Propaganda

domingo, maio 03, 2026

Muito orgulho, pouco retorno: o Brasil que cobra mais do que dá


O patriotismo cego e o Brasil que cobra, mas nem sempre devolve.

O patriotismo cego é aquele que exige entrega total, como se o país fosse uma entidade sagrada pela qual valesse qualquer sacrifício — até mesmo o silêncio diante das falhas. É um amor que não questiona, não confronta e, sobretudo, não cobra reciprocidade.

No Brasil, essa relação muitas vezes parece desequilibrada. De um lado, milhões de cidadãos lutam diariamente para sobreviver. Muitos carregam dívidas acumuladas não por irresponsabilidade, mas por necessidade — para garantir o básico, como alimentação e moradia. Outros enfrentam algum grau de insegurança alimentar, uma realidade que, embora tenha melhorado nos últimos anos, ainda atinge milhões de famílias. Em 2024, por exemplo, cerca de 6,4 milhões de brasileiros ainda viviam em situação de fome, mesmo com avanços recentes na redução desse problema.

Ao mesmo tempo, há sinais de progresso que não podem ser ignorados. Mais de 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza recentemente, e os índices atingiram os melhores níveis desde 2012. O país também voltou a sair do chamado “Mapa da Fome”, indicando redução significativa da subnutrição. Esses dados evidenciam que o Brasil não é um retrato único de crise — mas sim de contrastes.

Ainda assim, para grande parte da população, a sensação de sufocamento persiste. A carga tributária incide sobre praticamente tudo: consumo, renda, patrimônio. Impostos estão embutidos no preço dos produtos, no combustível, na energia, nos serviços mais básicos. O cidadão paga antes, durante e depois — e, muitas vezes, sente que o retorno não acompanha o esforço.

Essa percepção se agrava diante de serviços públicos que, em muitos lugares, não atendem às necessidades mínimas. Escolas com estrutura precária, hospitais com filas longas, insegurança nas ruas e oportunidades desiguais reforçam a ideia de que o Estado cobra mais do que entrega. Não se trata de negar avanços, mas de reconhecer que eles ainda não alcançam todos justamente.

O patriotismo, nesse contexto, acaba sendo convocado como um dever emocional. Espera-se que o cidadão celebre símbolos, respeite a bandeira, cante o hino com orgulho — mesmo quando sua realidade cotidiana é marcada por incerteza. Amar o país, porém, não deveria significar ignorar suas falhas.

Essa dinâmica não é recente. O Brasil tem vivido, ao longo das décadas, ciclos repetidos de esperança e frustração: promessas de mudança, escândalos de corrupção, crises econômicas e mobilizações populares, como as manifestações de 2013, que ecoaram demandas por serviços públicos mais dignos. Parte dessas reivindicações permanece atual.

Hoje, mesmo com indicadores econômicos pontualmente positivos, muitos brasileiros ainda enfrentam desafios concretos: jovens qualificados lidando com desemprego ou subemprego, famílias reorganizando o orçamento para pagar dívidas, e a violência urbana que insiste em fazer parte do cotidiano.

O problema do patriotismo cego não está em amar o Brasil. Amar este país — sua diversidade, sua cultura, sua capacidade de resistir e se reinventar — é legítimo e até necessário. O problema está no amor unilateral: aquele que exige devoção sem oferecer dignidade.

Um patriotismo mais maduro não seria cego. Seria consciente. Não se contentaria com símbolos, mas exigiria resultados. Cobraria transparência, eficiência no uso dos recursos públicos e políticas que reduzam, de fato, as desigualdades. Enxergaria o cidadão não como fonte de arrecadação, mas como sujeito de direitos.

Enquanto essa reciprocidade não se tornar realidade para a maioria, o orgulho nacional continuará convivendo com uma contradição silenciosa: a de um povo que ama seu país, mas nem sempre se sente amado por ele.

O Brasil não precisa de um patriotismo que romantize o sacrifício. Precisa de um patriotismo que enfrente os problemas — e trabalhe, coletivamente, para superá-los.

0 Comentários: