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quinta-feira, janeiro 29, 2026

Adrian Brody – O Pianista


 

O ator que sacrificou tudo por um papel?

Muitos atores participaram dos testes para o filme O Pianista (The Pianist, 2002), dirigido por Roman Polanski. Ainda assim, nenhum deles conseguiu provocar no diretor a convicção necessária para assumir um projeto tão pessoal e doloroso.

Polanski buscava mais do que técnica ou fama: queria um intérprete capaz de carregar no corpo e no silêncio o peso de uma das maiores tragédias do século XX.

Inicialmente, o diretor considerou o nome de Joseph Fiennes para o papel principal. No entanto, Fiennes recusou a proposta, preferindo dedicar-se ao teatro naquele período.

Foi então que o diretor de elenco sugeriu a Polanski um ator relativamente desconhecido, de apenas 27 anos, que havia chamado atenção em Além da Linha Vermelha (1998), de Terrence Malick.

Ao assistir ao seu trabalho, Polanski reconheceu algo raro: vulnerabilidade genuína aliada a intensidade contida. O nome do ator era Adrien Brody.

O Pianista narra a história real de Władysław Szpilman, compositor e pianista judeu-polonês que sobreviveu aos horrores da ocupação nazista em Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial.

Mais do que um relato sobre o Holocausto, o filme é uma experiência íntima de perda, silêncio e sobrevivência, temas que também atravessam a biografia do próprio Polanski, sobrevivente do gueto de Cracóvia.

Para se preparar para o papel, Brody decidiu mergulhar completamente na vida e no estado emocional de seu personagem. Convencido de que não bastava “interpretar” Szpilman, ele resolveu viver o despojamento.

Abriu mão de praticamente todos os confortos materiais e afetivos que possuía. Desocupou seu apartamento, vendeu o carro, cortou contato com amigos e familiares e desligou os telefones.

Em entrevista à BBC, o ator relatou com franqueza: “Saí do meu apartamento, vendi meu carro, desconectei meus telefones e fui embora. Tudo o que levei comigo foram duas mochilas com algumas roupas e meu teclado de piano para praticar.”

Brody viajou para a Europa e passou semanas perambulando pelo interior da Polônia, buscando absorver não apenas os cenários, mas o clima emocional e histórico dos lugares por onde Szpilman viveu e sofreu.

Como seu personagem era pianista profissional, dedicava várias horas diárias ao estudo do instrumento, concentrando-se sobretudo nas obras de Frédéric Chopin, cuja música atravessa o filme como um fio de humanidade em meio à barbárie.

O sacrifício físico também foi extremo. Para retratar de forma convincente as cenas de fome e exaustão, Brody perdeu cerca de 17 quilos em pouco tempo. Ao final da preparação, pesava apenas 62 quilos, encontrava-se constantemente fatigado e com níveis de energia drasticamente reduzidos. O impacto emocional foi igualmente severo.

“Foi um período muito difícil”, confessou o ator. “Eu não tinha mais nada que me reconfortasse. Não havia comida, nem pessoas queridas com quem conversar. Eu lia o tempo todo as memórias de Władysław Szpilman. Fiquei profundamente deprimido com os horrores que ele enfrentou.”

Esse estado de isolamento e fragilidade, embora doloroso, acabou se refletindo de maneira poderosa na tela. A interpretação de Brody é marcada por contenção, olhares vazios, gestos mínimos, uma atuação que comunica mais pelo silêncio do que pelas palavras, exatamente como exigia a história.

A dedicação radical valeu a pena. O Pianista tornou-se um dos filmes mais importantes sobre o Holocausto já realizados e foi amplamente aclamado pela crítica internacional. Em 2003, Adrien Brody entrou para a história ao receber o Oscar de Melhor Ator, tornando-se, até hoje, o mais jovem vencedor da categoria.

Mais do que um prêmio, sua performance permanece como um exemplo extremo de entrega artística, um lembrete de que, em raras ocasiões, alguns atores realmente sacrificam tudo para dar voz àqueles que quase foram silenciados pela história.O ator que sacrificou tudo por um papel?

Muitos atores participaram dos testes para o filme O Pianista (The Pianist, 2002), dirigido por Roman Polanski. Ainda assim, nenhum deles conseguiu provocar no diretor a convicção necessária para assumir um projeto tão pessoal e doloroso.

Polanski buscava mais do que técnica ou fama: queria um intérprete capaz de carregar no corpo e no silêncio o peso de uma das maiores tragédias do século XX.

Inicialmente, o diretor considerou o nome de Joseph Fiennes para o papel principal. No entanto, Fiennes recusou a proposta, preferindo dedicar-se ao teatro naquele período.

Foi então que o diretor de elenco sugeriu a Polanski um ator relativamente desconhecido, de apenas 27 anos, que havia chamado atenção em Além da Linha Vermelha (1998), de Terrence Malick.

Ao assistir ao seu trabalho, Polanski reconheceu algo raro: vulnerabilidade genuína aliada a intensidade contida. O nome do ator era Adrien Brody.

O Pianista narra a história real de Władysław Szpilman, compositor e pianista judeu-polonês que sobreviveu aos horrores da ocupação nazista em Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial.

Mais do que um relato sobre o Holocausto, o filme é uma experiência íntima de perda, silêncio e sobrevivência, temas que também atravessam a biografia do próprio Polanski, sobrevivente do gueto de Cracóvia.

