mais emblemática dessas normas foi a Locomotive Act 1865, popularmente conhecida como Red Flag Act. A lei determinava que veículos motorizados não poderiam exceder 2 milhas por hora (cerca de 3,2 km/h) em áreas urbanas e 4 milhas por hora (aproximadamente 6,4 km/h) em áreas rurais - velocidades inferiores às de uma carruagem puxada por cavalos.

Além disso, cada veículo deveria ser acompanhado por uma tripulação mínima de três pessoas: o condutor, um foguista (no caso de máquinas a vapor) e, a figura mais simbólica da legislação, um homem que deveria caminhar à frente do veículo, a pelo menos 60 jardas (cerca de 55 metros), segurando uma bandeira vermelha durante o dia - ou uma lanterna vermelha à noite - para alertar pedestres e cavalos sobre o suposto perigo iminente.

Na prática, tratava-se de uma legislação que quase inviabilizava o uso dos automóveis nas vias públicas. O progresso técnico avançava, mas a lei mantinha os veículos presos a um ritmo do passado.

Foi nesse contexto que, em 28 de janeiro de 1896, um engenheiro e comerciante de veículos decidiu desafiar o sistema. Walter Arnold, residente em East Peckham, no condado de Kent, era um dos pioneiros do comércio automobilístico no Reino Unido.

Ele importava modelos da empresa alemã fundada por Karl Benz e chegou a fabricar sua própria versão do automóvel, conhecida como “Arnold-Benz”. Naquele frio dia de inverno, Arnold saiu dirigindo seu veículo leve a gasolina, de um cilindro, pelas ruas de Paddock Wood, próximo a Tunbridge Wells.

Ignorando completamente a exigência da bandeira vermelha e a presença de três tripulantes, ele acelerou até a “velocidade vertiginosa” de 8 milhas por hora (cerca de 13 km/h) - quatro vezes o limite urbano permitido pela lei.

A ousadia não passou despercebida. Um policial local avistou o automóvel e, determinado a fazer cumprir a lei, montou em sua bicicleta e iniciou uma perseguição que se estendeu por aproximadamente 5 milhas (cerca de 8 quilômetros) pelas estradas da região.

A cena era, por si só, um símbolo da transição histórica: um representante da ordem pedalando atrás de uma máquina que anunciava o futuro. O agente finalmente conseguiu alcançar Arnold e o deteve.

Dois dias depois, em 30 de janeiro de 1896, ele compareceu ao tribunal, onde enfrentou quatro acusações: conduzir uma “locomotiva” (termo então aplicado a qualquer veículo motorizado) sem cavalo em via pública; operar o veículo com menos de três pessoas a bordo; exceder o limite de velocidade de 2 mph; não exibir claramente o nome e endereço no veículo, como exigia a regulamentação.

O juiz o considerou culpado em todas as acusações. A multa total foi de £4 e 7 xelins - valor que hoje corresponderia aproximadamente a algumas centenas de libras, dependendo do critério de atualização.

Curiosamente, apenas 10 xelins referiam-se especificamente ao excesso de velocidade; o restante dizia respeito às demais infrações e às custas processuais. Algumas versões populares simplificam o episódio dizendo que a multa foi de apenas “1 xelim” pela velocidade, mas os registros indicam um valor maior no total.

O episódio entrou para a história como o primeiro caso documentado de multa por excesso de velocidade em um veículo automotor no mundo - certamente o primeiro no Reino Unido.

Poucos meses depois, em novembro de 1896, o Parlamento aprovou o Locomotive on Highways Act 1896, que revogou as disposições mais restritivas da lei anterior.

A exigência da bandeira vermelha foi abolida, e o limite de velocidade foi elevado para 14 milhas por hora (cerca de 23 km/h). A mudança foi celebrada por entusiastas do automóvel, a ponto de se organizar a chamada “Emancipation Run”, um evento simbólico que marcou a libertação dos carros das antigas amarras legais.

Muitos historiadores consideram que o caso de Walter Arnold ajudou a expor o anacronismo da legislação e a demonstrar que o automóvel não era apenas uma curiosidade perigosa, mas uma tecnologia com potencial transformador.

O episódio simboliza o choque entre inovação e conservadorismo - um padrão que se repete ao longo da história sempre que uma nova invenção ameaça alterar estruturas consolidadas.

Assim, Walter Arnold deixou de ser apenas um infrator para tornar-se uma figura quase lendária: o primeiro multado por excesso de velocidade da história - e, ironicamente, um dos homens que contribuíram para acelerar a aceitação do automóvel e a modernização das leis de trânsito na Grã-Bretanha.


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