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sexta-feira, outubro 09, 2026

Quem é deus?


Quando crescemos, por que Deus não vira uma fábula?

Na infância, ouvimos histórias sobre o bicho-papão, Papai Noel, a cegonha que traz os bebês, fadas e tantos outros personagens fantásticos. Durante algum tempo, acreditamos naquilo porque confiamos nos adultos que nos contavam essas histórias.

Com o passar dos anos, porém, somos esclarecidos. Descobrimos serem apenas fábulas, tradições ou histórias criadas para explicar aquilo que ainda não compreendíamos. Com Deus, porém, parece diferente.

Você cresce e vê praticamente todos à volta adorando, temendo e obedecendo a um ser invisível que ninguém jamais viu. Dizem que ele está “lá em cima”, observando cada pensamento, cada palavra e cada atitude; premiando alguns, castigando outros e determinando o que devemos ou não devemos fazer.

E quase ninguém pergunta: como sabemos disso? Alguns de nós, entretanto, começamos a questionar. Onde está Deus? Se Deus existe e é onipotente, por que o mundo continua mergulhado em guerras, fome, injustiça e sofrimento?

Se Deus é perfeitamente bom, por que permite que crianças nasçam com doenças graves, cegueira, surdez, deficiências ou transtornos mentais? Como sabemos que a Bíblia é realmente um livro sagrado e não simplesmente uma coleção de textos escritos, reunidos e preservados por seres humanos ao longo dos séculos?

Se existem milhares de religiões e diferentes concepções de Deus espalhadas pelo planeta, por que alguém deveria ter certeza de que a sua religião é a única verdadeira? E, talvez, a pergunta mais incômoda de todas: será que existe mesmo, em algum lugar, esse ser supremo que nos ensinaram a imaginar?

Quando olhamos para o céu, não encontramos necessariamente um paraíso. Encontramos um universo imenso, antigo e praticamente inimaginável em sua dimensão. Galáxias, estrelas, planetas, nebulosas e fenômenos que desafiam nossa compreensão.

Diante dessa imensidão, talvez seja necessário admitir que aquilo que chamamos de “céu” pode ser muito diferente do lugar que aprendemos a imaginar na infância.

E então surge outra questão: se a Bíblia foi realmente inspirada por um Deus perfeito, bondoso e amoroso, por que encontramos nela passagens que hoje nos parecem moralmente perturbadoras?

Em Êxodo 21:7-8, por exemplo, aparecem leis relacionadas à venda de uma filha como serva. Em Levítico 25:44, são apresentadas orientações sobre a aquisição de escravos entre povos vizinhos.

Em 1 Coríntios 14:34, encontramos a conhecida orientação para as mulheres permanecerem caladas nas igrejas e serem submissas. Há ainda passagens que descrevem guerras, punições severas, submissão, escravidão e violência em nome de uma ordem considerada divina.

Em Mateus 10:34-36, Jesus aparece dizendo que não veio trazer paz, mas espada, e fala sobre a divisão entre familiares. Em outros trechos, encontramos uma visão do mundo que pertence claramente ao universo cultural e científico da Antiguidade.

Em Gênesis 3:14, por exemplo, a serpente é condenada a rastejar e comer pó como consequência de uma maldição. Há também passagens em que determinadas enfermidades ou comportamentos são associados à ação de demônios, como em Mateus 12:22, Marcos 9:25 e Lucas 8:27.

Hoje sabemos que cegueira, surdez, doenças mentais e inúmeras outras condições possuem explicações biológicas, neurológicas e psicológicas. Não precisamos mais recorrer a demônios para explicar aquilo que antes parecia inexplicável.

E talvez seja justamente aí que esteja o ponto central. Quando o conhecimento avança, algumas explicações antigas deixam de ser necessárias. O trovão já não precisa ser a manifestação da ira de um deus. Uma doença não precisa ser necessariamente uma punição divina. Um eclipse não precisa ser um sinal sobrenatural. E o universo não precisa ser pequeno apenas porque os homens antigos assim o imaginaram.

Isso não significa que toda pessoa religiosa seja ignorante, má ou incapaz de pensar. Muito pelo contrário. Existem pessoas profundamente inteligentes, honestas e generosas que encontram na religião uma fonte de conforto, esperança e sentido. A questão é outra.

Uma crença deixa de ser verdadeira simplesmente porque muitas pessoas acreditam nela? E mais: se uma ideia precisa ser protegida contra perguntas, ela realmente é uma verdade?

Talvez o maior problema não esteja em acreditar em Deus. O problema começa quando a crença se transforma em certeza e exige obediência, dinheiro, medo e silêncio.

É nesse momento que a fé pode deixar de ser uma experiência pessoal e transformar-se em instrumento de poder. E aqui surge uma pergunta particularmente desconfortável: se Deus é amor, por que algumas pessoas utilizam o nome dele para enriquecer às custas da fé e da fragilidade dos outros?

Se Deus conhece tudo, por que precisa de intermediários? Se Deus é onipotente, por que precisa de templos luxuosos? Se Deus é infinitamente poderoso, por que depende da contribuição financeira de pessoas pobres?

E, se Deus realmente deseja ser conhecido por todos, por que deixou o mundo dividido em milhares de religiões, cada uma afirmando possuir a verdade? Talvez não tenhamos respostas definitivas para essas perguntas.

Mas talvez não seja necessário ter. Questionar não é necessariamente negar. Duvidar não é necessariamente odiar. Pensar não é pecado. Talvez a verdadeira liberdade comece justamente quando deixamos de ter receio de perguntar.

Durante a infância, aprendemos que algumas histórias eram apenas histórias. Depois crescemos e começamos a separar fantasia de realidade. Talvez seja justamente nesse momento que devêssemos aplicar o mesmo critério a todas as nossas crenças: não acreditar simplesmente porque nos ensinaram, mas perguntar por que devemos acreditar.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja: “Você acredita em Deus?”

Mas esta: “Se você tivesse nascido em outra época, em outro país e dentro de outra religião, você acreditaria exatamente na mesma coisa?”

Se a resposta for não, talvez devêssemos pensar um pouco mais sobre quanto da nossa fé vem de uma escolha consciente e quanto dela simplesmente herdamos.

Afinal, uma verdade que não suporta perguntas talvez não seja uma verdade. Talvez seja apenas uma crença que nunca permitimos que fosse questionada. Você acredita que tudo isso seja obra de um Deus perfeitamente bom e amoroso?

A Bíblia realmente é um livro inspirado por um Deus bondoso – ou é um conjunto de textos humanos, escritos em épocas diferentes, refletindo os conhecimentos, os valores, os medos e as contradições daqueles que os escreveram?

A resposta, talvez, esteja menos nos templos e mais na coragem de pensar.

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