Eliane
Aparecida de Grammont (São Paulo, 10 de agosto de 1955 - São Paulo, 30 de março
de 1981) foi uma cantora e compositora brasileira, conhecida principalmente por
ter sido vítima de um dos feminicídios mais emblemáticos da história do Brasil,
cometido por seu ex-marido, o cantor Lindomar Castilho, conhecido como o
"Rei do Bolero".
Filha
da compositora Elena de Grammont, Eliane cresceu em uma família numerosa - com
11 irmãos -, na qual vários seguiram carreiras no jornalismo e no rádio, como
sua irmã Helena de Grammont, que se tornou jornalista na Rede Globo.
Seu
pai faleceu vítima de miocardiopatia, doença hereditária que também acometeu
dois de seus irmãos. Em 1977, Eliane conheceu Lindomar Castilho nos corredores
da gravadora RCA. Na época, ele vivia o auge da carreira, com álbuns vendendo
mais de 800 mil cópias - um número impressionante para os padrões da época.
Após
dois anos de namoro, o casal se casou em 1979. A família dela se opôs
fortemente à união, mas Eliane seguiu em frente, insistindo em regime de
separação total de bens para demonstrar que não estava interessada na fortuna
do marido.
Castilho,
no entanto, exigiu que ela abandonasse a carreira artística. O relacionamento
foi marcado por violência: abuso de álcool por parte dele, crises intensas de
ciúme, agressões físicas, separações e reconciliações constantes.
Eles
tiveram uma filha, Liliane (Lili) de Grammont, nascida em 1979. Após pouco mais
de um ano de casamento, Eliane pediu o desquite em 1980. Seis meses depois, ela
ainda tentou uma reconciliação, mas Lindomar impôs condições humilhantes, como
assinar um documento com dez compromissos, incluindo pedir perdão a uma
empregada doméstica que era motivo de brigas.
Diagnosticada
com a mesma miocardiopatia que matara familiares, Eliane decidiu retomar a
carreira musical. Recebeu convite do violonista e cantor Carlos Randall (nome
artístico de Carlos Roberto da Silva, primo de Lindomar) para se apresentar no
Café Belle Époque, em São Paulo.
Os
dois iniciaram um romance, o que agravou o ciúme possessivo de Castilho.
O
crime
Na
madrugada de 30 de março de 1981, Eliane se apresentava no Café Belle Époque,
próximo à Avenida Paulista, acompanhada por Randall ao violão. Enquanto cantava
a música "João e Maria", de Chico Buarque - exatamente nos versos
"Agora era fatal / Que o faz-de-conta terminasse assim" -, Lindomar
Castilho invadiu o local armado com um revólver calibre .38.
Ele
disparou cinco tiros contra a ex-mulher, atingindo-a mortalmente no peito (ou
nas costas, conforme algumas fontes). Um dos disparos também feriu Randall no
abdome (ou na virilha, segundo relatos variados).
Eliane
caiu no palco e morreu a caminho do hospital. Castilho tentou fugir, mas foi
contido por Randall (mesmo ferido) e pelo dono da casa noturna, William
Schmidt, que o amarraram até a chegada da polícia. Populares o espancaram antes
da detenção.
O
julgamento e o contexto histórico
O
caso chocou o país e ocorreu em uma época em que "crimes passionais"
eram frequentemente relativizados pela sociedade e pelo Judiciário, com defesas
baseadas na "legítima defesa da honra", "violenta emoção"
ou "passionalidade".
O
adultério ainda era crime no Código Penal brasileiro, e expressões como "defesa
da honra" eram usadas para justificar feminicídios. O julgamento ocorreu
em agosto de 1984, no icônico Salão do Júri do Palácio da Justiça, em São Paulo
- um dos últimos grandes casos julgados ali.
A
defesa, liderada pelo advogado Waldir Troncoso Perez, explorou alegações de que
Eliane era uma mãe negligente, infiel e de "conduta reprovável".
Enquanto isso, mulheres protestavam em frente ao fórum com faixas como
"Quem ama não mata".
Homens
(alguns supostamente contratados) se juntaram para hostilizá-las, jogando ovos
e gritando frases como "mulher que bota chifre tem que virar
sanduíche".
A
assistência à acusação contou com o então presidente da OAB, Márcio Thomaz
Bastos. Após 36 horas de debates e ampla cobertura da imprensa, cinco dos sete
jurados votaram pela condenação.
Lindomar
foi sentenciado a 12 anos e dois meses de prisão por homicídio duplamente
qualificado (motivo fútil e traição). Cumpriu cerca de sete anos em regime
fechado e o restante em semiaberto, ficando quite com a Justiça em 1996.
O
caso foi influenciado pelo julgamento anterior de Doca Street (que matou Ângela
Diniz em 1976 e foi absolvido no primeiro júri, mas condenado no segundo),
ajudando a enfraquecer a tese da "defesa da honra".
Impacto
e legado
O
assassinato mobilizou o movimento feminista brasileiro. Após uma missa na
Igreja da Consolação em 4 de abril de 1981, mais de mil mulheres vestidas de
preto marcharam até o Cemitério do Araçá com o lema "Quem ama não
mata".
Surgiram
grupos de apoio, como o "Grupo Masculino de Apoio à Luta das
Mulheres", que lançou manifestos contra a violência. O humorista Henfil,
em sua coluna na revista IstoÉ, criticou ironicamente a misoginia da sociedade
ao comentar humilhações contra homens comparadas à condição feminina.
Em
1982, manifestantes impediram Castilho de se apresentar em Goiânia com
panfletos dizendo: "Eliane de Grammont não vai cantar hoje. Ela está
morta".
Em
homenagem, ruas foram batizadas com seu nome em São Paulo (Bairro da Barra
Funda, desde dezembro de 1981) e em Londrina (PR). Existe a Casa Eliane de
Grammont, centro de acolhimento e apoio psicossocial e jurídico a mulheres em
situação de violência, mantido pela Prefeitura de São Paulo.
A
filha do casal, Lili de Grammont (coreógrafa), órfã aos dois anos, transformou
a dor em ativismo: participa de eventos contra a violência de gênero e perdoou
o pai publicamente, mas destacou que "ao tirar a vida da minha mãe, ele
também morreu em vida".
Lindomar
viveu recluso após a pena, faleceu em 20 de dezembro de 2025, aos 85 anos. Esse
feminicídio foi pivotal para mudar a percepção social sobre crimes contra
mulheres no Brasil, pavimentando o caminho para avanços como a Lei Maria da
Penha (2006) e a tipificação do feminicídio (2015).









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