O financiamento e a sustentação da escravidão
pelas igrejas católicas e protestantes não constituíram um desvio moral
pontual, tampouco um simples “erro de época”. Tratou-se, antes, de um projeto econômico, político e teológico profundamente
entranhado nas estruturas de poder do mundo colonial e imperial,
no qual a religião desempenhou papel ativo na legitimação e na reprodução da
ordem escravocrata.
Durante séculos,
ordens religiosas católicas - como jesuítas, beneditinos, carmelitas,
mercedários e franciscanos - acumularam vastas propriedades rurais, engenhos de
açúcar, fazendas de gado e, sobretudo, pessoas escravizadas,
cuja exploração garantia tanto a subsistência cotidiana dos conventos quanto
rendimentos significativos.
A disciplina do trabalho forçado sustentava,
simultaneamente, a rotina econômica e o calendário litúrgico dessas
instituições. No auge do século XIX, por exemplo, a
Ordem de São Bento possuía cerca de quatro mil escravizados
distribuídos por suas unidades no Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e
Bahia.
Esses cativos, conhecidos como “escravos
da religião”, pertenciam coletivamente às ordens - não a indivíduos
-, o que moldava de forma particular sua existência: eram obrigados a
frequentar missas, participar de orações, receber sacramentos e submeter-se à
catequese contínua.
Resistências à conversão, à disciplina
religiosa ou ao trabalho podiam resultar em castigos exemplares, aplicados não
apenas como punição, mas como pedagogia do medo.
Inserida no
regime do padroado real - acordo que subordinava a
Igreja Católica à Coroa portuguesa em troca de privilégios políticos,
financeiros e administrativos -, a instituição eclesiástica ofereceu fundamentação moral e teológica ao sistema escravista.
Argumentava-se que a escravidão seria um mal
menor, um instrumento para retirar africanos e seus descendentes do “paganismo”
e conduzi-los à salvação cristã, mesmo que isso implicasse violência,
desumanização e perda absoluta da liberdade.
Assim, a cruz caminhava lado a lado com o chicote.
A fé operava como uma sofisticada tecnologia de dominação simbólica: ensinava
obediência irrestrita, naturalizava a hierarquia social, atribuía sentido
redentor ao sofrimento e inculcava a ideia de que a dor, aceita com resignação,
seria recompensada no além.
A miséria presente tornava-se, nos sermões,
promessa de glória futura. Versículos bíblicos eram cuidadosamente
selecionados, descontextualizados e reinterpretados para justificar a submissão
- passagens que falavam de servos obedecendo a seus senhores ou a infame “maldição
de Cam”, aplicada de forma racista aos povos africanos.
A catequese e o batismo, muitas vezes
forçados ou fortemente induzidos, funcionavam como anestesia
simbólica para um processo brutal de expropriação econômica,
violência física e apagamento cultural.
As igrejas
protestantes, embora tenham chegado mais tarde ao Brasil - sobretudo a partir
do século XIX, com presbiterianos, batistas, metodistas e outras denominações -,
também não ficaram à margem desse processo.
Muitas delas carregavam consigo heranças teológicas oriundas do sul escravocrata dos
Estados Unidos, onde leituras racistas da Bíblia haviam sido
amplamente usadas para legitimar a escravidão.
No Brasil
imperial, há registros de comunidades protestantes que possuíam escravizados ou
que aceitavam senhores de escravos como membros plenos, sem questionar de forma contundente o sistema.
Posições abolicionistas mais firmes só se
tornaram visíveis quando a abolição já se consolidava como consenso político e
social. Ainda hoje, movimentos como o Movimento Negro
Evangélico pressionam denominações - entre elas Presbiteriana,
Batista e Luterana - a abrirem seus arquivos históricos, a fim de esclarecer o
grau de envolvimento institucional e os benefícios econômicos obtidos.
Em ambos os
casos - católico e protestante -, a religião não foi mera cúmplice passiva. Atuou como força legitimadora, fornecendo
arcabouço moral, simbólico e ideológico ao escravagismo, ajudando a sustentar
elites econômicas, o Estado colonial e as próprias instituições eclesiais.
A Bíblia, a cruz e a catequese funcionaram
como instrumentos de controle social, moldando consciências para aceitar a dominação
como expressão da vontade divina.
Esse legado
histórico exige reflexão crítica permanente, especialmente em um país como o
Brasil, onde a escravidão não foi um episódio periférico, mas o eixo estruturante de desigualdades que persistem até hoje.
Embora as igrejas contemporâneas, em sua maioria, condenem qualquer forma de escravidão como intrinsecamente maligna, o reconhecimento honesto e público desse passado é fundamental - não apenas como exercício de memória, mas como alerta sobre o perigo constante de instrumentalizar a fé para legitimar novas formas de opressão.























