A prisão conhecida como a “Alcatraz russa” é
a colônia penal de Ognenny Ostrov (Ilha do Fogo), oficialmente denominada IK-5 Vologodsky Pyatak, localizada no lago
Novozero, na região de Vologda Oblast, no
norte da Rússia.
O apelido faz referência tanto ao seu
isolamento extremo quanto à sua reputação de severidade. “Pyatak” (algo como
“Número Cinco”) alude ao código da instituição dentro do sistema penitenciário
russo. É considerada uma das colônias penais mais rigorosas do país.
Originalmente, o
local foi erguido no século XVI como o Mosteiro Kirillo-Novoezersky, fundado em
uma ilha remota como espaço de retiro espiritual e vida ascética.
Durante séculos, serviu à tradição monástica
ortodoxa, mas sua função mudaria drasticamente após a Revolução Russa. Com a ascensão do regime
soviético, muitos mosteiros foram fechados, e o complexo foi convertido em
prisão para “inimigos do povo”, passando a integrar o vasto sistema de campos
de trabalho forçado conhecido como Gulag.
Ali, como em tantas outras regiões isoladas
da União Soviética, a geografia servia como aliada da repressão. Nos anos 1990,
especialmente entre 1994 e 1997, o complexo foi reformulado para abrigar
condenados à prisão perpétua.
Após a adoção do moratório sobre a pena de
morte na Rússia, em 1996, muitos sentenciados à execução tiveram suas penas
convertidas em prisão perpétua, e Ognenny Ostrov tornou-se um dos destinos
desses detentos.
Assim, consolidou-se como colônia de regime
especial - o grau máximo de segurança dentro do sistema penal russo. A geografia
da ilha funciona como uma barreira natural quase intransponível.
Cercada pelas águas geladas do lago Novozero -
que permanece congelado durante grande parte do ano -, qualquer tentativa de
fuga por natação seria praticamente suicida devido às temperaturas extremas.
Escavações subterrâneas encontrariam água
rapidamente. O acesso principal ocorre por meio de uma ponte estreita de
madeira que liga a ilha a outro ponto de terra, rigidamente controlado por
guardas armados.
O regime interno
é marcado pelo isolamento quase absoluto. A maioria dos prisioneiros cumpre
pena por assassinatos múltiplos, crimes de terrorismo, liderança de
organizações criminosas ou outros delitos de extrema gravidade, sendo
responsáveis coletivamente por centenas de mortes.
Eles passam cerca de 23 horas por dia
confinados em celas pequenas, geralmente individuais ou duplas. A rotina é
meticulosamente controlada: alimentação por escotilhas, revistas frequentes e
deslocamentos sempre algemados e sob escolta.
O tempo restante
- aproximadamente uma hora diária - é destinado ao chamado “banho de sol”,
realizado em pequenos pátios cercados por grades metálicas individuais,
semelhantes a jaulas verticais.
No inverno, as temperaturas podem cair abaixo
de −30 °C, e mesmo no curto verão a umidade e o vento reforçam a sensação de
isolamento físico e psicológico.
As visitas são
raras e estritamente regulamentadas, normalmente limitadas a poucas ocasiões
por ano, dependendo do comportamento do preso. Não há trabalho coletivo
significativo nem programas amplos de ressocialização.
Diferentemente de outras colônias penais
russas, onde o trabalho é parte central da rotina, em Vologodsky Pyatak a
ênfase recai na contenção permanente.
Relatórios independentes e documentários
internacionais apontam que o confinamento prolongado provoca efeitos
psicológicos severos: depressão profunda, transtornos de ansiedade, surtos
psicóticos e um índice preocupante de tentativas de suicídio.
Além disso, problemas estruturais do sistema
prisional russo, como a incidência de tuberculose resistente e HIV, agravam a
vulnerabilidade dos detentos, embora dados precisos variem conforme a fonte.
Autoridades
penitenciárias costumam afirmar que a função da colônia não é reabilitar, mas
assegurar que indivíduos considerados extremamente perigosos jamais retornem ao
convívio social.
Em declarações atribuídas a antigos
responsáveis pela segurança, reforça-se a ideia de que a própria geografia
torna a fuga inviável: “Se cavarem, encontram água. Se tentarem nadar, não
resistem ao frio.” A mensagem é clara - ali, a pena é essencialmente o
confinamento perpétuo.
Atualmente,
estima-se que a colônia abrigue cerca de 190 a 200 presos, número que pode
variar ligeiramente ao longo do tempo. Embora relatos indiquem que a violência
entre detentos seja menor do que em presídios superlotados - em parte devido ao
isolamento rigoroso -, o ambiente é descrito como opressivo, silencioso e
psicologicamente esmagador.
O tempo parece dilatar-se, e a solidão torna-se um elemento central da punição. Vologodsky Pyatak simboliza o extremo do sistema penal russo contemporâneo: uma instituição onde a punição não se manifesta por execuções públicas ou trabalhos forçados em massa, mas pelo afastamento definitivo do mundo, em um dos cenários mais remotos e inóspitos do país - uma espécie de “morte em vida”, concebida como alternativa moderna à pena capital.









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