A história de Kamunyak é real, e há registros
contemporâneos de sua estranha relação com filhotes de órix na Reserva Nacional
de Samburu, no Quênia.
O primeiro episódio ocorreu no fim de
dezembro de 2001; a história ganhou repercussão internacional em janeiro de
2002. Uma reportagem da African Wildlife Foundation, publicada em 7 de janeiro
de 2002, registra que a leoa passou cerca de duas semanas acompanhando um
filhote de órix que normalmente seria uma de suas presas.
O que realmente aconteceu
Kamunyak era uma jovem leoa que passou a
adotar filhotes de órix-de-Beisa (Oryx gazella beisa). O comportamento era
extraordinário porque o órix é um animal que pode fazer parte da dieta dos
leões.
Ainda assim, em vez de matar os filhotes,
Kamunyak permanecia ao lado deles, protegia-os e, em determinados episódios,
chegou a permitir que suas mães biológicas se aproximassem para amamentá-los.
O primeiro filhote permaneceu com ela durante
aproximadamente 15-16 dias. Durante esse período, segundo o relato da
naturalista Saba Douglas-Hamilton, Kamunyak deixou praticamente de caçar e
ficou extremamente magra.
O episódio terminou quando um leão macho
encontrou o filhote enquanto Kamunyak estava junto ao rio e o matou. Depois
disso, ela voltou a procurar filhotes de órix.
Há registros contemporâneos de pelo menos
cinco adoções entre dezembro de 2001 e outubro de 2002. Algumas fontes
posteriores relatam uma sexta adoção, mas esse sexto episódio é menos bem
documentado.
O segundo filhote, adotado em 14 de fevereiro
de 2002, recebeu o nome de Valentine. Como estava enfraquecido e arriscava morrer, os funcionários do Kenya Wildlife Service decidiram retirá-lo da
leoa e encaminhá-lo para cuidados humanos.
Outro filhote, adotado durante o período da
Páscoa, chegou a ser deixado pela própria mãe para mamar, enquanto
Kamunyak permanecia por perto. Há também registros de outras adoções
posteriores.
E o nome “Kamunyak”?
Sim. O nome é geralmente traduzido como “a
abençoada” ou “a abençoada/miraculosa”, embora as fontes
apresentem variações na grafia: Kamunyak e Kamuniak. O nome foi dado por
habitantes locais diante daquele comportamento incomum.
Mas existe uma explicação científica?
Não é correto dizer que “ninguém
consegue explicar até hoje” como se houvesse uma investigação científica
conclusiva sobre Kamunyak. O que as fontes mostram é que o comportamento deixou
especialistas perplexos, que várias hipóteses foram levantadas.
Entre as possibilidades discutidas estavam: um
forte impulso maternal; uma possível gestação psicológica ou alteração
hormonal; a aparência e o comportamento do filhote, que poderiam ter
desencadeado um comportamento de cuidado; a possibilidade de o primeiro contato
ter ocorrido quando o órix era recém-nascido e ainda carregava odores
associados ao nascimento.
Nenhuma dessas hipóteses foi demonstrada como
a explicação definitiva. E, conforme uma fonte histórica recente sobre Samburu,
não há um estudo científico publicado especificamente sobre Kamunyak que
permita afirmar uma causa comprovada.
Há ainda um detalhe particularmente
interessante: Kamunyak não simplesmente “esqueceu que o órix era sua
presa”. Em alguns episódios, ela demonstrou um comportamento ativo de
proteção, inclusive impedindo outros predadores de se aproximarem.
Ela acabou se tornando uma das histórias mais
extraordinárias registradas na fauna de Samburu. Foi inclusive filmada por Saba
e Dudu Douglas-Hamilton no documentário Heart of a Lioness.


























