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sábado, fevereiro 28, 2026

O Monte Kailash


 

O Monte Kailash é uma montanha sagrada localizada na região de Ngari, na Região Autônoma do Tibete (China), no extremo oeste do Himalaia.

Com uma altitude de 6.638 metros, destaca-se não pela altura impressionante em comparação com outros picos da região, mas por sua importância espiritual única: é considerada sagrada por quatro tradições religiosas principais - hinduísmo, budismo, jainismo e bon (a religião pré-budista nativa do Tibete).

Próximo à montanha encontram-se dois lagos de grande significado: o Lago Manasarovar, um lago de água doce visto como fonte de pureza e vida, e o Lago Rakshastal, de água salgada, associado a forças mais sombrias em algumas tradições.

A proximidade desses lagos reforça o caráter místico da área. Uma das características geográficas mais notáveis do Monte Kailash é ser o ponto de origem (ou nascente próxima) de quatro dos maiores rios da Ásia: o Indo (norte), o Sutlej (oeste), o Bramaputra (leste, conhecido como Yarlung Tsangpo no Tibete) e o Karnali (sul, tributário do Ganges).

Esses rios nascem de geleiras na região e sustentam milhões de pessoas em vários países, o que contribui para a visão da montanha como "centro do mundo" ou "umbigo da Terra".

Significados religiosos

No hinduísmo: O cume é considerado a morada eterna de Shiva, o deus da destruição e transformação, junto com sua consorte Parvati (filha da montanha, ou "Haimavati"). A montanha é vista como um lingam gigante (símbolo masculino de Shiva), enquanto o Lago Manasarovar representa a yoni (símbolo feminino).

Muitos hindus acreditam que o Ganges celestial desce ali, fluindo invisivelmente pelos cabelos de Shiva até a Terra. Kailash também é associado ao mítico Monte Meru, o eixo cósmico do universo nas escrituras antigas.

No budismo: É o centro do universo e a morada de Demchok (Chakrasamvara), deidade que representa a suprema felicidade. Os budistas aspiram realizar a kora (circumambulação) para acumular méritos e progredir rumo à iluminação.

No jainismo: É conhecida como Ashtapada, o local onde o primeiro Tirthankara, Rishabhanatha, alcançou a libertação (moksha).

No bon: Chamada de Yungdrung Gutseg ou similar, representa uma montanha swástica de nove andares, sede de poder espiritual.

Os nomes variam: em sânscrito/hindi, Kailâsa significa "cristal"; em tibetano, Ghang Rimpoche ou Kang Rinpoche ("joia preciosa das neves"); também é chamada Tise ou Meru.

A peregrinação (Kora ou Parikrama)

Todos os anos, milhares de peregrinos de diversas origens realizam a circumambulação da montanha, um ritual chamado kora (em tibetano) ou parikrama (em sânscrito).

O circuito tem cerca de 52 km (32 milhas) e geralmente leva três dias para ser completado, passando por altitudes acima de 4.800–5.600 m, com trechos desafiadores como o Drolma La Pass (5.650 m), o ponto mais alto do percurso.

Direção: Budistas e hindus fazem a kora no sentido horário (clockwise). Já os jainistas e bonpos circundam no sentido anti-horário (counterclockwise).

Alguns devotos mais fervorosos tentam completar o percurso em um único dia, o que exige excelente condicionamento físico (cerca de 13-15 horas de caminhada intensa).

Há também a kora interna (mais curta, cerca de 35 km) e rituais adicionais, como banhos no Lago Manasarovar para purificação.

A peregrinação remonta a milhares de anos e é vista como um ato que purifica pecados, acumula méritos e pode até levar à libertação espiritual. Muitos acreditam que "as pedras rezam" nas proximidades, simbolizando a santidade inerente do lugar.

Lendas e proibição de escalada

Uma famosa lenda tibetana conta que o mestre budista Milarepa derrotou um campeão bon em uma disputa mágica: ambos subiram a montanha, mas Milarepa chegou ao topo montado em um raio de sol, provando a superioridade do budismo.

O cume do Monte Kailash nunca foi escalado pelo ser humano. Devido à sua profunda relevância religiosa, a escalada é proibida pelo governo chinês desde 2001.

Nesse ano, uma expedição espanhola recebeu autorização inicial, mas protestos internacionais de grupos religiosos, tibetanos exilados e alpinistas levaram à revogação e à proibição oficial permanente de qualquer tentativa de ascensão.

Em meados dos anos 1980, o lendário alpinista italiano Reinhold Messner recebeu permissão do governo chinês para escalar, mas recusou. Ele declarou: "Se conquistarmos essa montanha, conquistaremos algo na alma das pessoas...

Sugiro que subam algo um pouco mais difícil. O Kailash não é tão alto nem tão difícil." Essa posição de respeito cultural prevalece até hoje: o Monte Kailash permanece intocado, preservando sua aura de mistério e sacralidade.

Em resumo, o Monte Kailash transcende a geografia - é um símbolo vivo de harmonia entre religiões, natureza e espiritualidade, atraindo peregrinos em busca de purificação e conexão divina.


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