Para se preparar para o papel, Brody decidiu mergulhar completamente na vida e no estado emocional de seu personagem. Convencido de que não bastava “interpretar” Szpilman, ele resolveu viver o despojamento.

Abriu mão de praticamente todos os confortos materiais e afetivos que possuía. Desocupou seu apartamento, vendeu o carro, cortou contato com amigos e familiares e desligou os telefones.

Em entrevista à BBC, o ator relatou com franqueza: “Saí do meu apartamento, vendi meu carro, desconectei meus telefones e fui embora. Tudo o que levei comigo foram duas mochilas com algumas roupas e meu teclado de piano para praticar.”

Brody viajou para a Europa e passou semanas perambulando pelo interior da Polônia, buscando absorver não apenas os cenários, mas o clima emocional e histórico dos lugares por onde Szpilman viveu e sofreu.

Como seu personagem era pianista profissional, dedicava várias horas diárias ao estudo do instrumento, concentrando-se sobretudo nas obras de Frédéric Chopin, cuja música atravessa o filme como um fio de humanidade em meio à barbárie.

O sacrifício físico também foi extremo. Para retratar de forma convincente as cenas de fome e exaustão, Brody perdeu cerca de 17 quilos em pouco tempo. Ao final da preparação, pesava apenas 62 quilos, encontrava-se constantemente fatigado e com níveis de energia drasticamente reduzidos. O impacto emocional foi igualmente severo.

“Foi um período muito difícil”, confessou o ator. “Eu não tinha mais nada que me reconfortasse. Não havia comida, nem pessoas queridas com quem conversar. Eu lia o tempo todo as memórias de Władysław Szpilman. Fiquei profundamente deprimido com os horrores que ele enfrentou.”

Esse estado de isolamento e fragilidade, embora doloroso, acabou se refletindo de maneira poderosa na tela. A interpretação de Brody é marcada por contenção, olhares vazios, gestos mínimos, uma atuação que comunica mais pelo silêncio do que pelas palavras, exatamente como exigia a história.

A dedicação radical valeu a pena. O Pianista tornou-se um dos filmes mais importantes sobre o Holocausto já realizados e foi amplamente aclamado pela crítica internacional. Em 2003, Adrien Brody entrou para a história ao receber o Oscar de Melhor Ator, tornando-se, até hoje, o mais jovem vencedor da categoria.

Mais do que um prêmio, sua performance permanece como um exemplo extremo de entrega artística, um lembrete de que, em raras ocasiões, alguns atores realmente sacrificam tudo para dar voz àqueles que quase foram silenciados pela história.

Touro de Bronze



 O Touro de Bronze: entre a lenda, o poder e o terror na Antiguidade

O Touro de Bronze figura entre os mais famosos - e controversos - instrumentos de punição atribuídos à Antiguidade. Segundo as tradições clássicas, ele teria sido concebido na Sicília, no século VI a.C., durante o governo do tirano Fálaris, déspota que controlava a cidade de Agrigento (então Akragas), uma das mais ricas colônias gregas do Mediterrâneo.

De acordo com autores antigos, como Diodoro da Sicília e Píndaro, Fálaris teria encomendado ao artesão Perilo de Atenas a criação de um dispositivo de execução que fosse, ao mesmo tempo, funcional e simbólico: uma máquina capaz de impor terror absoluto e demonstrar o poder ilimitado do governante. Assim teria surgido o chamado Touro de Bronze.

O artefato seria uma escultura oca, fundida inteiramente em bronze, com uma pequena porta lateral. O condenado era trancado em seu interior, enquanto uma fogueira era acesa sob a estrutura.

À medida que o metal se aquecia, o interior se tornava insuportável, levando a vítima à morte por calor extremo. Relatos antigos afirmam ainda que o touro possuía um engenhoso sistema acústico, no qual tubos e câmaras de ar transformavam os gritos humanos em um som grave e abafado, semelhante ao mugido de um touro - um detalhe que reforçaria o caráter simbólico e aterrador do instrumento.

A própria origem do artefato já carrega um tom moralizante. Segundo a lenda mais difundida, Perilo teria sido a primeira vítima da máquina que criou. Ao apresentar o dispositivo a Fálaris e demonstrar seu funcionamento, o artesão teria sido trancado no interior do touro pelo próprio tirano, em uma inversão cruel que serviria como advertência contra a bajulação do poder e a invenção da crueldade.

Entretanto, à medida que a historiografia moderna avançou, muitos estudiosos passaram a questionar a existência literal do Touro de Bronze, ao menos da forma descrita pelas fontes antigas.

A ausência de vestígios arqueológicos diretos e o caráter altamente simbólico dos relatos sugerem que o dispositivo pode ter sido, em parte, uma construção literária, destinada a retratar Fálaris como o arquétipo do tirano cruel - uma figura comum na tradição grega, frequentemente usada para ilustrar os excessos do poder absoluto.

Esse ceticismo historiográfico também se aplica a outros métodos de punição atribuídos à Antiguidade, como o escafismo, cuja descrição detalhada aparece sobretudo em textos tardios e moralizantes.

Em ambos os casos, é possível que práticas reais de execução tenham sido amplificadas, dramatizadas ou transformadas em alegorias, com o objetivo de causar impacto moral e político nos leitores.

