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domingo, janeiro 25, 2026

O Amor

 

Você não foi o amor da minha vida, não aquele que permanece em todos os dias, nem o que se instala no tempo como morada definitiva. Também não foi o amor do meu momento exato, aquele que chega quando tudo conspira a favor.

Ainda assim, eu te amei. E continuo amando, mesmo sabendo que o destino nos escreveu em linhas paralelas, próximas o suficiente para se reconhecerem, distantes demais para se encontrarem.

Houve dias em que acreditamos que o acaso poderia ser vencido, que bastaria insistir um pouco mais para que o impossível cedesse. Criamos promessas silenciosas, planos que só existiam no território frágil da imaginação.

Mas a vida, com sua lógica implacável, tratou de nos lembrar que nem todo amor nasce para durar, alguns existem apenas para ensinar. Os acontecimentos nos empurraram para margens opostas: escolhas inadiáveis, tempos desencontrados, silêncios que cresceram onde antes havia palavras.

Não foi falta de sentimento, tampouco ausência de entrega. Foi excesso de realidade. Amamos como se fosse suficiente, mas aprendemos que, às vezes, amar não garante permanência.

Hoje compreendo que certos amores não pedem posse, pedem aceitação. Permanecem não na rotina, mas na memória; não no futuro, mas naquilo que nos transformaram. Você não ficou, mas deixou marcas e, talvez esse seja o modo mais honesto de continuar existindo na vida de alguém.

Assim, sigo em frente com essa certeza agridoce: não fomos, não somos, talvez nunca seremos. Ainda assim, houve amor. E isso, por si só, já foi imenso. Você não foi o amor da minha vida, nem o dos meus dias longos, nem o instante exato em que tudo finalmente se encaixa.

Não foste permanência, nem abrigo. Ainda assim, eu te amei. E te amo, mesmo sabendo que há destinos que se tocam apenas para aprender a se despedir.

Houve um tempo em que acreditamos no quase. Quase nós. Quase para sempre. Vivíamos de promessas não ditas, de olhares que sustentavam mundos inteiros, de planos frágeis que desmoronavam ao primeiro confronto com a realidade.

Amávamos com urgência, como quem sabe que o tempo é curto, mesmo sem admitir. Os acontecimentos chegaram silenciosos, como chegam as coisas definitivas: decisões impostas, caminhos que se bifurcaram, palavras engolidas pelo medo de ferir.

Não foi falta de amor que nos separou, foi o excesso de vida. A vida que exige escolhas duras e não pergunta se o coração está pronto. Aprendi, então, que nem todo amor nasce para permanecer.

Alguns existem para atravessar, como um incêndio breve que ilumina a noite e depois se apaga, deixando o cheiro da fumaça na memória. Você foi esse amor: intenso, verdadeiro, impossível de sustentar no tempo.

Hoje carrego você não como ausência, mas como parte daquilo que me tornei. Porque certos amores não ficam, mas transformam. Não caminham ao nosso lado, mas nos ensinam a andar sozinhos.

E talvez seja esse o sentido mais profundo do amar: aceitar que nem tudo o que é verdadeiro está destinado a durar. Você não foi. Nós não fomos. Ainda assim, houve amor. E isso ninguém nos tira.

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