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sábado, fevereiro 07, 2026

Epitáfio



Epitáfios: as últimas palavras gravadas na pedra

E, com uma letra bem pequena, quase imperceptível, lá estava escrito no seu epitáfio: “Tentou ser, não conseguiu; tentou ter, não possuiu; tentou continuar, não prosseguiu; e nessa vida de expectativas frustradas tentou até amar… Pois bem, não conseguiu, e aqui está.”

Essa frase circula amplamente na internet e em redes sociais atribuída a Dom Casmurro, de Machado de Assis. No entanto, trata-se de uma citação apócrifa, que não aparece no romance nem em nenhuma outra obra conhecida do autor.

Apesar disso, ela captura perfeitamente o espírito irônico e melancólico de Machado, especialmente o tom de fracasso existencial e de ironia amarga que permeia livros como Memórias Póstumas de Brás Cubas e o próprio Dom Casmurro.

O narrador Bentinho, com seu ciúme obsessivo e sua vida marcada por dúvidas e arrependimentos, poderia muito bem ter inspirado algo semelhante, mas a frase em si é uma criação posterior, provavelmente de autor anônimo, que ganhou vida própria na cultura popular brasileira.

O que são epitáfios?

Epitáfios são inscrições colocadas em túmulos, lápides, mausoléus ou placas comemorativas nos cemitérios, destinadas a homenagear, recordar ou até ironizar a vida da pessoa ali sepultada.

Tradicionalmente escritos em verso (daí o nome, do grego epi = sobre + taphos = túmulo), eles variam de poemas tocantes e piedosos a frases curtas, sarcásticas ou filosóficas.

Podem ser gravados em pedra, bronze ou metal, e muitas vezes revelam mais sobre a personalidade do falecido (ou de quem encomendou a inscrição) do que uma biografia inteira.

Exemplos célebres de epitáfios

Alguns epitáfios tornaram-se famosos pela ousadia, humor negro ou profundidade:

Atribuído a Maximilien Robespierre:

Passant, ne pleure pas ma mort (Passante, não chores minha morte)

Si je vivais, tu serais mort. (Se eu vivesse, tu estarias morto.)

Essa inscrição reflete o terror do período revolucionário francês, quando Robespierre, arquiteto do Reinado do Terror, acabou guilhotinado em 1794. O tom desafiador e vingativo resume sua figura controversa.

Um clássico anônimo ou popular em várias culturas: A vida é noite: o sol tem véu de pedra. Essa frase poética e enigmática evoca a ideia de que a morte cobre a luz da existência com a escuridão definitiva da lápide.

Outros exemplos famosos incluem o de Shakespeare (com um aviso contra quem mexesse nos ossos), o de Groucho Marx (atribuído postumamente: “Eu não queria pertencer a nenhum clube que me aceitasse como membro”) ou epitáfios brasileiros cheios de humor, como “Aqui jaz Fulano, que morreu de repente, de tanto esperar a vez”.

Machado de Assis, aliás, tinha fascínio por epitáfios. Em seus textos, ele os menciona como expressão de um “pio e secreto egoísmo” humano: o desejo de deixar ao menos um vestígio, um “farrapo da sombra que passou”, mesmo depois da morte.

Essas últimas palavras, sejam verdadeiras ou inventadas, continuam a nos fazer refletir sobre fracassos, ambições e o que realmente resta quando tudo termina. Às vezes, uma frase pequena na pedra diz mais do que uma vida inteira de discursos.

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