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quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Eternidade


“A esperança que o homem deposita na eternidade, em outro mundo, nasce do desespero que experimenta por não poder ser eterno neste mundo em que vive.”

Alexandre Dumas (1802-1870), célebre autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, foi um escritor romântico que explorou com frequência temas centrais da condição humana: a finitude, o sofrimento, a injustiça, o desejo de transcendência e a luta incessante contra os limites impostos pela existência.

Embora essa frase específica não esteja claramente vinculada a um romance, ensaio ou correspondência conhecida, ela sintetiza com precisão o espírito do romantismo do século XIX, marcado por uma visão melancólica da vida e pela consciência aguda da mortalidade.

Nesse pensamento, Dumas parece operar uma inversão psicológica da fé tradicional. A crença na eternidade não surge como fruto da revelação divina ou da certeza metafísica, mas como consequência direta do desespero humano diante da impossibilidade de permanecer.

O homem não acredita no além porque possui provas, mas porque precisa acreditar. Aceitar a ideia de que tudo se encerra no túmulo - que amores, memórias, dores e conquistas desaparecem no nada - revela-se, para muitos, insuportável.

Essa leitura antecipa reflexões que seriam desenvolvidas por filósofos posteriores. Schopenhauer, por exemplo, via a vida como uma sucessão de sofrimentos sustentados por ilusões necessárias, entre elas a esperança, que prolonga a dor ao prometer um sentido futuro que jamais se realiza plenamente.

Nietzsche, por sua vez, foi ainda mais incisivo ao afirmar que a esperança pode funcionar como um anestésico moral: algo que adia o confronto direto com a realidade e enfraquece a afirmação da vida tal como ela é.

No contexto histórico de Dumas, essa reflexão ganha contornos ainda mais densos. Ele viveu em uma Europa marcada por revoluções, colapsos políticos, guerras, restaurações monárquicas e profundas transformações sociais.

Era um tempo em que antigas certezas ruíam e novas promessas surgiam sem garantir estabilidade. Diante desse cenário instável e violento, muitos buscavam refúgio na religião, no espiritualismo nascente ou em utopias políticas que prometiam um futuro redentor.

O “outro mundo” - eterno, justo e imutável - funcionava como um antídoto simbólico contra a precariedade do mundo presente. Assim, a esperança na eternidade torna-se um bálsamo psicológico coletivo: uma forma de suportar a brevidade da vida, a fragilidade das conquistas humanas e a consciência dolorosa de que tudo o que é construído pode ruir.

A promessa do além suaviza o peso da perda e confere sentido àquilo que, de outro modo, pareceria absurdo. Em última instância, Dumas nos oferece uma observação lúcida e, ao mesmo tempo, cruel: nossa esperança de eternidade não nasce da certeza, mas da necessidade - da recusa humana em aceitar o nada. Seu pensamento nos provoca a uma reflexão incômoda, porém essencial: projetamos o paraíso futuro porque este presente nos parece insuportável?

Ou, ao contrário, será que reconhecer plenamente nossa fragilidade e finitude poderia nos tornar mais conscientes, mais intensos e verdadeiramente presentes no agora?

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