Curiosamente, a própria tradição afirma que Fálaris teria morrido no Touro de Bronze, após ser deposto por Telêmaco, líder de uma revolta local. Essa narrativa de justiça poética - o tirano destruído por sua própria criação - reforça o caráter quase mítico do episódio, mais próximo de uma fábula política do que de um relato puramente factual.

Séculos mais tarde, o Touro de Bronze reaparece em fontes cristãs e romanas. Escritores cristãos afirmam que o dispositivo teria sido reutilizado pelo Império Romano como instrumento de martírio, especialmente contra cristãos.

Um dos casos mais citados é o de Santo Eustáquio, general romano convertido ao cristianismo, que, segundo a tradição hagiográfica, teria sido executado dentro de um Touro de Bronze juntamente com sua esposa e filhos, durante o reinado do imperador Adriano, no século II d.C.

Aqui, novamente, os historiadores fazem distinção entre tradição religiosa e evidência histórica. Embora as perseguições a cristãos sejam amplamente documentadas, o uso específico do Touro de Bronze permanece incerto, sendo mais provável que o símbolo tenha sido incorporado às narrativas cristãs como representação máxima da crueldade pagã.

Assim, o Touro de Bronze ocupa um lugar singular na história: menos como objeto comprovado e mais como símbolo duradouro do terror político. Ele representa o medo como ferramenta de governo, a teatralização da punição e a tentativa de transformar o sofrimento humano em espetáculo e advertência.

Seja mito, exagero literário ou realidade parcial, o Touro de Bronze atravessou os séculos como um lembrete inquietante de até onde o poder pode ir quando não encontra limites - e de como a violência, mesmo quando envolta em lendas, continua a ecoar como advertência histórica.

quarta-feira, janeiro 28, 2026

A Prisão de Abu Ghraib



 

A prisão de Abu Ghraib é um complexo penitenciário localizado na cidade de Abu Ghraib, no Iraque, a cerca de 32 km a oeste de Bagdá. Com uma área aproximada de 1,15 km², o local foi construído na década de 1960 por empreiteiras britânicas durante o período em que o Iraque ainda sofria forte influência colonial do Reino Unido.

O complexo contava com 24 torres de vigilância e era dividido em cinco áreas principais, separadas por muros altos, para segregar diferentes categorias de prisioneiros. Cada bloco incluía sala de jantar, área de orações, espaço para exercícios e instalações básicas de higiene.

As celas eram superlotadas, frequentemente abrigando mais de 40 pessoas em apenas 16 m².Abu Ghraib ganhou notoriedade mundial como um dos símbolos mais sombrios da repressão política no Iraque, servindo como local de tortura e execução em diferentes regimes e períodos históricos.

Sob o regime de Saddam Hussein (1979–2003)

Durante o governo do Partido Ba'ath, a prisão era controlada pela "Junta de Segurança Pública" (Al-Amn al-Amm) e era conhecida na imprensa ocidental como "Saddam's Torture Central" (Centro de Tortura de Saddam).

Milhares de prisioneiros políticos, incluindo xiitas, curdos e opositores do regime, foram torturados e executados ali. Relatórios da Anistia Internacional documentaram execuções em massa: mais de 4.000 prisioneiros em 1984, centenas em novembro de 1996, e várias centenas de xiitas entre 1998 e 2001.

A organização destacou a dificuldade de obter um quadro completo devido ao sigilo imposto pelas autoridades. O bloco de presos políticos era dividido em alas "aberta" (principalmente xiitas) e "fechada", sem visitas ou contato externo.

Durante a Guerra do Golfo (1991), prisioneiros de coalizão, como membros do Special Air Service britânico (incluindo o patrol Bravo Two Zero), também foram torturados no local.

Em 2001, a prisão abrigava mais de 15.000 detentos, muitos mantidos incomunicáveis desde a Guerra Irã-Iraque (1980–1988). Há relatos de alimentação forçada com plásticos e uso de prisioneiros como cobaias em experimentos com armas químicas e biológicas.

Um projeto de expansão para adicionar seis novos blocos estava em andamento antes de 2002. Em outubro de 2002, Saddam concedeu anistia a milhares de prisioneiros, levando ao esvaziamento da prisão. Com a invasão anglo-americana em março de 2003, o local foi abandonado, saqueado e vandalizado. Quase todos os documentos sobre prisioneiros foram queimados, causando danos estruturais graves.

Sepulturas coletivas associadas

Após a queda do regime, foram descobertas valas comuns ligadas a execuções em Abu Ghraib. Na região de Khan Dhari (oeste de Bagdá), corpos de prisioneiros políticos foram encontrados, incluindo 15 vítimas executadas em 26 de dezembro de 1998 e enterradas clandestinamente.

Em Al-Zahedi (limites oeste de Bagdá), sepulturas secretas próximas a um cemitério civil continham quase 1.000 corpos. Testemunhas relataram entregas regulares de 10 a 15 corpos da prisão para enterros civis.

Exemplos incluem 101 execuções em 10 de dezembro de 1999 e 58 em 9 de março de 2000, com o último corpo registrado como o de número 993.Sob controle da coalizão liderada pelos EUA (2003–2006).

Após a invasão, a prisão foi reaberta e renomeada Baghdad Central Confinement Facility (BCCF) ou Baghdad Central Correctional Facility. As forças dos EUA e do Reino Unido a usaram como principal centro de detenção, abrigando até mais de 7.000 prisioneiros no início de 2004.

