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sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Inoportunos


Quando o barulho governa

“Por que meia dúzia de gafanhotos sob uma samambaia faz o campo tinir com seu inoportuno zumbido, enquanto milhares de cabeças de gado, repousando à sombra do carvalho inglês, ruminam em silêncio? Não imagine, portanto, que aqueles que fazem barulho sejam os únicos habitantes do campo, ou que sejam, logicamente, mais numerosos, ou ainda que signifiquem mais do que um pequeno grupo de insetos efêmeros, secos, magros, saltitantes, espalhafatosos e inoportunos.”

- Edmund Burke

No mundo contemporâneo, o campo político passou a ser governado pelo ruído. Não pelo número, não pela consistência das ideias, nem pela densidade moral das propostas, mas pela capacidade de produzir escândalo contínuo.

A metáfora de Edmund Burke encontra hoje sua tradução mais precisa nas redes sociais, nos ciclos de indignação instantânea e na política transformada em espetáculo permanente.

Minorias barulhentas ocupam o espaço público como se fossem a totalidade da sociedade. Gritam, ameaçam, cancelam, distorcem e pressionam até que sua presença artificial seja confundida com maioria legítima.

A repetição cria a ilusão do consenso; o algoritmo substitui o debate; o volume toma o lugar da razão. Não importa a profundidade do argumento, mas sua capacidade de provocar reação.

Enquanto isso, a maioria silenciosa, que trabalha, paga impostos, sustenta serviços públicos e arca com as consequências das decisões políticas, permanece invisível.

Não porque seja irrelevante, mas porque não grita, não viraliza e não se organiza em torno do caos. Seu silêncio, no entanto, tem sido interpretado como concordância, quando muitas vezes é apenas exaustão.

Governantes, reféns do barulho, passam a legislar para os mais ruidosos. Políticas públicas deixam de atender ao interesse coletivo e passam a responder a pressões episódicas, hashtags do dia e crises fabricadas.

A prudência cede lugar à reação imediata; a responsabilidade, à performance; o longo prazo, ao impacto instantâneo. O resultado é um Estado errático, instável e permanentemente acuado.

A imprensa, por sua vez, frequentemente abandona o papel de mediadora crítica para tornar-se amplificadora do ruído. O que grita mais alto vira manchete; o que é complexo vira rodapé. Assim, os gafanhotos não apenas zumbem - eles pautam. E o campo inteiro passa a vibrar ao ritmo de sua agitação frenética.

Burke nos lembra que barulho não é sinônimo de legitimidade. O perigo não está apenas nos insetos espalhafatosos, mas na disposição das instituições em tratá-los como representantes do todo.

Quando isso acontece, a política deixa de ser o espaço do comum e se transforma numa arena de histerias concorrentes, onde vence quem grita mais alto, não quem pensa melhor.

Ignorar os silenciosos é um erro histórico recorrente. Eles podem permanecer calados por muito tempo, mas são eles que sustentam a paisagem social. Quando finalmente reagem, não o fazem em forma de zumbido, mas de ruptura.

A história mostra que regimes não caem por causa do barulho dos poucos, mas pela paciência esgotada dos muitos. No fim, a advertência de Burke é clara e atual: quando o ruído passa a governar, a política deixa de servir à sociedade e passa a servi-lo como espetáculo.

E nenhum campo resiste por muito tempo quando insetos efêmeros são confundidos com raízes profundas.

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