Diga-lhes a verdade. Diga-lhes que Papai Noel
não existe. Diga-lhes que Satanás não é negro - associação construída
historicamente para demonizar corpos, culturas e espiritualidades africanas
durante a expansão do cristianismo europeu.
Diga-lhes que cada povo possui seus
antepassados, sua memória espiritual e seu egregora - conceito presente em
diversas tradições africanas e também estudado pela antropologia e pela
sociologia das religiões.
Diga-lhes que nossos rituais não são
bruxaria. São sistemas simbólicos complexos, organizados, com ética, cosmologia
e função social, anteriores às religiões abraâmicas e tão estruturados quanto
elas.
Diga-lhes que tudo começou no Egito africano,
o Kemet dos próprios egípcios.
A arqueologia, a linguística e a genética apontam o Vale do Nilo como uma
civilização africana negra, ligada culturalmente à Núbia, Kush e ao restante do
continente.
O historiador senegalês Cheikh Anta Diop
demonstrou, por meio de análises craniométricas, estudos de melanina,
linguística comparada e fontes greco-romanas, que os antigos egípcios eram
africanos negros - tese hoje amplamente debatida, mas sustentada por evidências
sólidas.
Autores clássicos como Heródoto, Diodoro da
Sicília e Estrabão descrevem os egípcios como de “pele escura” e “cabelos
crespos”. Não se trata de ideologia moderna, mas de registros antigos.
Diga-lhes que o Egito foi um centro avançado
de ciência, matemática, medicina, filosofia e arquitetura quando a Europa ainda
atravessava longos períodos de obscuridade técnica.
Os papiros matemáticos de Rhind e Moscou
demonstram domínio de geometria, frações, cálculo de áreas e volumes cerca de
2.000 anos antes da Grécia clássica.
Diga-lhes que Pitágoras, Tales de Mileto e Platão
estudaram no Egito. Isso é reconhecido por fontes gregas antigas. Ainda assim,
a história preferiu apagar os mestres africanos e glorificar apenas os
discípulos europeus.
Diga-lhes que Imhotep, arquiteto da pirâmide
de Djoser, médico, engenheiro e filósofo, é o verdadeiro pai da medicina
científica, citado em papiros médicos como o Papiro Edwin Smith - mas permanece
ausente dos currículos escolares.
Diga-lhes que Cristóvão Colombo não descobriu
as Américas. Povos indígenas já habitavam o continente há dezenas de milhares
de anos. Há também estudos controversos, porém relevantes, sobre possíveis
contatos africanos pré-colombianos, como os apresentados por Ivan Van Sertima,
que analisou evidências botânicas, linguísticas e escultóricas (notadamente as
cabeças colossais olmecas).
Diga-lhes que Mansa Musa, imperador do Mali
no século XIV, foi o homem mais rico da história registrada. Relatos árabes
contemporâneos descrevem que sua peregrinação a Meca foi tão grandiosa que
causou inflação no Egito por mais de uma década. O Império do Mali mantinha
universidades, bibliotecas e centros de estudo em Timbuktu, Djenné e Gao.
Diga-lhes que a África escrevia antes da
chegada dos missionários. Existiam sistemas como o hieróglifo egípcio, o meroítico,
o ge’ez, o tifinagh e vastas tradições de manuscritos em árabe e línguas
africanas, hoje preservadas em coleções privadas e públicas no Sahel.
Diga-lhes que o concreto (betão) já era
utilizado no Egito antigo, como demonstram estruturas duráveis feitas com
misturas de calcário e materiais aglutinantes, séculos antes do concreto
romano.
Diga-lhes que o ancestral mais antigo da
humanidade foi encontrado na África:
Lucy (Australopithecus afarensis), descoberta na Etiópia, e fósseis ainda mais
antigos no Chade e no Quênia confirmam cientificamente que a África é o berço
da humanidade - consenso absoluto da paleoantropologia moderna.
Diga-lhes também que museus ocidentais estão
repletos de arte africana saqueada durante expedições coloniais punitivas. O Relatório
Sarr–Savoy (2018), encomendado pelo governo francês, reconhece oficialmente o
roubo sistemático de patrimônio cultural africano.
Diga-lhes que o vandalismo nos narizes das
estátuas egípcias não é mera erosão. Historiadores da arte e arqueólogos
documentaram práticas deliberadas de mutilação simbólica para apagar traços
africanos e negar a identidade negra do Egito antigo.
Diga-lhes, por fim, que a união é condição de
sobrevivência. Que nenhuma libertação veio por milagre. Que o trabalho, a
consciência histórica e a reconstrução da memória são atos revolucionários.
E diga-lhes para não esperar que o maná caia
do céu - porque a história não se escreve ajoelhada, mas de pé.









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