Áreas como as alas 1A e 1B ("hard sites") concentraram os piores abusos. Um novo acampamento, Camp Redemption (construído em 2004), substituiu estruturas anteriores como Camp Ganci e Camp Vigilant.

Muitos detentos foram transferidos para Camp Bucca devido à superlotação. A Cruz Vermelha Internacional estimou que cerca de 90% dos detidos eram inocentes ou capturados sem evidências claras, muitas vezes em batidas aleatórias.

O escândalo explodiu em abril de 2004, quando a CBS divulgou fotos chocantes de soldados americanos abusando de prisioneiros: nus, em pilhas humanas, presos por trelas, ameaçados por cães, eletrocutados e humilhados sexualmente.

As imagens, tiradas por militares, causaram revolta global e expuseram violações sistemáticas. O governo Bush classificou os abusos como "casos isolados" de "maçãs podres".

Dezessete militares foram afastados; 11 enfrentaram tribunal marcial, com condenações variando de meses a 10 anos de prisão. A comandante Janis Karpinski foi rebaixada a coronel. George W. Bush pediu desculpas públicas, mas altos oficiais, como Donald Rumsfeld, não foram processados criminalmente.

Documentação do programa de tortura dos EUA

Os abusos em Abu Ghraib ligam-se aos "Torture Memos" (memorandos de tortura) do Departamento de Justiça (2002), que autorizavam "técnicas de interrogatório aprimoradas", incluindo privação de sono, posições de estresse, confinamento em espaços pequenos, simulação de afogamento e uso de insetos.

Esses métodos, amplamente classificados como tortura pela Convenção contra a Tortura (ratificada pelos EUA, mas interpretada de forma restritiva), foram autorizados caso a caso pela administração Bush.

Documentos revelados posteriormente (inclusive durante a presidência Obama) mostram que tais práticas migraram de Guantánamo e Afeganistão para o Iraque. O National Security Archive arquiva esses materiais no "Torture Archive".

Situação atual

Em 2006, os EUA transferiram o controle total para o governo iraquiano. A prisão foi reaberta como Baghdad Central Prison, mas fechada indefinidamente em 2014 por receio de tomada pelo Estado Islâmico (ISIS). O complexo permanece vazio, e valas comuns do período Saddam foram descobertas no local.

Em novembro de 2024, mais de 20 anos após o escândalo, um júri federal dos EUA condenou a contratada CACI (fornecedora de interrogadores) a pagar US$ 42 milhões a três ex-detentos iraquianos por conspiração em abusos - um raro caso de responsabilização civil, embora vítimas ainda busquem reparação plena do governo americano.

Abu Ghraib permanece um símbolo trágico de como regimes autoritários e ocupações podem perpetuar ciclos de tortura e impunidade, independente de ideologias ou bandeiras.


Coerência




Persistência inteligente: o segredo não é só continuar, mas continuar no caminho certo.

Se você persiste muito e, mesmo assim, não obtém sucesso, pergunte-se: estou persistindo em algo coerente? Estou agindo no lugar certo, no momento certo e com a abordagem adequada?

Imagine tentar vender cobertores no planeta Mercúrio, onde as temperaturas chegam a mais de 400 °C durante o dia, ou oferecer refrigeradores nos polos, onde o frio é extremo e constante.

E que tal comercializar galochas no meio do deserto do Saara? Essas ideias não são apenas difíceis: elas são fundamentalmente incoerentes com a realidade do mercado e do ambiente.

Nenhuma quantidade de esforço ou teimosia vai transformar uma oferta inadequada em sucesso sustentável. A persistência cega pode ser uma armadilha. Muitas pessoas gastam anos (e muita energia) defendendo uma ideia que simplesmente não faz sentido no contexto atual.

Antes de dobrar a aposta na força de vontade, faça uma análise honesta da sua oferta: Ela resolve uma dor real das pessoas? Existe demanda genuína no mercado? O preço, o momento e o canal de venda estão alinhados? Você está falando com o público certo?

Se a resposta for “sim” para a maioria dessas perguntas, então persista com inteligência. Ajuste, teste, melhore e continue, porque, como dizia Thomas Edison, o inventor que enfrentou mais de 10 mil tentativas fracassadas até aperfeiçoar a lâmpada incandescente:

“Existe uma maneira de fazer melhor. Encontre-a.”

(There's a way to do it better - find it.) Edison não persistiu apenas repetindo o mesmo erro. Ele usava cada fracasso como dado: eliminava o que não funcionava e refinava o processo.

Sua famosa frase “Não falhei. Apenas descobri 10.000 maneiras que não funcionam” mostra exatamente isso: persistência sem aprendizado é desperdício; persistência com análise e adaptação é o que leva à invenção e ao sucesso duradouro.

Outras citações inspiradoras de Edison que reforçam essa ideia:

“Nossa maior fraqueza está em desistir. O caminho mais certo para o sucesso é sempre tentar mais uma vez.”

“Muitos dos fracassos da vida são de pessoas que não perceberam o quão perto estavam do sucesso quando desistiram.”

Portanto, persista, mas persista com sabedoria. Avalie constantemente se o seu esforço está alinhado com a realidade. Se estiver, não pare: refine, experimente e encontre a maneira melhor.

O sucesso raramente vem da teimosia pura; ele nasce da persistência inteligente aliada à capacidade de aprender com cada obstáculo. E você, já parou para analisar se o que está perseguindo hoje é realmente coerente com o contexto?

