O patriotismo cego e o Brasil que cobra, mas nem sempre devolve.
O patriotismo cego é aquele
que exige entrega total, como se o país fosse uma entidade sagrada pela qual
valesse qualquer sacrifício — até mesmo o silêncio diante das falhas. É um amor
que não questiona, não confronta e, sobretudo, não cobra reciprocidade.
No Brasil, essa relação muitas
vezes parece desequilibrada. De um lado, milhões de cidadãos lutam diariamente
para sobreviver. Muitos carregam dívidas acumuladas não por irresponsabilidade,
mas por necessidade — para garantir o básico, como alimentação e moradia.
Outros enfrentam algum grau de insegurança alimentar, uma realidade que, embora
tenha melhorado nos últimos anos, ainda atinge milhões de famílias. Em 2024,
por exemplo, cerca de 6,4 milhões de brasileiros ainda viviam em situação de
fome, mesmo com avanços recentes na redução desse problema.
Ao mesmo tempo, há sinais de
progresso que não podem ser ignorados. Mais de 8,6 milhões de pessoas saíram da
pobreza recentemente, e os índices atingiram os melhores níveis desde 2012. O
país também voltou a sair do chamado “Mapa da Fome”, indicando redução
significativa da subnutrição. Esses dados evidenciam que o Brasil não é um retrato
único de crise — mas sim de contrastes.
Ainda assim, para grande parte
da população, a sensação de sufocamento persiste. A carga tributária incide
sobre praticamente tudo: consumo, renda, patrimônio. Impostos estão embutidos
no preço dos produtos, no combustível, na energia, nos serviços mais básicos. O
cidadão paga antes, durante e depois — e, muitas vezes, sente que o retorno não
acompanha o esforço.
Essa percepção se agrava
diante de serviços públicos que, em muitos lugares, não atendem às necessidades
mínimas. Escolas com estrutura precária, hospitais com filas longas,
insegurança nas ruas e oportunidades desiguais reforçam a ideia de que o Estado
cobra mais do que entrega. Não se trata de negar avanços, mas de reconhecer que
eles ainda não alcançam todos justamente.
O patriotismo, nesse contexto,
acaba sendo convocado como um dever emocional. Espera-se que o cidadão celebre
símbolos, respeite a bandeira, cante o hino com orgulho — mesmo quando sua
realidade cotidiana é marcada por incerteza. Amar o país, porém, não deveria
significar ignorar suas falhas.
Essa dinâmica não é recente. O
Brasil tem vivido, ao longo das décadas, ciclos repetidos de esperança e
frustração: promessas de mudança, escândalos de corrupção, crises econômicas e
mobilizações populares, como as manifestações de 2013, que ecoaram demandas por
serviços públicos mais dignos. Parte dessas reivindicações permanece atual.
Hoje, mesmo com indicadores
econômicos pontualmente positivos, muitos brasileiros ainda enfrentam desafios
concretos: jovens qualificados lidando com desemprego ou subemprego, famílias
reorganizando o orçamento para pagar dívidas, e a violência urbana que insiste
em fazer parte do cotidiano.
O problema do patriotismo cego
não está em amar o Brasil. Amar este país — sua diversidade, sua cultura, sua
capacidade de resistir e se reinventar — é legítimo e até necessário. O
problema está no amor unilateral: aquele que exige devoção sem oferecer
dignidade.
Um patriotismo mais maduro não
seria cego. Seria consciente. Não se contentaria com símbolos, mas exigiria
resultados. Cobraria transparência, eficiência no uso dos recursos públicos e
políticas que reduzam, de fato, as desigualdades. Enxergaria o cidadão não como
fonte de arrecadação, mas como sujeito de direitos.
Enquanto essa reciprocidade
não se tornar realidade para a maioria, o orgulho nacional continuará
convivendo com uma contradição silenciosa: a de um povo que ama seu país, mas
nem sempre se sente amado por ele.
O Brasil não precisa de um
patriotismo que romantize o sacrifício. Precisa de um patriotismo que enfrente
os problemas — e trabalhe, coletivamente, para superá-los.









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