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domingo, fevereiro 01, 2026

Crueldade, privilégio e impunidade: dois crimes, o mesmo abismo moral


 

O caso do indígena Pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo enquanto dormia em um ponto de ônibus em Brasília, e o do cão comunitário Orelha, brutalmente espancado e morto por adolescentes de classe alta em Florianópolis, embora separados por quase três décadas, revelam semelhanças perturbadoras.

Ambos escancaram a banalização da violência, a desumanização - ou desvalorização da vida - e o sentimento de impunidade que parece acompanhar determinados estratos privilegiados da sociedade brasileira.

Não se trata apenas de crimes isolados, mas de sintomas de uma estrutura social adoecida, na qual jovens amparados por sobrenomes influentes, recursos financeiros e redes de proteção agem como se estivessem acima da lei, da empatia e da própria noção de humanidade.

O fogo contra o invisível

Na madrugada de 20 de abril de 1997, Galdino Jesus dos Santos, liderança da etnia Pataxó Hã-Hã-Hãe, de 44 anos, dormia em um banco de ponto de ônibus na quadra 703 Sul, em Brasília.

Ele havia viajado da Bahia à capital federal junto a outras lideranças indígenas para participar de reuniões com autoridades governamentais, reivindicando a demarcação de terras ancestrais em meio a violentos conflitos fundiários no sul baiano.

Após as comemorações do Dia do Índio na sede da Funai, Galdino não conseguiu retornar à pensão onde estava hospedado, fechada durante a noite. Cansado, decidiu descansar ali mesmo - decisão que lhe custaria a vida.

Cinco jovens, com idades entre 16 e 19 anos - Max Rogério Alves, Eron Chaves Oliveira, Tomás Oliveira de Almeida, Antônio Novely Vilanova Cardoso (filho de um juiz federal) e Gutemberg Nader Almeida Júnior - resolveram “se divertir”.

Jogaram líquido inflamável sobre o corpo de Galdino e atearam fogo, afirmando posteriormente que acreditavam se tratar de um mendigo e que queriam apenas “dar um susto”.

Galdino teve 95% do corpo queimado, a maioria em terceiro grau. Ainda consciente, foi levado ao Hospital Regional da Asa Norte, onde morreu horas depois, em estado de extrema dor e lucidez - uma das faces mais cruéis desse crime.

Em 2001, os autores foram condenados a 14 anos de prisão por homicídio com dolo eventual. No entanto, progressões de pena, benefícios legais e a posterior reinserção social de alguns - inclusive a ocupação de cargos públicos - reacenderam o debate nacional sobre seletividade penal e impunidade.

O local do crime foi transformado na Praça do Compromisso, rebatizada em 2023 como Praça Índio Pataxó Galdino Jesus dos Santos, com uma escultura em sua memória - um gesto simbólico que, embora necessário, não repara a falha estrutural do Estado.

A violência como “brincadeira”

Quase trinta anos depois, em 4 de janeiro de 2026, outro episódio de brutalidade chocou o país. Na Praia Brava, bairro turístico de alto padrão no norte de Florianópolis, o cão comunitário Orelha, conhecido por sua docilidade e cuidado coletivo dos moradores, foi espancado até a morte por quatro adolescentes de 14 a 17 anos, também oriundos de famílias influentes.

Utilizando paus ou objetos contundentes, os jovens atingiram repetidamente a cabeça do animal, provocando ferimentos irreversíveis que levaram à eutanásia para cessar seu sofrimento. Não satisfeitos, ainda tentaram afogar outro cão, posteriormente chamado Caramelo, que sobreviveu e acabou adotado pelo delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina.

Quando o caso veio à tona, dois dos adolescentes estavam em viagem à Disney, nos Estados Unidos. Ao retornarem, tiveram celulares apreendidos. A investigação apontou atos infracionais de maus-tratos a animais, dano e coação de testemunhas, envolvendo inclusive pais e um tio dos envolvidos, posteriormente indiciados.

O crime gerou comoção nacional, protestos e a mobilização de artistas, ativistas e cidadãos comuns sob a hashtag #JustiçaPorOrelha, evidenciando o aumento de episódios de violência extrema cometidos por jovens - muitas vezes registrados ou estimulados pela lógica de espetáculo das redes sociais.

A lógica da desumanização

Um era um ser humano - mas tratado como alguém de “segunda categoria”, por ser indígena, vítima histórica do racismo estrutural e da invisibilidade social em um país que ainda falha em reconhecer plenamente os direitos de seus povos originários.

O outro era um animal - dócil, inofensivo e comunitário - visto como descartável por viver nas ruas, reduzido à condição de objeto, o que permitiu aos agressores enquadrar sua barbárie como simples “brincadeira”.

Em ambos os casos, o denominador comum é o mesmo: a desumanização do outro e a certeza, explícita ou implícita, de que as consequências seriam mínimas. Filhos de juízes, empresários ou famílias influentes crescem, muitas vezes, em bolhas onde o poder protege, relativiza e silencia.

Para onde estamos indo?

Que tipo de sociedade estamos formando quando jovens capazes de tamanha crueldade são tratados como exceções, e não como sintomas? Esses adolescentes poderão, amanhã, ocupar cargos de poder - políticos, médicos, gestores, juízes. Que valores carregarão consigo?

Esses episódios não são desvios isolados. Eles refletem uma crise ética profunda, alimentada por desigualdades sociais, educação falha em empatia, elitismo, especismo e pela normalização da violência no espaço digital e no cotidiano.

Caminhamos para um futuro sombrio se não houver responsabilização rigorosa, políticas educacionais humanizadoras e um enfrentamento real das estruturas que naturalizam a violência contra os mais vulneráveis - sejam indígenas, animais ou minorias sociais.

A pergunta que ecoa é incômoda, mas necessária: se a impunidade persistir, estaremos abrindo caminho para novos horrores coletivos, para genocídios seletivos, para a repetição de tragédias que a história já nos ensinou a temer?

Ainda há tempo de refletir, corrigir rotas e construir uma sociedade verdadeiramente justa e compassiva. Mas o silêncio, a conivência e o esquecimento jamais serão neutros.

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