O caso do indígena Pataxó Galdino
Jesus dos Santos, queimado vivo enquanto dormia em um ponto de ônibus em
Brasília, e o do cão comunitário Orelha, brutalmente espancado e morto por adolescentes
de classe alta em Florianópolis, embora separados por quase três décadas,
revelam semelhanças perturbadoras.
Ambos escancaram a banalização
da violência, a desumanização - ou desvalorização da vida - e o sentimento de
impunidade que parece acompanhar determinados estratos privilegiados da
sociedade brasileira.
Não se trata apenas de crimes
isolados, mas de sintomas de uma estrutura social adoecida, na qual jovens
amparados por sobrenomes influentes, recursos financeiros e redes de proteção
agem como se estivessem acima da lei, da empatia e da própria noção de
humanidade.
O fogo contra o invisível
Na madrugada de 20 de abril de
1997, Galdino Jesus dos Santos, liderança da etnia Pataxó Hã-Hã-Hãe, de 44
anos, dormia em um banco de ponto de ônibus na quadra 703 Sul, em Brasília.
Ele havia viajado da Bahia à
capital federal junto a outras lideranças indígenas para participar de reuniões
com autoridades governamentais, reivindicando a demarcação de terras ancestrais
em meio a violentos conflitos fundiários no sul baiano.
Após as comemorações do Dia do
Índio na sede da Funai, Galdino não conseguiu retornar à pensão onde estava
hospedado, fechada durante a noite. Cansado, decidiu descansar ali mesmo -
decisão que lhe custaria a vida.
Cinco jovens, com idades entre
16 e 19 anos - Max Rogério Alves, Eron Chaves Oliveira, Tomás Oliveira de
Almeida, Antônio Novely Vilanova Cardoso (filho de um juiz federal) e Gutemberg
Nader Almeida Júnior - resolveram “se divertir”.
Jogaram líquido inflamável
sobre o corpo de Galdino e atearam fogo, afirmando posteriormente que
acreditavam se tratar de um mendigo e que queriam apenas “dar um susto”.
Galdino teve 95% do corpo
queimado, a maioria em terceiro grau. Ainda consciente, foi levado ao Hospital
Regional da Asa Norte, onde morreu horas depois, em estado de extrema dor e
lucidez - uma das faces mais cruéis desse crime.
Em 2001, os autores foram
condenados a 14 anos de prisão por homicídio com dolo eventual. No entanto,
progressões de pena, benefícios legais e a posterior reinserção social de
alguns - inclusive a ocupação de cargos públicos - reacenderam o debate
nacional sobre seletividade penal e impunidade.
O local do crime foi
transformado na Praça do Compromisso, rebatizada em 2023 como Praça Índio
Pataxó Galdino Jesus dos Santos, com uma escultura em sua memória - um gesto
simbólico que, embora necessário, não repara a falha estrutural do Estado.
A violência como “brincadeira”
Quase trinta anos depois, em 4
de janeiro de 2026, outro episódio de brutalidade chocou o país. Na Praia Brava,
bairro turístico de alto padrão no norte de Florianópolis, o cão comunitário Orelha,
conhecido por sua docilidade e cuidado coletivo dos moradores, foi espancado
até a morte por quatro adolescentes de 14 a 17 anos, também oriundos de famílias
influentes.
Utilizando paus ou objetos
contundentes, os jovens atingiram repetidamente a cabeça do animal, provocando
ferimentos irreversíveis que levaram à eutanásia para cessar seu sofrimento.
Não satisfeitos, ainda tentaram afogar outro cão, posteriormente chamado Caramelo,
que sobreviveu e acabou adotado pelo delegado-geral da Polícia Civil de Santa
Catarina.
Quando o caso veio à tona,
dois dos adolescentes estavam em viagem à Disney, nos Estados Unidos. Ao
retornarem, tiveram celulares apreendidos. A investigação apontou atos
infracionais de maus-tratos a animais, dano e coação de testemunhas, envolvendo
inclusive pais e um tio dos envolvidos, posteriormente indiciados.
O crime gerou comoção
nacional, protestos e a mobilização de artistas, ativistas e cidadãos comuns
sob a hashtag #JustiçaPorOrelha, evidenciando o aumento de episódios de
violência extrema cometidos por jovens - muitas vezes registrados ou
estimulados pela lógica de espetáculo das redes sociais.
A lógica da desumanização
Um era um ser humano - mas
tratado como alguém de “segunda categoria”, por ser indígena, vítima histórica
do racismo estrutural e da invisibilidade social em um país que ainda falha em
reconhecer plenamente os direitos de seus povos originários.
O outro era um animal - dócil,
inofensivo e comunitário - visto como descartável por viver nas ruas, reduzido
à condição de objeto, o que permitiu aos agressores enquadrar sua barbárie como
simples “brincadeira”.
Em ambos os casos, o
denominador comum é o mesmo: a desumanização do outro e a certeza, explícita ou
implícita, de que as consequências seriam mínimas. Filhos de juízes,
empresários ou famílias influentes crescem, muitas vezes, em bolhas onde o
poder protege, relativiza e silencia.
Para onde estamos indo?
Que tipo de sociedade estamos
formando quando jovens capazes de tamanha crueldade são tratados como exceções,
e não como sintomas? Esses adolescentes poderão, amanhã, ocupar cargos de poder
- políticos, médicos, gestores, juízes. Que valores carregarão consigo?
Esses episódios não são
desvios isolados. Eles refletem uma crise ética profunda, alimentada por
desigualdades sociais, educação falha em empatia, elitismo, especismo e pela
normalização da violência no espaço digital e no cotidiano.
Caminhamos para um futuro
sombrio se não houver responsabilização rigorosa, políticas educacionais
humanizadoras e um enfrentamento real das estruturas que naturalizam a
violência contra os mais vulneráveis - sejam indígenas, animais ou minorias
sociais.
A pergunta que ecoa é
incômoda, mas necessária: se a impunidade persistir, estaremos abrindo caminho
para novos horrores coletivos, para genocídios seletivos, para a repetição de
tragédias que a história já nos ensinou a temer?
Ainda há tempo de refletir, corrigir
rotas e construir uma sociedade verdadeiramente justa e compassiva. Mas o
silêncio, a conivência e o esquecimento jamais serão neutros.






















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