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sábado, agosto 29, 2026

O Elogio que Chega Tarde


 As pessoas têm coisas bonitas para dizer sobre você. Quase sempre têm.

Mas existe uma estranha condição humana: muitas dessas palavras só encontram coragem para nascer depois que você parte. Quando alguém morre, a memória parece ganhar uma delicadeza que a convivência cotidiana raramente oferece.

Os defeitos diminuem, as mágoas perdem importância e as qualidades, antes silenciosas, tornam-se evidentes. Então surgem os discursos, as lágrimas, as homenagens e as histórias que começam com:

“Ele era uma pessoa maravilhosa.”

“Ela fez muita diferença na minha vida.”

“Eu nunca vou esquecer o que fez por mim.”

Mas por que precisamos perder alguém para finalmente reconhecer o seu valor?

Talvez porque a presença seja uma das coisas que mais facilmente banalizamos. Aquilo que está sempre ao nosso alcance parece eterno. O abraço de hoje parece garantido para amanhã.

A conversa atual parece poder ser retomada depois. O carinho que deixamos para outro momento parece não ter prazo de validade. E é justamente aí que a vida nos dribla. Não existe garantia de amanhã.

Há pessoas que passam anos esperando ouvir uma palavra de reconhecimento que nunca chega. Pais que envelhecem sem ouvir dos filhos o quanto foram importantes. Amigos que partem sem saber que fizeram diferença.

Amores que terminam sem que alguém tenha coragem de dizer o quanto foram verdadeiros. E então, quando já não há mais ninguém para ouvir, falamos.

Falamos diante de fotografias, diante de túmulos. Falamos para aqueles que ficaram. Mas já não falamos com quem precisava ouvir.

Talvez uma das maiores tragédias da existência seja essa: descobrirmos o valor das pessoas justamente quando a vida já nos tirou a oportunidade de demonstrá-lo.

Por isso, diga. Diga enquanto houver ouvidos. Agradeça enquanto houver presença. Abrace enquanto houver braços. Peça perdão enquanto houver tempo. Ame sem esperar a ausência transformar o amor em saudade.

Porque a morte não torna ninguém mais importante. Ela apenas revela, tarde demais, a importância que já existia. No fundo, o ser humano é assim: muitas vezes, só compreende a dimensão de uma presença quando precisa aprender a viver com a sua ausência.

E talvez a verdadeira sabedoria esteja em não esperar pelo silêncio definitivo para dizer aquilo que o coração já sabe. Há palavras que, quando adiadas demais, deixam de ser palavras e se transformam em arrependimento.

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