Às vezes, o maior ato de coragem não é continuar no mesmo caminho, é ter a humildade de mudar de rota quando necessário.

terça-feira, janeiro 27, 2026

Jim Jones


 

James Warren “Jim” Jones nasceu em 13 de maio de 1931, no condado de Randolph, estado de Indiana, Estados Unidos. Tornou-se conhecido como fundador e líder da seita religiosa Templo dos Povos (Peoples Temple), responsável por um dos episódios mais chocantes do século XX: o assassinato-suicídio em massa ocorrido em novembro de 1978, na comunidade de Jonestown, na Guiana, que resultou na morte de 918 pessoas, entre elas mais de 300 crianças.

O episódio incluiu ainda o assassinato do congressista norte-americano Leo Ryan e de outras quatro pessoas, em Port Kaituma, Georgetown. A maioria das vítimas morreu por envenenamento com cianeto, administrado de forma coercitiva.

Jim Jones foi encontrado morto com um ferimento de bala na cabeça; embora não tenha havido testemunhas diretas, a versão mais aceita é a de suicídio.

Jim Jones nasceu em Creta, uma pequena cidade rural de Indiana. Era filho de James Thurman Jones (1887-1951), veterano da Primeira Guerra Mundial, e de Lynetta Putnam Jones (1902-1977), uma mulher profundamente religiosa que acreditava ter dado à luz alguém destinado a uma missão especial.

Jones afirmava ter ascendência indígena cherokee por parte materna, mas essa alegação jamais foi comprovada. Sua infância transcorreu durante a Grande Depressão, em um ambiente de pobreza e instabilidade familiar.

Em 1934, a família mudou-se para a região de Lynn, e, após a separação dos pais, Jim passou a viver com a mãe em Richmond, onde concluiu seus estudos em 1948.

Desde cedo, Jones demonstrou interesse intenso por religião, política e liderança social. Ainda jovem, leu avidamente obras sobre marxismo, socialismo e direitos civis. Admirava figuras como Paul Robeson, ativista negro e artista engajado, e apoiou a candidatura progressista de Henry A. Wallace à presidência dos Estados Unidos, em 1948.

Em 1949, casou-se com Marceline Baldwin, enfermeira que o acompanharia durante a ascensão do Templo dos Povos. O casal mudou-se para Indianápolis em 1951. Jones ingressou em um seminário metodista em 1952, mas foi afastado por defender abertamente a integração racial. Em seguida, teve contato com outros grupos religiosos, buscando uma síntese entre fé cristã e ação política.

Criação do Templo dos Povos

Em 1954, Jones fundou sua própria igreja em uma área racialmente integrada de Indianápolis. Após diversas mudanças de nome, a organização passou a chamar-se oficialmente Peoples Temple Christian Church Full Gospel, em 1959.

Nos primeiros anos, o Templo ganhou reconhecimento por sua atuação contra a segregação racial. Jones organizou campanhas para integrar restaurantes, hospitais e serviços públicos, o que lhe rendeu apoio político e atenção da imprensa local.

Em 1960, foi nomeado pelo prefeito Charles Boswell como diretor da Comissão de Direitos Humanos da cidade. Apesar disso, conflitos surgiram rapidamente. Jones passou a ser visto como uma figura controversa, acusado tanto de radicalismo político quanto de autoritarismo interno.

A “Família Arco-Íris”

Jim e Marceline Jones promoveram a adoção inter-racial como símbolo de igualdade e justiça social. Em 1954, adotaram Agnes, uma menina nativa americana. Nos anos seguintes, o casal adotou órfãos de guerra coreanos, uma criança afro-americana, a primeira a ser legalmente adotada por um casal branco em Indiana, e uma criança branca. O único filho biológico do casal foi Stephen Gandhi Jones.

Essa chamada “Família Arco-Íris” tornou-se uma vitrine pública do Templo, reforçando a imagem progressista de Jones. No entanto, ex-membros mais tarde relataram que muitas dessas ações eram utilizadas como instrumentos de propaganda e controle emocional.

Passagem pelo Brasil

A obsessão de Jones com a possibilidade de uma guerra nuclear marcou profundamente suas decisões. Em 1961, após discursos apocalípticos e a publicação de um artigo na revista Esquire que citava Belo Horizonte como um possível refúgio seguro, Jones decidiu viajar ao Brasil com a família.

Entre 1962 e 1963, viveu em Belo Horizonte e, posteriormente, no Rio de Janeiro, onde teve contato com comunidades pobres e explorou o sincretismo religioso local. Embora simpatizante do socialismo, Jones evitava se apresentar como comunista, preferindo falar em “vida comunitária apostólica”.

A experiência brasileira foi marcada por dificuldades financeiras, barreiras linguísticas e crescente instabilidade emocional. Ao saber que o Templo nos Estados Unidos corria risco de colapso sem sua presença, Jones retornou ao país.

Expansão na Califórnia

Em 1965, Jones iniciou a transferência da comunidade para Ukiah, na Califórnia. Na década seguinte, o Templo estabeleceu sedes em San Francisco e Los Angeles, tornando-se uma organização de grande visibilidade política e social.

Na primeira metade dos anos 1970, o Templo chegou a reunir cerca de 3 mil membros, majoritariamente afro-americanos de baixa renda. Jones construiu alianças com políticos, sindicatos e líderes comunitários. Paralelamente, aumentavam os relatos de abusos internos, controle psicológico e punições públicas.

