Em algum lugar da Índia, uma
fila de peças de artilharia está preparada. Atados à boca dos canhões, homens
aguardam a ordem de fogo. Eram rebeldes.
Em algum lugar de Angola,
soldados portugueses seguram um homem negro enquanto outro, com um machete,
prepara-se para decapitá-lo. Em outra fotografia, sua cabeça aparece espetada
em um pau, enquanto os soldados sorriem. Era um guerrilheiro.
Em algum lugar de Israel,
soldados imobilizam um palestino enquanto outro lhe agride violentamente a mão.
Ele havia atirado pedras.
Então chegamos a Nova York.
Em 11 de setembro de 2001,
dois aviões comerciais sequestrados por terroristas foram lançados contra as
Torres Gêmeas do World Trade Center. Um terceiro avião atingiu o Pentágono.
Milhares de pessoas morreram.
Nas fotografias de guerras e
torturas, o horror aparece diante dos nossos olhos. Em Nova York, porém, tudo
pareceu inicialmente irreal, como uma cena de cinema. Depois, quando pessoas
começaram a saltar das torres em busca de uma morte que lhes parecia
inevitável, compreendemos que aquilo não era ficção. O horror estava ali.
E não era novo. Já o havíamos visto em Ruanda, no Vietnã, em Hiroshima e Nagasaki, nos campos de extermínio
nazistas, nas execuções, nos massacres e em tantas outras tragédias provocadas
pelo próprio ser humano.
De alguma maneira, sempre
morreremos. Mas já se perdeu a conta de quantos seres humanos foram mortos das
maneiras mais cruéis que outros seres humanos conseguiram imaginar.
Uma dessas formas, talvez a
mais absurda, é matar em nome de Deus. Ao longo da história, religiões foram
associadas a perseguições, intolerâncias, guerras e violências.
A Inquisição é um dos exemplos
mais conhecidos de como religião e poder político puderam unir-se contra a
liberdade de consciência e contra o direito de alguém dizer não, discordar ou
escolher outro caminho.
Nietzsche afirmou que, se Deus
não existisse, tudo seria permitido. Eu diria o contrário: muitas atrocidades
foram permitidas e justificadas precisamente em nome de Deus.
Contudo, Deus está
inocente. Inocente como aquilo que não existe – segundo a visão de Saramago – e
que, portanto, não pode ser responsabilizado pelos crimes cometidos em seu
nome.
Os deuses, penso, existem no
cérebro humano. Prosperam ou desaparecem dentro do mesmo universo que os criou.
Mas o “fator Deus” permanece presente na vida humana como se fosse o verdadeiro
senhor dela.
Não é necessariamente Deus,
mas o “fator Deus”, que transforma crenças em certezas, alimenta
intolerâncias e faz com que homens se sintam autorizados a impor aos outros
aquilo em que acreditam.
Dir-se-á que um Deus semeou
ventos que outro respondeu com tempestades. Mas não foram eles, pobres deuses
sem culpa. Foi o “fator Deus”: essa força humana que pode transformar uma
crença em instrumento de poder, violência e intolerância.
Ao leitor crente, não peço que
se torne ateu. Peço apenas que reflita. Se existe um Deus, talvez exista apenas
um, independentemente do nome que cada religião lhe atribuiu. E, na relação
entre o ser humano e esse Deus, talvez o nome seja menos importante do que
aquilo que fazemos uns aos outros em seu nome.
Por isso, é preciso desconfiar
do “fator Deus”.
Porque existem muitos inimigos
da liberdade humana, mas poucos são tão persistentes e corrosivos quanto aquele
que transforma uma convicção pessoal em verdade absoluta e, depois, utiliza essa
verdade para justificar a intolerância.
⟿
Baseado no texto de José de
Sousa Saramago, escritor, romancista, poeta, jornalista, dramaturgo e ensaísta
português. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. - 16 de novembro de
1922 – 18 de junho de 2010.









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