A prisão de Abu Ghraib é um complexo
penitenciário localizado na cidade de Abu Ghraib, no Iraque, a cerca de 32 km a
oeste de Bagdá. Com uma área aproximada de 1,15 km², o local foi construído na
década de 1960 por empreiteiras britânicas durante o período em que o Iraque
ainda sofria forte influência colonial do Reino Unido.
O complexo contava com 24 torres de
vigilância e era dividido em cinco áreas principais, separadas por muros altos,
para segregar diferentes categorias de prisioneiros. Cada bloco incluía sala de
jantar, área de orações, espaço para exercícios e instalações básicas de
higiene.
As celas eram superlotadas, frequentemente
abrigando mais de 40 pessoas em apenas 16 m².Abu Ghraib ganhou notoriedade
mundial como um dos símbolos mais sombrios da repressão política no Iraque,
servindo como local de tortura e execução em diferentes regimes e períodos
históricos.
Sob o regime de Saddam Hussein (1979–2003)
Durante o governo do Partido Ba'ath, a prisão
era controlada pela "Junta de Segurança Pública" (Al-Amn al-Amm) e
era conhecida na imprensa ocidental como "Saddam's Torture Central"
(Centro de Tortura de Saddam).
Milhares de prisioneiros políticos, incluindo
xiitas, curdos e opositores do regime, foram torturados e executados ali.
Relatórios da Anistia Internacional documentaram execuções em massa: mais de
4.000 prisioneiros em 1984, centenas em novembro de 1996, e várias centenas de
xiitas entre 1998 e 2001.
A organização destacou a dificuldade de obter
um quadro completo devido ao sigilo imposto pelas autoridades. O bloco de
presos políticos era dividido em alas "aberta" (principalmente
xiitas) e "fechada", sem visitas ou contato externo.
Durante a Guerra do Golfo (1991),
prisioneiros de coalizão, como membros do Special Air Service britânico
(incluindo o patrol Bravo Two Zero), também foram torturados no local.
Em 2001, a prisão abrigava mais de 15.000
detentos, muitos mantidos incomunicáveis desde a Guerra Irã-Iraque (1980–1988).
Há relatos de alimentação forçada com plásticos e uso de prisioneiros como
cobaias em experimentos com armas químicas e biológicas.
Um projeto de expansão para adicionar seis
novos blocos estava em andamento antes de 2002. Em outubro de 2002, Saddam
concedeu anistia a milhares de prisioneiros, levando ao esvaziamento da prisão.
Com a invasão anglo-americana em março de 2003, o local foi abandonado,
saqueado e vandalizado. Quase todos os documentos sobre prisioneiros foram
queimados, causando danos estruturais graves.
Sepulturas coletivas associadas
Após a queda do regime, foram descobertas
valas comuns ligadas a execuções em Abu Ghraib. Na região de Khan Dhari (oeste
de Bagdá), corpos de prisioneiros políticos foram encontrados, incluindo 15
vítimas executadas em 26 de dezembro de 1998 e enterradas clandestinamente.
Em Al-Zahedi (limites oeste de Bagdá),
sepulturas secretas próximas a um cemitério civil continham quase 1.000 corpos.
Testemunhas relataram entregas regulares de 10 a 15 corpos da prisão para
enterros civis.
Exemplos incluem 101 execuções em 10 de
dezembro de 1999 e 58 em 9 de março de 2000, com o último corpo registrado como
o de número 993.Sob controle da coalizão liderada pelos EUA (2003–2006).
Após a invasão, a prisão foi reaberta e
renomeada Baghdad Central Confinement Facility (BCCF) ou Baghdad Central
Correctional Facility. As forças dos EUA e do Reino Unido a usaram como
principal centro de detenção, abrigando até mais de 7.000 prisioneiros no
início de 2004.
Áreas como as alas 1A e 1B ("hard
sites") concentraram os piores abusos. Um novo acampamento, Camp
Redemption (construído em 2004), substituiu estruturas anteriores como Camp
Ganci e Camp Vigilant.
Muitos detentos foram transferidos para Camp
Bucca devido à superlotação. A Cruz Vermelha Internacional estimou que cerca de
90% dos detidos eram inocentes ou capturados sem evidências claras, muitas
vezes em batidas aleatórias.
O escândalo explodiu em abril de 2004, quando
a CBS divulgou fotos chocantes de soldados americanos abusando de prisioneiros:
nus, em pilhas humanas, presos por trelas, ameaçados por cães, eletrocutados e
humilhados sexualmente.
As imagens, tiradas por militares, causaram
revolta global e expuseram violações sistemáticas. O governo Bush classificou
os abusos como "casos isolados" de "maçãs podres".
Dezessete militares foram afastados; 11
enfrentaram tribunal marcial, com condenações variando de meses a 10 anos de
prisão. A comandante Janis Karpinski foi rebaixada a coronel. George W. Bush
pediu desculpas públicas, mas altos oficiais, como Donald Rumsfeld, não foram
processados criminalmente.
Documentação do programa de tortura dos EUA
Os abusos em Abu Ghraib ligam-se aos
"Torture Memos" (memorandos de tortura) do Departamento de Justiça
(2002), que autorizavam "técnicas de interrogatório aprimoradas",
incluindo privação de sono, posições de estresse, confinamento em espaços
pequenos, simulação de afogamento e uso de insetos.
Esses métodos, amplamente classificados como
tortura pela Convenção contra a Tortura (ratificada pelos EUA, mas interpretada
de forma restritiva), foram autorizados caso a caso pela administração Bush.
Documentos revelados posteriormente (inclusive
durante a presidência Obama) mostram que tais práticas migraram de Guantánamo e
Afeganistão para o Iraque. O National Security Archive arquiva esses materiais
no "Torture Archive".
Situação atual
Em 2006, os EUA transferiram o controle total
para o governo iraquiano. A prisão foi reaberta como Baghdad Central Prison,
mas fechada indefinidamente em 2014 por receio de tomada pelo Estado Islâmico
(ISIS). O complexo permanece vazio, e valas comuns do período Saddam foram
descobertas no local.
Em novembro de 2024, mais de 20 anos após o
escândalo, um júri federal dos EUA condenou a contratada CACI (fornecedora de
interrogadores) a pagar US$ 42 milhões a três ex-detentos iraquianos por
conspiração em abusos - um raro caso de responsabilização civil, embora vítimas
ainda busquem reparação plena do governo americano.
Abu Ghraib permanece um símbolo trágico de
como regimes autoritários e ocupações podem perpetuar ciclos de tortura e
impunidade, independente de ideologias ou bandeiras.









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