Quando crescemos, por que Deus não vira uma fábula?
Na infância, ouvimos histórias
sobre o bicho-papão, Papai Noel, a cegonha que traz os bebês, fadas e tantos
outros personagens fantásticos. Durante algum tempo, acreditamos naquilo porque
confiamos nos adultos que nos contavam essas histórias.
Com o passar dos anos, porém,
somos esclarecidos. Descobrimos serem apenas fábulas, tradições ou histórias
criadas para explicar aquilo que ainda não compreendíamos. Com Deus, porém,
parece diferente.
Você cresce e vê praticamente
todos à volta adorando, temendo e obedecendo a um ser invisível que ninguém
jamais viu. Dizem que ele está “lá em cima”, observando cada
pensamento, cada palavra e cada atitude; premiando alguns, castigando outros e
determinando o que devemos ou não devemos fazer.
E quase ninguém pergunta: como
sabemos disso? Alguns de nós, entretanto, começamos a questionar. Onde está
Deus? Se Deus existe e é onipotente, por que o mundo continua mergulhado em
guerras, fome, injustiça e sofrimento?
Se Deus é perfeitamente bom,
por que permite que crianças nasçam com doenças graves, cegueira, surdez,
deficiências ou transtornos mentais? Como sabemos que a Bíblia é realmente um
livro sagrado e não simplesmente uma coleção de textos escritos, reunidos e
preservados por seres humanos ao longo dos séculos?
Se existem milhares de
religiões e diferentes concepções de Deus espalhadas pelo planeta, por que
alguém deveria ter certeza de que a sua religião é a única verdadeira? E,
talvez, a pergunta mais incômoda de todas: será que existe mesmo, em algum
lugar, esse ser supremo que nos ensinaram a imaginar?
Quando olhamos para o céu, não
encontramos necessariamente um paraíso. Encontramos um universo imenso, antigo
e praticamente inimaginável em sua dimensão. Galáxias, estrelas, planetas,
nebulosas e fenômenos que desafiam nossa compreensão.
Diante dessa imensidão, talvez
seja necessário admitir que aquilo que chamamos de “céu” pode ser
muito diferente do lugar que aprendemos a imaginar na infância.
E então surge outra questão:
se a Bíblia foi realmente inspirada por um Deus perfeito, bondoso e amoroso,
por que encontramos nela passagens que hoje nos parecem moralmente
perturbadoras?
Em Êxodo 21:7-8, por exemplo,
aparecem leis relacionadas à venda de uma filha como serva. Em Levítico 25:44,
são apresentadas orientações sobre a aquisição de escravos entre povos
vizinhos.
Em 1 Coríntios 14:34,
encontramos a conhecida orientação para as mulheres permanecerem caladas nas
igrejas e serem submissas. Há ainda passagens que descrevem guerras, punições
severas, submissão, escravidão e violência em nome de uma ordem considerada
divina.
Em Mateus 10:34-36, Jesus
aparece dizendo que não veio trazer paz, mas espada, e fala sobre a divisão
entre familiares. Em outros trechos, encontramos uma visão do mundo que
pertence claramente ao universo cultural e científico da Antiguidade.
Em Gênesis 3:14, por exemplo,
a serpente é condenada a rastejar e comer pó como consequência de uma maldição.
Há também passagens em que determinadas enfermidades ou comportamentos são
associados à ação de demônios, como em Mateus 12:22, Marcos 9:25 e Lucas 8:27.
Hoje sabemos que cegueira,
surdez, doenças mentais e inúmeras outras condições possuem explicações
biológicas, neurológicas e psicológicas. Não precisamos mais recorrer a
demônios para explicar aquilo que antes parecia inexplicável.
E talvez seja justamente aí
que esteja o ponto central. Quando o conhecimento avança, algumas explicações
antigas deixam de ser necessárias. O trovão já não precisa ser a manifestação
da ira de um deus. Uma doença não precisa ser necessariamente uma punição
divina. Um eclipse não precisa ser um sinal sobrenatural. E o universo não
precisa ser pequeno apenas porque os homens antigos assim o imaginaram.
Isso não significa que toda
pessoa religiosa seja ignorante, má ou incapaz de pensar. Muito pelo contrário.
Existem pessoas profundamente inteligentes, honestas e generosas que encontram
na religião uma fonte de conforto, esperança e sentido. A questão é outra.
Uma crença deixa de ser
verdadeira simplesmente porque muitas pessoas acreditam nela? E mais: se uma
ideia precisa ser protegida contra perguntas, ela realmente é uma verdade?
Talvez o maior problema não
esteja em acreditar em Deus. O problema começa quando a crença se transforma em
certeza e exige obediência, dinheiro, medo e silêncio.
É nesse momento que a fé pode
deixar de ser uma experiência pessoal e transformar-se em instrumento de poder.
E aqui surge uma pergunta particularmente desconfortável: se Deus é amor, por
que algumas pessoas utilizam o nome dele para enriquecer às custas da fé e da
fragilidade dos outros?
Se Deus conhece tudo, por que
precisa de intermediários? Se Deus é onipotente, por que precisa de templos
luxuosos? Se Deus é infinitamente poderoso, por que depende da contribuição
financeira de pessoas pobres?
E, se Deus realmente deseja ser
conhecido por todos, por que deixou o mundo dividido em milhares de religiões,
cada uma afirmando possuir a verdade? Talvez não tenhamos respostas definitivas
para essas perguntas.
Mas talvez não seja necessário
ter. Questionar não é necessariamente negar. Duvidar não é necessariamente
odiar. Pensar não é pecado. Talvez a verdadeira liberdade comece justamente
quando deixamos de ter receio de perguntar.
Durante a infância, aprendemos
que algumas histórias eram apenas histórias. Depois crescemos e começamos a
separar fantasia de realidade. Talvez seja justamente nesse momento que
devêssemos aplicar o mesmo critério a todas as nossas crenças: não acreditar
simplesmente porque nos ensinaram, mas perguntar por que devemos acreditar.
No fim, talvez a pergunta mais
importante não seja: “Você acredita em Deus?”
Mas esta: “Se você
tivesse nascido em outra época, em outro país e dentro de outra religião, você
acreditaria exatamente na mesma coisa?”
Se a resposta for não, talvez
devêssemos pensar um pouco mais sobre quanto da nossa fé vem de uma escolha
consciente e quanto dela simplesmente herdamos.
Afinal, uma verdade que não
suporta perguntas talvez não seja uma verdade. Talvez seja apenas uma crença
que nunca permitimos que fosse questionada. Você acredita que tudo isso seja
obra de um Deus perfeitamente bom e amoroso?
A Bíblia realmente é um livro
inspirado por um Deus bondoso – ou é um conjunto de textos humanos, escritos em
épocas diferentes, refletindo os conhecimentos, os valores, os medos e as
contradições daqueles que os escreveram?
A resposta, talvez, esteja
menos nos templos e mais na coragem de pensar.









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