A Operação Valquíria
(em alemão, Unternehmen
Walküre) foi, originalmente, um plano de contingência do regime da Alemanha Nazista, elaborado durante a Segunda Guerra Mundial com a finalidade de
manter a ordem interna do país em caso de emergência.
O plano previa a mobilização do Exército de
Reserva (Ersatzheer) para assumir o controle de pontos estratégicos caso
houvesse levantes da população civil ou revoltas de trabalhadores estrangeiros -
muitos deles submetidos a trabalho forçado e trazidos dos territórios ocupados
para atuar na indústria bélica alemã.
O plano foi
concebido sob a supervisão do general Friedrich Olbricht, chefe do Escritório
Geral do Exército, e recebeu aprovação formal do próprio Adolf Hitler. Em sua forma original, tratava-se
apenas de um mecanismo de defesa interna do regime nazista, destinado a
preservar a estrutura estatal diante de possíveis tumultos.
Contudo, à
medida que a guerra avançava e as derrotas militares alemãs se acumulavam -
especialmente após Stalingrado - cresceu dentro de setores do Exército (Heer) a
convicção de que Hitler conduzia o país à ruína total.
Oficiais como o general Henning von Tresckow,
o general Friedrich Olbricht e, posteriormente, o coronel Claus von
Stauffenberg passaram a enxergar na Valquíria uma oportunidade para derrubar o
regime por meio de um golpe de Estado.
A ideia de
assassinar Hitler já vinha sendo discutida desde 1942, e houve tentativas
anteriores, como a fracassada ação de 13 de março de 1943. Após essas
experiências malsucedidas, os conspiradores concluíram que seria necessário um
plano mais abrangente e institucionalmente legitimado.
Assim, modificaram secretamente a Operação
Valquíria para que, após a morte de Hitler, o Exército de Reserva pudesse
ocupar ministérios, estações de rádio, centrais telefônicas, prédios do partido
nazista, quartéis da SS e até campos de concentração.
A morte de
Hitler - e não apenas sua prisão - era considerada essencial porque todos os
soldados e oficiais alemães haviam prestado juramento de lealdade pessoal a ele
(o Führereid).
Enquanto estivesse vivo, qualquer ordem contrária poderia ser interpretada como
traição direta.
Os conspiradores
também redigiram uma declaração que seria divulgada imediatamente após o
atentado, afirmando que Hitler havia sido morto por uma conspiração interna da
SS, que tentaria tomar o poder.
A intenção era convencer os comandantes
regionais de que estavam agindo para proteger o Estado alemão contra um suposto
golpe da própria liderança nazista. A execução do plano dependia crucialmente
do coronel-general Friedrich Fromm, comandante do Exército de Reserva, pois
apenas ele - além de Hitler - tinha autoridade formal para ativar a Operação
Valquíria.
Fromm tinha conhecimento da conspiração, mas
manteve postura ambígua: não a denunciava à Gestapo, mas também não se comprometia
plenamente com os conspiradores. Caso se recusasse a colaborar, deveria ser
neutralizado.
Em 20 de julho
de 1944, Stauffenberg levou uma bomba escondida em uma pasta para uma reunião
no quartel-general de Hitler, a Toca do Lobo, na Prússia
Oriental.
A explosão ocorreu, mas circunstâncias
imprevistas - como a posição da pasta e a estrutura da sala - impediram que
Hitler fosse morto. Embora ferido, ele sobreviveu.
Mesmo assim,
acreditando inicialmente no sucesso do atentado, Stauffenberg retornou a Berlim
e iniciou a Operação Valquíria. Por algumas horas, o golpe pareceu avançar:
ordens foram transmitidas, unidades do Exército de Reserva ocuparam prédios
estratégicos e oficiais da SS foram detidos em algumas localidades.
Porém, quando se confirmou que Hitler estava
vivo, a situação se inverteu rapidamente. A lealdade ao Führer prevaleceu, e o
plano desmoronou. Stauffenberg foi preso e executado na mesma noite.
Olbricht e outros oficiais também foram
mortos. Tresckow, ao saber do fracasso, suicidou-se no front oriental. O
marechal Erwin von Witzleben foi posteriormente executado após julgamento no
infame Tribunal do Povo.
Ludwig Beck, ex-chefe do Estado-Maior, tentou
suicídio e acabou sendo morto. Friedrich Fromm, buscando salvar a própria
posição, ordenou execuções imediatas de alguns conspiradores, mas ainda assim
foi preso depois e também executado.
As represálias
foram severas. Milhares de pessoas foram detidas, e estima-se que cerca de 5
mil membros reais ou supostos da resistência alemã tenham sido executados nos
meses seguintes. O regime intensificou a repressão, ampliando o poder da SS e
da Gestapo.
Historicamente,
a Operação Valquíria permanece um dos episódios mais complexos da resistência
alemã ao nazismo. Embora seus líderes fossem militares conservadores - muitos
deles inicialmente apoiadores do regime - passaram a agir movidos por razões
morais, estratégicas e patrióticas, ao perceberem a dimensão dos crimes
cometidos e a inevitável derrota da Alemanha.
Em 2008, o
episódio foi retratado no cinema no filme Operação
Valquíria, estrelado por Tom Cruise,
que dramatiza os acontecimentos a partir da perspectiva de Stauffenberg,
trazendo ao grande público um dos momentos mais dramáticos da história alemã do
século XX.
A Operação Valquíria, apesar de fracassada,
simboliza a existência de resistência interna ao regime nazista - ainda que
tardia e limitada - e revela o conflito moral enfrentado por parte da elite
militar alemã diante da catástrofe que se desenrolava na Europa.









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