Tive amores que não pude viver. Ficaram
suspensos no tempo, como cartas nunca enviadas, guardando dentro de si tudo o
que poderia ter sido. O destino — ou talvez minhas próprias hesitações —
encarregou-se de levá-los, deixando apenas um eco persistente, um vazio que,
vez ou outra, ainda sussurra no peito.
Também vivi
amores que não deveriam ter existido. Entreguei-me a afetos frágeis,
construídos sobre promessas que não resistiram ao primeiro sopro da realidade.
Foram como castelos de areia: belos à
distância, mas inevitavelmente desfeitos pelas ondas da verdade. Ainda assim,
cada um deles deixou marcas. Os que não vivi, feridas silenciosas; os que vivi
mal, lições que me moldaram.
Enfrentei
disputas desnecessárias, batalhas movidas por orgulho, insegurança ou medo. Em
muitos momentos, o silêncio teria sido mais nobre que qualquer palavra dita.
Mas também houve guerras inevitáveis — aquelas que nascem no íntimo e que não
permitem fuga.
Nessas, o coração, mesmo ferido, exige voz. E
é nesse embate entre calar e falar, recuar e insistir, que fui me construindo. Aprendi,
nem sempre a tempo, que a paz tem um valor maior que a vitória — embora seja
muito mais difícil de alcançar.
Disse palavras que não deveriam ter saído de
mim, lançadas como flechas em momentos de descuido, atingindo onde só o afeto
poderia tocar. E, em contrapartida, calei verdades que pediam passagem,
aprisionadas pelo medo, pelo orgulho ou pela dúvida.
Talvez, se tivessem sido ditas, caminhos
teriam mudado — o meu, o de outros, ou até o de encontros que nunca
aconteceram. Percebo hoje que cada palavra, dita ou omitida, é um fio delicado
na tapeçaria da minha existência.
Algumas tramas são tortas, outras
surpreendentemente belas. Muitas vezes, gastei energia com o que era
passageiro, seduzido por brilhos que não aquecem a alma, enquanto negligenciei
o essencial: o tempo compartilhado, o cuidado, a presença verdadeira.
Acreditei em
sonhos que me fizeram voar, que deram cor aos dias e sentido aos passos. Mas
também fechei os olhos para a realidade quando ela exigia coragem. Houve
momentos em que preferi o conforto de ilusões à dureza da verdade. Em outros,
rejeitei verdades importantes, talvez por não estar pronto para elas.
Já me deixei
enganar, acolhendo mentiras como abrigo provisório. E, paradoxalmente,
desdenhei verdades que poderiam ter me libertado. Vivi instantes de alegria tão
intensos que pareciam eternos — e talvez sejam, de alguma forma, na memória.
Mas também atravessei noites densas, em que a
esperança parecia distante, quase inexistente. Perdi-me em caminhos que eu
mesmo tracei, labirintos erguidos com minhas escolhas e meus medos. Ainda
assim, encontrei saídas. Em pequenos momentos de lucidez, a vida — com sua
estranha mistura de dureza e generosidade — ofereceu sinais, brechas,
recomeços.
E então me
pergunto: por que sou assim, tão contraditório, tão incompleto? Por que carrego
o peso de decisões que ferem, ao lado da leveza de outras que salvam? Talvez
porque ser humano seja exatamente isso: um encontro imperfeito entre o erro e o
desejo, entre a queda e a tentativa de reerguer-se.
Sou feito de
tudo o que vivi e também do que não vivi. De palavras mal ditas e de silêncios
que ecoam. De sonhos abandonados e de outros que ainda resistem, mesmo frágeis.
E é justamente nessa imperfeição que encontro
algo verdadeiro: viver não é acertar sempre, mas continuar buscando; não é
entender tudo, mas permitir-se sentir.
Sigo, portanto,
com o coração aberto — ainda que marcado. Caminho entre sombras e pequenas
luzes, aprendendo aos poucos que talvez o sentido da vida não esteja em chegar
a algum lugar definitivo, mas na coragem de continuar. Continuar apesar das
falhas, das dúvidas, das perdas.
Continuar sendo, acima de tudo, humano — imperfeito, contraditório, mas inteiro.









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