As pessoas têm coisas bonitas para dizer sobre você. Quase sempre têm.
Mas existe uma estranha
condição humana: muitas dessas palavras só encontram coragem para nascer depois
que você parte. Quando alguém morre, a memória parece ganhar uma delicadeza que
a convivência cotidiana raramente oferece.
Os defeitos diminuem, as
mágoas perdem importância e as qualidades, antes silenciosas, tornam-se
evidentes. Então surgem os discursos, as lágrimas, as homenagens e as histórias
que começam com:
“Ele era uma pessoa
maravilhosa.”
“Ela fez muita diferença na
minha vida.”
“Eu nunca vou esquecer o que
fez por mim.”
Mas por que precisamos perder
alguém para finalmente reconhecer o seu valor?
Talvez porque a presença seja
uma das coisas que mais facilmente banalizamos. Aquilo que está sempre ao nosso
alcance parece eterno. O abraço de hoje parece garantido para amanhã.
A conversa atual parece
poder ser retomada depois. O carinho que deixamos para outro momento parece não
ter prazo de validade. E é justamente aí que a vida nos dribla. Não existe
garantia de amanhã.
Há pessoas que passam anos
esperando ouvir uma palavra de reconhecimento que nunca chega. Pais que
envelhecem sem ouvir dos filhos o quanto foram importantes. Amigos que partem
sem saber que fizeram diferença.
Amores que terminam sem que
alguém tenha coragem de dizer o quanto foram verdadeiros. E então, quando já
não há mais ninguém para ouvir, falamos.
Falamos diante de fotografias,
diante de túmulos. Falamos para aqueles que ficaram. Mas já não falamos com
quem precisava ouvir.
Talvez uma das maiores
tragédias da existência seja essa: descobrirmos o valor das pessoas justamente
quando a vida já nos tirou a oportunidade de demonstrá-lo.
Por isso, diga. Diga enquanto
houver ouvidos. Agradeça enquanto houver presença. Abrace enquanto houver
braços. Peça perdão enquanto houver tempo. Ame sem esperar a ausência
transformar o amor em saudade.
Porque a morte não torna
ninguém mais importante. Ela apenas revela, tarde demais, a importância que já
existia. No fundo, o ser humano é assim: muitas vezes, só compreende a dimensão
de uma presença quando precisa aprender a viver com a sua ausência.
E talvez a verdadeira
sabedoria esteja em não esperar pelo silêncio definitivo para dizer aquilo que
o coração já sabe. Há palavras que, quando adiadas demais, deixam de ser
palavras e se transformam em arrependimento.









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