Quando o barulho governa
“Por que meia
dúzia de gafanhotos sob uma samambaia faz o campo tinir com seu inoportuno
zumbido, enquanto milhares de cabeças de gado, repousando à sombra do carvalho
inglês, ruminam em silêncio? Não imagine, portanto, que aqueles que fazem
barulho sejam os únicos habitantes do campo, ou que sejam, logicamente, mais
numerosos, ou ainda que signifiquem mais do que um pequeno grupo de insetos
efêmeros, secos, magros, saltitantes, espalhafatosos e inoportunos.”
- Edmund Burke
No mundo
contemporâneo, o campo político passou a ser governado pelo ruído. Não pelo
número, não pela consistência das ideias, nem pela densidade moral das
propostas, mas pela capacidade de produzir escândalo contínuo.
A metáfora de Edmund Burke encontra hoje sua
tradução mais precisa nas redes sociais, nos ciclos de indignação instantânea e
na política transformada em espetáculo permanente.
Minorias
barulhentas ocupam o espaço público como se fossem a totalidade da sociedade.
Gritam, ameaçam, cancelam, distorcem e pressionam até que sua presença
artificial seja confundida com maioria legítima.
A repetição cria a ilusão do consenso; o
algoritmo substitui o debate; o volume toma o lugar da razão. Não importa a
profundidade do argumento, mas sua capacidade de provocar reação.
Enquanto isso, a
maioria silenciosa, que trabalha, paga impostos, sustenta serviços públicos e
arca com as consequências das decisões políticas, permanece invisível.
Não porque seja irrelevante, mas porque não
grita, não viraliza e não se organiza em torno do caos. Seu silêncio, no
entanto, tem sido interpretado como concordância, quando muitas vezes é apenas
exaustão.
Governantes,
reféns do barulho, passam a legislar para os mais ruidosos. Políticas públicas
deixam de atender ao interesse coletivo e passam a responder a pressões
episódicas, hashtags do dia e crises fabricadas.
A prudência cede lugar à reação imediata; a
responsabilidade, à performance; o longo prazo, ao impacto instantâneo. O
resultado é um Estado errático, instável e permanentemente acuado.
A imprensa, por
sua vez, frequentemente abandona o papel de mediadora crítica para tornar-se
amplificadora do ruído. O que grita mais alto vira manchete; o que é complexo
vira rodapé. Assim, os gafanhotos não apenas zumbem - eles pautam. E o campo
inteiro passa a vibrar ao ritmo de sua agitação frenética.
Burke nos lembra
que barulho não é sinônimo de legitimidade. O perigo não está apenas nos
insetos espalhafatosos, mas na disposição das instituições em tratá-los como
representantes do todo.
Quando isso acontece, a política deixa de ser
o espaço do comum e se transforma numa arena de histerias concorrentes, onde
vence quem grita mais alto, não quem pensa melhor.
Ignorar os
silenciosos é um erro histórico recorrente. Eles podem permanecer calados por
muito tempo, mas são eles que sustentam a paisagem social. Quando finalmente
reagem, não o fazem em forma de zumbido, mas de ruptura.
A história mostra que regimes não caem por
causa do barulho dos poucos, mas pela paciência esgotada dos muitos. No fim, a
advertência de Burke é clara e atual: quando o ruído passa a governar, a
política deixa de servir à sociedade e passa a servi-lo como espetáculo.
E nenhum campo resiste por muito tempo quando insetos efêmeros são confundidos com raízes profundas.








.jpg)

0 Comentários:
Postar um comentário