Jonestown e o colapso final

Em 1974, o Templo arrendou terras na Guiana, próximo a Port Kaituma, onde criou o chamado Projeto Agrícola, conhecido como Jonestown. A comunidade começou a ser ocupada em 1977 e rapidamente tornou-se superpovoada, com condições precárias de alimentação, trabalho forçado, vigilância constante e isolamento total.

Jones passou a adotar um discurso cada vez mais paranoico, descrevendo o governo dos Estados Unidos como fascista e inimigo mortal da comunidade. Simulações de suicídio coletivo, chamadas de white nights, tornaram-se frequentes.

Após denúncias de ex-integrantes, o congressista Leo Ryan visitou Jonestown em novembro de 1978. Ao tentar deixar o local com desertores, Ryan e outras quatro pessoas foram assassinados por membros do Templo.

Poucas horas depois, Jones ordenou o envenenamento coletivo. 909 pessoas morreram em Jonestown, incluindo 304 crianças. O episódio foi registrado em uma gravação de áudio de 45 minutos, posteriormente recuperada pelo FBI.

Legado e significado histórico

A tragédia de Jonestown representou, até 2001, o maior número de civis norte-americanos mortos em um único ato deliberado. O caso tornou-se um marco no estudo de seitas, liderança carismática, manipulação psicológica e obediência extrema.

Jim Jones permanece como um símbolo sombrio de como discursos de justiça social, quando associados ao autoritarismo, à paranoia e ao culto à personalidade, podem resultar em violência extrema e destruição coletiva.

Jakobus Onnen e "O Último Judeu de Vinnytsia"


 

Jakobus Onnen nasceu em 3 de agosto de 1906. Foi um professor escolar alemão que se filiou ao Partido Nazista (NSDAP) em 1º de novembro de 1931, sob o número de filiação 723.098.

Àquela altura, o partido ainda era uma força política minoritária na República de Weimar, mas já exercia forte atração sobre setores radicalizados da sociedade alemã, incluindo professores, funcionários públicos e intelectuais que viam no nazismo uma promessa de ordem, estabilidade e redenção nacional diante da crise econômica, do desemprego e da humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes.

Nascido na região da Frísia Oriental, provavelmente em ou nas proximidades de Tichelwarf, uma pequena localidade rural, Onnen atuava como professor primário antes da ascensão de Adolf Hitler ao poder.

Como muitos educadores de sua geração, estava inserido em um sistema escolar pressionado por mudanças ideológicas profundas, no qual a neutralidade pedagógica foi rapidamente substituída por exigências de lealdade política.

Após 1933, com a consolidação do regime nazista, o sistema educacional alemão foi progressivamente “nazificado”. Professores passaram a ser instrumentos de doutrinação, responsáveis por incutir valores raciais, nacionalistas e antissemitas nas crianças e nos jovens.

Muitos se adaptaram por medo ou conveniência; outros, como Onnen, foram além da mera conformidade administrativa.

Onnen ingressou na Schutzstaffel (SS), a organização paramilitar de elite do regime, e acabou servindo em uma unidade móvel de extermínio, as chamadas Einsatzgruppen, responsáveis por assassinatos em massa nos territórios ocupados do Leste Europeu.

Essas unidades seguiam o avanço do exército alemão, executando judeus, ciganos, comissários políticos soviéticos e outros grupos considerados “inimigos do Reich”, geralmente por meio de fuzilamentos coletivos à beira de valas comuns.

Seu nome ganhou notoriedade apenas décadas depois, em 2025, quando historiadores, com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial, conseguiram identificar o executor presente em uma das fotografias mais conhecidas e perturbadoras do Holocausto: a imagem intitulada “O Último Judeu de Vinnytsia” (The Last Jew in Vinnitsa).

Tirada em 1941, na Ucrânia ocupada pelos nazistas, a fotografia mostra um soldado alemão apontando uma pistola para a cabeça de um homem judeu ajoelhado diante de uma vala repleta de cadáveres.

Por meio da análise facial, do cruzamento de registros militares e de documentos da SS, foi possível confirmar que o homem armado na imagem era Jakobus Onnen, então com cerca de 34 ou 35 anos.

A fotografia, apresentada publicamente pela primeira vez durante o julgamento de Adolf Eichmann, em 1961, tornou-se um símbolo da violência direta e cotidiana do genocídio, um lembrete de que o Holocausto não foi executado apenas por líderes distantes ou burocratas invisíveis, mas também por indivíduos comuns, muitas vezes com formação acadêmica e profissões socialmente respeitadas.

Jakobus Onnen morreu em 12 de agosto de 1943, aos 37 anos, provavelmente em combate ou em circunstâncias relacionadas à guerra. Nunca foi julgado nem responsabilizado judicialmente por sua participação nos crimes de extermínio.

Sua trajetória ilustra de forma exemplar o fenômeno dos chamados “perpetradores ordinários”: homens que não eram monstros no sentido caricatural, mas cidadãos comuns que, movidos por ideologia, ambição, obediência ou conformismo, tornaram-se agentes diretos de atrocidades em massa.

A história de Onnen permanece como um alerta inquietante sobre a facilidade com que a normalidade pode ser corrompida quando a violência é legitimada pelo Estado e a consciência moral é substituída pela obediência cega.

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Fazer Amor!


O mais importante não é a primeira vez que fizemos amor.

