Propaganda

sábado, outubro 03, 2026

O Fator Deus – José Saramago




Em algum lugar da Índia, uma fila de peças de artilharia está preparada. Atados à boca dos canhões, homens aguardam a ordem de fogo. Eram rebeldes.

Em algum lugar de Angola, soldados portugueses seguram um homem negro enquanto outro, com um machete, prepara-se para decapitá-lo. Em outra fotografia, sua cabeça aparece espetada em um pau, enquanto os soldados sorriem. Era um guerrilheiro.

Em algum lugar de Israel, soldados imobilizam um palestino enquanto outro lhe agride violentamente a mão. Ele havia atirado pedras.

Então chegamos a Nova York.

Em 11 de setembro de 2001, dois aviões comerciais sequestrados por terroristas foram lançados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center. Um terceiro avião atingiu o Pentágono. Milhares de pessoas morreram.

Nas fotografias de guerras e torturas, o horror aparece diante dos nossos olhos. Em Nova York, porém, tudo pareceu inicialmente irreal, como uma cena de cinema. Depois, quando pessoas começaram a saltar das torres em busca de uma morte que lhes parecia inevitável, compreendemos que aquilo não era ficção. O horror estava ali.

E não era novo. Já o havíamos visto em Ruanda, no Vietnã, em Hiroshima e Nagasaki, nos campos de extermínio nazistas, nas execuções, nos massacres e em tantas outras tragédias provocadas pelo próprio ser humano.

De alguma maneira, sempre morreremos. Mas já se perdeu a conta de quantos seres humanos foram mortos das maneiras mais cruéis que outros seres humanos conseguiram imaginar.

Uma dessas formas, talvez a mais absurda, é matar em nome de Deus. Ao longo da história, religiões foram associadas a perseguições, intolerâncias, guerras e violências.

A Inquisição é um dos exemplos mais conhecidos de como religião e poder político puderam unir-se contra a liberdade de consciência e contra o direito de alguém dizer não, discordar ou escolher outro caminho.

Nietzsche afirmou que, se Deus não existisse, tudo seria permitido. Eu diria o contrário: muitas atrocidades foram permitidas e justificadas precisamente em nome de Deus.

Contudo, Deus está inocente. Inocente como aquilo que não existe – segundo a visão de Saramago – e que, portanto, não pode ser responsabilizado pelos crimes cometidos em seu nome.

Os deuses, penso, existem no cérebro humano. Prosperam ou desaparecem dentro do mesmo universo que os criou. Mas o “fator Deus” permanece presente na vida humana como se fosse o verdadeiro senhor dela.

Não é necessariamente Deus, mas o “fator Deus”, que transforma crenças em certezas, alimenta intolerâncias e faz com que homens se sintam autorizados a impor aos outros aquilo em que acreditam.

Dir-se-á que um Deus semeou ventos que outro respondeu com tempestades. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa. Foi o “fator Deus”: essa força humana que pode transformar uma crença em instrumento de poder, violência e intolerância.

Ao leitor crente, não peço que se torne ateu. Peço apenas que reflita. Se existe um Deus, talvez exista apenas um, independentemente do nome que cada religião lhe atribuiu. E, na relação entre o ser humano e esse Deus, talvez o nome seja menos importante do que aquilo que fazemos uns aos outros em seu nome.

Por isso, é preciso desconfiar do “fator Deus”.

Porque existem muitos inimigos da liberdade humana, mas poucos são tão persistentes e corrosivos quanto aquele que transforma uma convicção pessoal em verdade absoluta e, depois, utiliza essa verdade para justificar a intolerância.

⟿

Baseado no texto de José de Sousa Saramago, escritor, romancista, poeta, jornalista, dramaturgo e ensaísta português. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. - 16 de novembro de 1922 – 18 de junho de 2010.

0 Comentários: