Não
houve conversão no leito de morte - afirmou Ann Druyan. Não existiu apelo
tardio a Deus, nem súplica por milagres, nem conforto buscado na promessa de
uma vida após a morte.
Também
não houve qualquer fingimento reconfortante de que eles, inseparáveis por vinte
anos de amor, parceria intelectual e cumplicidade cotidiana, não estavam se
despedindo para sempre.
Diante da pergunta inevitável - ele não
quis acreditar? - Ann foi direta, quase dura, como quem defende não
apenas a memória do marido, mas a dignidade de uma vida inteira pautada pela
honestidade intelectual.
Carl
nunca quis “acreditar”, respondeu. E então corrigiu com veemência aquilo que
julgava ser um equívoco comum: “Ele quis saber.”
Essa distinção era essencial. Para Carl Sagan,
acreditar sem evidências não era consolo, mas renúncia. Sua postura diante da
morte foi coerente com tudo o que defendera em vida: a busca incansável pelo
conhecimento, a reverência profunda pelo universo real, não por promessas
invisíveis, mas pela beleza concreta da existência, ainda que finita.
Nos últimos dias, o que houve entre eles não foi
negação, mas lucidez. Não foi desespero, mas aceitação. Houve amor, gratidão e
uma consciência serena de que o tempo compartilhado, embora breve diante da
vastidão cósmica que Carl tanto amava, havia sido extraordinário.
Eles
sabiam que cada átomo que os compunha retornaria ao universo, esse mesmo
universo que ele dedicara a vida a compreender e a ensinar.
Ann Druyan não relata esse momento como um vazio
espiritual, mas como um testemunho de integridade. Carl Sagan morreu do mesmo
modo que viveu: fiel à razão, à curiosidade e à coragem de encarar a realidade
sem adornos.
Para
ele, não havia necessidade de mitos finais, o assombro diante do cosmos já era,
por si só, suficiente. E assim, mesmo diante da morte, permaneceu aquilo que
sempre os uniu: não a fé cega, mas o amor pela verdade.








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