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quarta-feira, janeiro 28, 2026

A Prisão de Abu Ghraib



 

A prisão de Abu Ghraib é um complexo penitenciário localizado na cidade de Abu Ghraib, no Iraque, a cerca de 32 km a oeste de Bagdá. Com uma área aproximada de 1,15 km², o local foi construído na década de 1960 por empreiteiras britânicas durante o período em que o Iraque ainda sofria forte influência colonial do Reino Unido.

O complexo contava com 24 torres de vigilância e era dividido em cinco áreas principais, separadas por muros altos, para segregar diferentes categorias de prisioneiros. Cada bloco incluía sala de jantar, área de orações, espaço para exercícios e instalações básicas de higiene.

As celas eram superlotadas, frequentemente abrigando mais de 40 pessoas em apenas 16 m².Abu Ghraib ganhou notoriedade mundial como um dos símbolos mais sombrios da repressão política no Iraque, servindo como local de tortura e execução em diferentes regimes e períodos históricos.

Sob o regime de Saddam Hussein (1979–2003)

Durante o governo do Partido Ba'ath, a prisão era controlada pela "Junta de Segurança Pública" (Al-Amn al-Amm) e era conhecida na imprensa ocidental como "Saddam's Torture Central" (Centro de Tortura de Saddam).

Milhares de prisioneiros políticos, incluindo xiitas, curdos e opositores do regime, foram torturados e executados ali. Relatórios da Anistia Internacional documentaram execuções em massa: mais de 4.000 prisioneiros em 1984, centenas em novembro de 1996, e várias centenas de xiitas entre 1998 e 2001.

A organização destacou a dificuldade de obter um quadro completo devido ao sigilo imposto pelas autoridades. O bloco de presos políticos era dividido em alas "aberta" (principalmente xiitas) e "fechada", sem visitas ou contato externo.

Durante a Guerra do Golfo (1991), prisioneiros de coalizão, como membros do Special Air Service britânico (incluindo o patrol Bravo Two Zero), também foram torturados no local.

Em 2001, a prisão abrigava mais de 15.000 detentos, muitos mantidos incomunicáveis desde a Guerra Irã-Iraque (1980–1988). Há relatos de alimentação forçada com plásticos e uso de prisioneiros como cobaias em experimentos com armas químicas e biológicas.

Um projeto de expansão para adicionar seis novos blocos estava em andamento antes de 2002. Em outubro de 2002, Saddam concedeu anistia a milhares de prisioneiros, levando ao esvaziamento da prisão. Com a invasão anglo-americana em março de 2003, o local foi abandonado, saqueado e vandalizado. Quase todos os documentos sobre prisioneiros foram queimados, causando danos estruturais graves.

Sepulturas coletivas associadas

Após a queda do regime, foram descobertas valas comuns ligadas a execuções em Abu Ghraib. Na região de Khan Dhari (oeste de Bagdá), corpos de prisioneiros políticos foram encontrados, incluindo 15 vítimas executadas em 26 de dezembro de 1998 e enterradas clandestinamente.

Em Al-Zahedi (limites oeste de Bagdá), sepulturas secretas próximas a um cemitério civil continham quase 1.000 corpos. Testemunhas relataram entregas regulares de 10 a 15 corpos da prisão para enterros civis.

Exemplos incluem 101 execuções em 10 de dezembro de 1999 e 58 em 9 de março de 2000, com o último corpo registrado como o de número 993.Sob controle da coalizão liderada pelos EUA (2003–2006).

Após a invasão, a prisão foi reaberta e renomeada Baghdad Central Confinement Facility (BCCF) ou Baghdad Central Correctional Facility. As forças dos EUA e do Reino Unido a usaram como principal centro de detenção, abrigando até mais de 7.000 prisioneiros no início de 2004.

Áreas como as alas 1A e 1B ("hard sites") concentraram os piores abusos. Um novo acampamento, Camp Redemption (construído em 2004), substituiu estruturas anteriores como Camp Ganci e Camp Vigilant.

Muitos detentos foram transferidos para Camp Bucca devido à superlotação. A Cruz Vermelha Internacional estimou que cerca de 90% dos detidos eram inocentes ou capturados sem evidências claras, muitas vezes em batidas aleatórias.

O escândalo explodiu em abril de 2004, quando a CBS divulgou fotos chocantes de soldados americanos abusando de prisioneiros: nus, em pilhas humanas, presos por trelas, ameaçados por cães, eletrocutados e humilhados sexualmente.

As imagens, tiradas por militares, causaram revolta global e expuseram violações sistemáticas. O governo Bush classificou os abusos como "casos isolados" de "maçãs podres".

Dezessete militares foram afastados; 11 enfrentaram tribunal marcial, com condenações variando de meses a 10 anos de prisão. A comandante Janis Karpinski foi rebaixada a coronel. George W. Bush pediu desculpas públicas, mas altos oficiais, como Donald Rumsfeld, não foram processados criminalmente.

Documentação do programa de tortura dos EUA

Os abusos em Abu Ghraib ligam-se aos "Torture Memos" (memorandos de tortura) do Departamento de Justiça (2002), que autorizavam "técnicas de interrogatório aprimoradas", incluindo privação de sono, posições de estresse, confinamento em espaços pequenos, simulação de afogamento e uso de insetos.

Esses métodos, amplamente classificados como tortura pela Convenção contra a Tortura (ratificada pelos EUA, mas interpretada de forma restritiva), foram autorizados caso a caso pela administração Bush.

Documentos revelados posteriormente (inclusive durante a presidência Obama) mostram que tais práticas migraram de Guantánamo e Afeganistão para o Iraque. O National Security Archive arquiva esses materiais no "Torture Archive".

Situação atual

Em 2006, os EUA transferiram o controle total para o governo iraquiano. A prisão foi reaberta como Baghdad Central Prison, mas fechada indefinidamente em 2014 por receio de tomada pelo Estado Islâmico (ISIS). O complexo permanece vazio, e valas comuns do período Saddam foram descobertas no local.

Em novembro de 2024, mais de 20 anos após o escândalo, um júri federal dos EUA condenou a contratada CACI (fornecedora de interrogadores) a pagar US$ 42 milhões a três ex-detentos iraquianos por conspiração em abusos - um raro caso de responsabilização civil, embora vítimas ainda busquem reparação plena do governo americano.

Abu Ghraib permanece um símbolo trágico de como regimes autoritários e ocupações podem perpetuar ciclos de tortura e impunidade, independente de ideologias ou bandeiras.


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