A primeira vez é fogo novo: descoberta, tremor, pressa e encanto. É o corpo ainda sem mapa, a curiosidade ardendo na pele, o coração acreditando que tudo começa ali e jamais terminará.

Mas ela logo se torna memória, uma fotografia antiga guardada no fundo da mente, algo que se conta com um sorriso nostálgico, quase sempre mais bonito do que foi.

Ela marca o começo, sim. Mas todo começo vem carregado de promessas que nem sempre se cumprem. O início é generoso com a esperança, pródigo em futuros inventados, indulgente com as imperfeições.

Acreditamos que o amor, só por ter nascido intenso, será eterno. O mais importante, porém, é a última vez.

A última vez não avisa que é a última. Não há placa, nem contagem regressiva, nem despedida solene. Não há música de fundo, nem discurso final. A vida segue banal, distraída, como se o amanhã estivesse garantido.

A gente faz amor como se houvesse tempo. Como se o corpo pudesse repetir cada gesto, cada suspiro, cada olhar que diz aquilo que as palavras nunca conseguem alcançar. É rotina e intimidade misturadas, é o conhecido que já não assusta, mas ainda acolhe.

E, de repente, aquele abraço que parecia igual aos outros vira o último. Aquele beijo, ainda carregado do gosto da rotina, vira o último. A pele que se conhece de cor, de memória e de cansaço, transforma-se em ausência.

A primeira vez virou passado, um capítulo bonito, encerrado. A última vez, não. Ela ainda pulsa. Está na pele que arrepia sozinha quando a lembrança chega sem aviso, no vazio que se instala no peito quando o silêncio da ausência grita.

Está no modo como o corpo trai a razão e revive, sem permissão, cada detalhe daquela noite que não sabia ser fim. Porque o amor raramente termina com palavras duras ou com uma porta batendo.

Muitas vezes ele acaba em silêncio, nas pequenas coisas que deixamos de fazer sem perceber: o último café tomado juntos sem pressa, o último “boa noite” dito sem drama, o último “eu te amo” que soou comum demais para ser reconhecido como adeus.

É exatamente por isso que a última vez pesa mais. Ela carrega todo o não-dito, tudo o que ainda poderíamos ter sido, todos os gestos adiados, todas as conversas que ficaram para depois. Carrega o futuro que evaporou sem alarde, sem escândalo, sem aviso.

Enquanto a primeira vez nos deu a ilusão da eternidade, a última nos entrega sua lição mais cruel e mais humana: nada é para sempre. Ainda assim, aquilo que foi verdadeiro não morre por completo. Fica gravado na alma, insistente, vivo, latejando, mesmo depois que o outro já se foi.

Francisco Silva Sousa

127 Horas de Aron Ralston


Esta imagem de Aron Ralston, isolado no fundo do Cânion Bluejohn, ultrapassa o simples registro de um acidente. Ela se transforma em um retrato cru da mente humana colocada diante do limite absoluto.

Com o braço direito preso sob uma rocha de cerca de 360 quilos, Aron não estava apenas imobilizado fisicamente; encontrava-se confrontado com a possibilidade real da própria finitude.

Nos primeiros momentos, sua reação foi dominada pela lógica e pela esperança racional. Tentou calcular forças, utilizar equipamentos, buscar soluções técnicas. Esse estágio revela um mecanismo psicológico comum: a recusa inicial em aceitar a gravidade da situação.

A mente insiste em acreditar que o controle ainda é possível. No entanto, à medida que as horas se transformaram em dias, essa ilusão começou a se desfazer.

O isolamento extremo teve um impacto profundo. Sem qualquer estímulo externo além do silêncio do cânion, Aron foi obrigado a voltar-se para dentro de si. A ausência de contato humano intensificou memórias, arrependimentos e reflexões sobre escolhas passadas.

Gravando mensagens para a família, ele não apenas se despedia, mas organizava simbolicamente sua própria história, como se precisasse dar sentido à vida antes que ela terminasse.

Nesse ponto, ocorre a virada psicológica mais significativa: a aceitação lúcida da realidade. Aron compreendeu que a espera passiva significaria a morte. A decisão que tomou não nasceu do desespero cego, mas de uma clareza dolorosa.

Ele escolheu a vida, mesmo sabendo que isso exigiria uma atitude extrema. Essa escolha representa um dos atos mais radicais do instinto de sobrevivência humano: a disposição de abrir mão de uma parte de si para preservar o todo.

Do ponto de vista simbólico, a rocha assume um papel poderoso. Ela não é apenas um obstáculo físico, mas a materialização do peso das decisões, do acaso e da vulnerabilidade humana diante da natureza.

O braço preso torna-se o elo entre o passado e o futuro, aquilo que o mantinha imobilizado e, ao mesmo tempo, aquilo que precisava ser deixado para trás para que o movimento fosse possível. Ele então livrou-se do próprio membro para salvar o resto.

Após libertar-se, Aron ainda enfrentou um percurso extenuante até alcançar ajuda, o que reforça que sua maior batalha não terminou ao sair da rocha, mas continuou na resistência mental necessária para seguir adiante.

Sobreviver exigiu não apenas força física, mas uma determinação psicológica rara, alimentada por imagens mentais de reencontro, continuidade e sentido. A experiência de Aron Ralston tornou-se um símbolo contemporâneo da capacidade humana de transformar limites em decisões.

