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terça-feira, dezembro 09, 2025

O Retrato de Dorian Gray




O romance O Retrato de Dorian Gray (1891), única obra de ficção longa de Oscar Wilde, é considerado um dos maiores clássicos da literatura inglesa e uma das críticas mais devastadoras à hipocrisia da sociedade vitoriana, ao culto da beleza e ao hedonismo sem limites.

A história começa num ensolarado dia de verão em Londres, na Era Vitoriana. O pintor Basil Hallward, um artista sensível e idealista, está terminando o retrato de Dorian Gray - um jovem de beleza quase sobrenatural que se tornou sua musa e obsessão artística.

Enquanto pinta, Basil recebe a visita de seu amigo Lord Henry Wotton, um aristocrata cínico, brilhante e extremamente articulado, que defende uma filosofia de vida hedonista: “O único modo de livrar-se de uma tentação é ceder a ela”.

Fascinado e influenciado pelas ideias de Lord Henry, Dorian faz um desejo impulsivo e fatal: que o retrato envelheça e sofra no seu lugar, enquanto ele conservaria para sempre a juventude e a beleza. O desejo é misteriosamente atendido.

A tragédia de Sibyl Vane

Encantado com sua própria beleza e com as ideias de Lord Henry, Dorian começa a explorar plenamente os prazeres da vida. Num teatro pobre do East End, conhece a jovem atriz Sibyl Vane, que representa heroínas de Shakespeare com paixão incandescente.

Dorian apaixona-se perdidamente - ou pelo menos pelo reflexo da arte na moça - e pede-a em casamento. Sibyl, extasiada, chama-o de “Príncipe Encantado” (ou “Príncipe Formoso”, em algumas traduções). Seu irmão mais velho, James Vane, um marinheiro rude e protetor, parte para a Austrália, mas antes jura vingar-se caso Dorian magoe a irmã.

Na noite em que Dorian leva Basil e Lord Henry para ver Sibyl atuar em Romeu e Julieta, tudo desmorona. Apaixonada de verdade, Sibyl decide que o amor real é superior à arte fingida e representa mal de propósito. Furioso por perder a “arte” que amava nela, Dorian rejeita-a cruelmente: “Você matou o meu amor”.

Desesperada, Sibyl suicida-se naquela mesma noite ingerindo ácido prussiano (cianídrico). Ao voltar para casa, Dorian nota a primeira mudança no retrato: um traço sutil de crueldade nos lábios. Em vez de horrorizar-se, ele decide esconder o quadro num quarto trancado da casa e abraçar plenamente a vida de prazeres - agora sabendo que nenhum pecado deixará marcas em seu rosto.

Os dezoito anos de corrupção

Nos dezoito anos seguintes, Dorian mergulha numa existência de excessos que a sociedade londrina sussurra, mas nunca ousa condenar abertamente, graças à sua aparência angelical e à sua fortuna. Drogas, orgias, manipulação emocional, destruição de reputações - tudo fica oculto atrás de sua máscara de juventude eterna.

O grande catalisador intelectual dessa fase é um livro francês que Lord Henry lhe dá (nunca nomeado no romance, mas que Wilde, em seu julgamento de 1895, confirmou ser À rebours - “Contra a Natureza”, 1884 - de Joris-Karl Huysmans), uma bíblia do decadentismo e do esteticismo extremo.

O assassinato de Basil Hallward

Anos depois, na véspera de uma viagem a Paris, Basil visita Dorian para confrontá-lo sobre os boatos escandalosos. Dorian, num acesso de raiva e hipocrisia, leva o pintor ao sótão e revela o retrato - agora uma visão grotesca, putrefata, carregada de todos os seus crimes e vícios.

Enfurecido por ser “culpado” da própria danação, Dorian pega uma faca e assassina Basil com várias facadas. Depois, friamente chantageia um antigo amigo cientista, Alan Campbell, obrigando-o a dissolver o corpo em ácido nítrico.

A perseguição de James Vane

Procurando esquecer o crime, Dorian vai a um antro de ópio. Por coincidência, James Vane - que voltou da Austrália ao saber da morte da irmã - está lá. Ao ouvir alguém chamar Dorian de “Príncipe Encantado”, James tenta matá-lo.

Dorian salva-se mentindo que é jovem demais para ser o homem que conheceu Sibyl dezoito anos antes. Uma prostituta do local, porém, reconhece Dorian e revela a James que ele “vendeu a alma ao diabo” para nunca envelhecer.

James corre atrás dele, mas já é tarde. Dias depois, durante uma caçada na propriedade rural de um duque amigo de Dorian, James, escondido num matagal à espreita, é acidentalmente baleado e morto por um dos caçadores.

O fim: a facada no retrato

Com a última ameaça eliminada, Dorian sente, por um breve instante, o desejo de regeneração. Conhece uma jovem pura chamada Hetty Merton e, pela primeira vez, decide não a corromper. Corre ao sótão para ver se o retrato mostra sinais de melhora.

Encontra-o ainda mais horrendo e percebe que até seu “arrependimento” foi motivado apenas por vaidade e curiosidade estética - mais uma sensação nova a experimentar.

Compreendendo que nunca poderá escapar da própria consciência enquanto o retrato existir, Dorian decide destruí-lo. Pega a mesma faca que matou Basil e apunhala o quadro no coração.

Os criados ouvem um grito terrível. Quando arrombam a porta do sótão, encontram um velho cadavérico, enrugado e irreconhecível, esfaqueado no peito - é Dorian Gray, finalmente carregando no corpo toda a podridão de sua alma. Ao lado do corpo, o retrato voltou à sua beleza original, intocado e radiante.

Curiosidades e contexto histórico

Publicado inicialmente em 1890 na revista Lippincott’s Monthly Magazine, o romance causou escândalo imediato. Críticos acusaram-no de imoralidade, e a versão revista de 1891 (com seis capítulos novos e um prefácio famoso defendendo a arte pela arte) foi usada como prova no julgamento de Wilde por “indecência grave” em 1895 - o que acabou levando-o a dois anos de trabalhos forçados e à sua ruína.

Oscar Wilde afirmou que Basil representa o que ele achava que era, Lord Henry o que o mundo pensava que ele era, e Dorian o que ele gostaria de ter sido em outras épocas.

O livro é considerado um dos precursores da literatura gótica moderna, do horror psicológico e até da estética “faustiana” do século XX. O Retrato de Dorian Gray permanece uma das mais perturbadoras fábulas morais da literatura: a beleza sem consciência é o mais terrível dos monstros.

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