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segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Padre Mário Pais de Oliveira – “Fátima nunca mais”


 

Mário Pais de Oliveira, mais conhecido como Padre Mário de Oliveira ou Padre da Lixa, nasceu em Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira, a 8 de março de 1937. Foi presbítero, filósofo, teólogo, jornalista e escritor português.

Ordenado sacerdote na Igreja Católica, afastou-se progressivamente da ortodoxia institucional, identificando-se com o Jesuísmo - corrente que privilegia a mensagem ética, social e libertadora de Jesus de Nazaré, dissociando-a das estruturas dogmáticas e hierárquicas do catolicismo romano.

Ficou conhecido sobretudo pela sua postura crítica e interventiva durante a ditadura do Estado Novo, numa época em que grande parte do clero português se mantinha alinhada ou silenciosa perante o regime.

Antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, Padre Mário denunciou publicamente a Guerra Colonial, considerando-a injusta, imoral e contrária ao Evangelho. Essa posição valeu-lhe perseguição pela PIDE/DGS, a polícia política do regime, e levou-o a ser julgado duas vezes em Tribunal Plenário, instrumento judicial usado para reprimir opositores políticos.

Exerceu funções como professor de Religião e Moral no Liceu Normal D. Manuel II, no Porto. Posteriormente, foi enviado como capelão militar para a guerra colonial, experiência que marcou profundamente o seu percurso.

No contacto direto com soldados portugueses e populações locais, confrontou-se com os dramas humanos da guerra, a violência estrutural do colonialismo e o sofrimento psicológico dos combatentes, reforçando a sua oposição ao conflito e à lógica imperial do regime.

Quando foi levado a tribunal durante a ditadura, recebeu inicialmente apoio de vastos setores progressistas da Igreja Católica, de intelectuais e de movimentos democráticos. Contudo, esse apoio esbateu-se quando as suas posições teológicas e políticas passaram a ser consideradas demasiado heterodoxas.

O então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, figura ele próprio conhecida pela oposição ao Estado Novo, acabou por lhe retirar a paróquia de Macieira da Lixa, sinal claro do isolamento institucional a que Padre Mário foi votado dentro da hierarquia eclesiástica.

Apesar disso, manteve ao longo da vida uma ligação consistente a meios progressistas, ecuménicos e críticos, tanto dentro como fora da Igreja Católica. A sua reflexão teológica, filosófica e política aproximou-o cada vez mais do Jesuísmo, afastando-o do clericalismo, do culto mariano tradicional e da teologia dogmática.

Destacou-se igualmente pela sua intensa atividade como jornalista, sendo diretor do jornal Fraternizar, publicação de inspiração cristã libertadora, que continua a ser editada e que serviu como espaço de denúncia social, reflexão política e crítica eclesial.

A comunidade que dirigiu em Lourosa e na região da Lixa teve um papel relevante na solidariedade internacional, particularmente no apoio aos processos de democratização na América Latina.

Durante as décadas de 1970 e 1980, período marcado por ditaduras militares violentas em vários países latino-americanos, promoveu ações de denúncia, informação e apoio a movimentos populares e cristãos de base, em sintonia com a Teologia da Libertação.

Em abril de 1999, publicou em Portugal, pela Editora Campo das Letras, o livro Fátima nunca mais, obra que provocou forte polémica e alcançou oito edições em apenas doze meses.

No livro, Padre Mário de Oliveira procura desconstruir o mito das aparições de Fátima, apresentando argumentos históricos, psicológicos e sociológicos que, segundo o autor, desmentem a natureza sobrenatural dos acontecimentos de 1917.

Sustenta que a utilização de Jacinta Marto, Francisco Marto e Lúcia de Jesus dos Santos como instrumentos de uma narrativa religiosa institucionalizada teve consequências devastadoras para as suas vidas.

Acusa o clero local de Ourém e a hierarquia da Igreja Católica de abuso psicológico e espiritual, afirmando que os jejuns e práticas religiosas impostas contribuíram para o enfraquecimento físico das crianças, levando à morte prematura de Jacinta e Francisco, vítimas de pneumonia, e ao encerramento de Lúcia num convento, afastando-a da família e da vida civil.

Estas posições valeram-lhe duras críticas, condenações públicas e tentativas de silenciamento, mas também reforçaram o seu estatuto como voz dissidente e incómoda no interior da história recente do catolicismo português.

Morte

Após sofrer um grave acidente de carro a 26 de janeiro de 2022, em Macieira da Lixa, Padre Mário de Oliveira faleceu a 24 de fevereiro de 2022, no Hospital de Penafiel, poucos dias antes de completar 85 anos.

A sua morte encerrou uma vida marcada pela coerência ética, pela resistência à opressão política e religiosa, e por uma visão do cristianismo centrada na liberdade, na justiça social e na dignidade humana.

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