Sua atitude extrema não deve ser lida como glorificação do sofrimento, mas como um testemunho da potência da consciência quando confrontada com o inevitável.

Sua história nos lembra que, diante de certas circunstâncias, viver é escolher, mesmo quando o preço dessa escolha é profundo, irreversível e transformador.

domingo, janeiro 25, 2026

O Amor

 

Você não foi o amor da minha vida, não aquele que permanece em todos os dias, nem o que se instala no tempo como morada definitiva. Também não foi o amor do meu momento exato, aquele que chega quando tudo conspira a favor.

Ainda assim, eu te amei. E continuo amando, mesmo sabendo que o destino nos escreveu em linhas paralelas, próximas o suficiente para se reconhecerem, distantes demais para se encontrarem.

Houve dias em que acreditamos que o acaso poderia ser vencido, que bastaria insistir um pouco mais para que o impossível cedesse. Criamos promessas silenciosas, planos que só existiam no território frágil da imaginação.

Mas a vida, com sua lógica implacável, tratou de nos lembrar que nem todo amor nasce para durar, alguns existem apenas para ensinar. Os acontecimentos nos empurraram para margens opostas: escolhas inadiáveis, tempos desencontrados, silêncios que cresceram onde antes havia palavras.

Não foi falta de sentimento, tampouco ausência de entrega. Foi excesso de realidade. Amamos como se fosse suficiente, mas aprendemos que, às vezes, amar não garante permanência.

Hoje compreendo que certos amores não pedem posse, pedem aceitação. Permanecem não na rotina, mas na memória; não no futuro, mas naquilo que nos transformaram. Você não ficou, mas deixou marcas e, talvez esse seja o modo mais honesto de continuar existindo na vida de alguém.

Assim, sigo em frente com essa certeza agridoce: não fomos, não somos, talvez nunca seremos. Ainda assim, houve amor. E isso, por si só, já foi imenso. Você não foi o amor da minha vida, nem o dos meus dias longos, nem o instante exato em que tudo finalmente se encaixa.

Não foste permanência, nem abrigo. Ainda assim, eu te amei. E te amo, mesmo sabendo que há destinos que se tocam apenas para aprender a se despedir.

Houve um tempo em que acreditamos no quase. Quase nós. Quase para sempre. Vivíamos de promessas não ditas, de olhares que sustentavam mundos inteiros, de planos frágeis que desmoronavam ao primeiro confronto com a realidade.

Amávamos com urgência, como quem sabe que o tempo é curto, mesmo sem admitir. Os acontecimentos chegaram silenciosos, como chegam as coisas definitivas: decisões impostas, caminhos que se bifurcaram, palavras engolidas pelo medo de ferir.

Não foi falta de amor que nos separou, foi o excesso de vida. A vida que exige escolhas duras e não pergunta se o coração está pronto. Aprendi, então, que nem todo amor nasce para permanecer.

Alguns existem para atravessar, como um incêndio breve que ilumina a noite e depois se apaga, deixando o cheiro da fumaça na memória. Você foi esse amor: intenso, verdadeiro, impossível de sustentar no tempo.

Hoje carrego você não como ausência, mas como parte daquilo que me tornei. Porque certos amores não ficam, mas transformam. Não caminham ao nosso lado, mas nos ensinam a andar sozinhos.

E talvez seja esse o sentido mais profundo do amar: aceitar que nem tudo o que é verdadeiro está destinado a durar. Você não foi. Nós não fomos. Ainda assim, houve amor. E isso ninguém nos tira.

Ele quis saber!


Não houve conversão no leito de morte - afirmou Ann Druyan. Não existiu apelo tardio a Deus, nem súplica por milagres, nem conforto buscado na promessa de uma vida após a morte.

Também não houve qualquer fingimento reconfortante de que eles, inseparáveis por vinte anos de amor, parceria intelectual e cumplicidade cotidiana, não estavam se despedindo para sempre.

Diante da pergunta inevitável - ele não quis acreditar? - Ann foi direta, quase dura, como quem defende não apenas a memória do marido, mas a dignidade de uma vida inteira pautada pela honestidade intelectual.

Carl nunca quis “acreditar”, respondeu. E então corrigiu com veemência aquilo que julgava ser um equívoco comum: “Ele quis saber.”

Essa distinção era essencial. Para Carl Sagan, acreditar sem evidências não era consolo, mas renúncia. Sua postura diante da morte foi coerente com tudo o que defendera em vida: a busca incansável pelo conhecimento, a reverência profunda pelo universo real, não por promessas invisíveis, mas pela beleza concreta da existência, ainda que finita.

Nos últimos dias, o que houve entre eles não foi negação, mas lucidez. Não foi desespero, mas aceitação. Houve amor, gratidão e uma consciência serena de que o tempo compartilhado, embora breve diante da vastidão cósmica que Carl tanto amava, havia sido extraordinário.

Eles sabiam que cada átomo que os compunha retornaria ao universo, esse mesmo universo que ele dedicara a vida a compreender e a ensinar.

Ann Druyan não relata esse momento como um vazio espiritual, mas como um testemunho de integridade. Carl Sagan morreu do mesmo modo que viveu: fiel à razão, à curiosidade e à coragem de encarar a realidade sem adornos.

Para ele, não havia necessidade de mitos finais, o assombro diante do cosmos já era, por si só, suficiente. E assim, mesmo diante da morte, permaneceu aquilo que sempre os uniu: não a fé cega, mas o amor pela verdade.