O mais importante não é a
primeira vez que fizemos amor.
A primeira vez é fogo novo:
descoberta, tremor, pressa e encanto. É o corpo ainda sem mapa, a curiosidade
ardendo na pele, o coração acreditando que tudo começa ali e jamais terminará.
Mas ela logo se torna memória,
uma fotografia antiga guardada no fundo da mente, algo que se conta com um
sorriso nostálgico, quase sempre mais bonito do que foi.
Ela marca o começo, sim. Mas
todo começo vem carregado de promessas que nem sempre se cumprem. O início é
generoso com a esperança, pródigo em futuros inventados, indulgente com as
imperfeições.
Acreditamos que o amor, só por
ter nascido intenso, será eterno. O mais importante, porém, é a última vez.
A última vez não avisa que é a
última. Não há placa, nem contagem regressiva, nem despedida solene. Não há
música de fundo, nem discurso final. A vida segue banal, distraída, como se o
amanhã estivesse garantido.
A gente faz amor como se
houvesse tempo. Como se o corpo pudesse repetir cada gesto, cada suspiro, cada
olhar que diz aquilo que as palavras nunca conseguem alcançar. É rotina e
intimidade misturadas, é o conhecido que já não assusta, mas ainda acolhe.
E, de repente, aquele abraço
que parecia igual aos outros vira o último. Aquele beijo, ainda carregado do
gosto da rotina, vira o último. A pele que se conhece de cor, de memória e de
cansaço, transforma-se em ausência.
A primeira vez virou passado,
um capítulo bonito, encerrado. A última vez, não. Ela ainda pulsa. Está na pele
que arrepia sozinha quando a lembrança chega sem aviso, no vazio que se instala
no peito quando o silêncio da ausência grita.
Está no modo como o corpo trai
a razão e revive, sem permissão, cada detalhe daquela noite que não sabia ser
fim. Porque o amor raramente termina com palavras duras ou com uma porta
batendo.
Muitas vezes ele acaba em silêncio,
nas pequenas coisas que deixamos de fazer sem perceber: o último café tomado
juntos sem pressa, o último “boa noite” dito sem drama, o último “eu te amo”
que soou comum demais para ser reconhecido como adeus.
É exatamente por isso que a
última vez pesa mais. Ela carrega todo o não-dito, tudo o que ainda poderíamos
ter sido, todos os gestos adiados, todas as conversas que ficaram para depois.
Carrega o futuro que evaporou sem alarde, sem escândalo, sem aviso.
Enquanto a primeira vez nos
deu a ilusão da eternidade, a última nos entrega sua lição mais cruel e mais
humana: nada é para sempre. Ainda assim, aquilo que foi verdadeiro não morre
por completo. Fica gravado na alma, insistente, vivo, latejando, mesmo depois
que o outro já se foi.
Francisco Silva Sousa








.jpg)

0 Comentários:
Postar um comentário