O romance O Retrato de Dorian Gray (1891),
única obra de ficção longa de Oscar Wilde, é considerado um dos maiores
clássicos da literatura inglesa e uma das críticas mais devastadoras à
hipocrisia da sociedade vitoriana, ao culto da beleza e ao hedonismo sem
limites.
A história começa num ensolarado dia de verão
em Londres, na Era Vitoriana. O pintor Basil Hallward, um artista sensível e
idealista, está terminando o retrato de Dorian Gray - um jovem de beleza quase
sobrenatural que se tornou sua musa e obsessão artística.
Enquanto pinta, Basil recebe a visita de seu
amigo Lord Henry Wotton, um aristocrata cínico, brilhante e extremamente
articulado, que defende uma filosofia de vida hedonista: “O único modo de
livrar-se de uma tentação é ceder a ela”.
Fascinado e influenciado pelas ideias de Lord
Henry, Dorian faz um desejo impulsivo e fatal: que o retrato envelheça e sofra
no seu lugar, enquanto ele conservaria para sempre a juventude e a beleza. O
desejo é misteriosamente atendido.
A tragédia de Sibyl Vane
Encantado com sua própria beleza e com as
ideias de Lord Henry, Dorian começa a explorar plenamente os prazeres da vida.
Num teatro pobre do East End, conhece a jovem atriz Sibyl Vane, que representa
heroínas de Shakespeare com paixão incandescente.
Dorian apaixona-se perdidamente - ou pelo
menos pelo reflexo da arte na moça - e pede-a em casamento. Sibyl, extasiada,
chama-o de “Príncipe Encantado” (ou “Príncipe Formoso”, em algumas traduções).
Seu irmão mais velho, James Vane, um marinheiro rude e protetor, parte para a
Austrália, mas antes jura vingar-se caso Dorian magoe a irmã.
Na noite em que Dorian leva Basil e Lord
Henry para ver Sibyl atuar em Romeu e Julieta, tudo desmorona. Apaixonada de
verdade, Sibyl decide que o amor real é superior à arte fingida e representa
mal de propósito. Furioso por perder a “arte” que amava nela, Dorian rejeita-a
cruelmente: “Você matou o meu amor”.
Desesperada, Sibyl suicida-se naquela mesma
noite ingerindo ácido prussiano (cianídrico). Ao voltar para casa, Dorian nota
a primeira mudança no retrato: um traço sutil de crueldade nos lábios. Em vez
de horrorizar-se, ele decide esconder o quadro num quarto trancado da casa e
abraçar plenamente a vida de prazeres - agora sabendo que nenhum pecado deixará
marcas em seu rosto.
Os dezoito anos de corrupção
Nos dezoito anos seguintes, Dorian mergulha
numa existência de excessos que a sociedade londrina sussurra, mas nunca ousa
condenar abertamente, graças à sua aparência angelical e à sua fortuna. Drogas,
orgias, manipulação emocional, destruição de reputações - tudo fica oculto
atrás de sua máscara de juventude eterna.
O grande catalisador intelectual dessa fase é
um livro francês que Lord Henry lhe dá (nunca nomeado no romance, mas que
Wilde, em seu julgamento de 1895, confirmou ser À rebours - “Contra a
Natureza”, 1884 - de Joris-Karl Huysmans), uma bíblia do decadentismo e do
esteticismo extremo.
O assassinato de Basil Hallward
Anos depois, na véspera de uma viagem a
Paris, Basil visita Dorian para confrontá-lo sobre os boatos escandalosos.
Dorian, num acesso de raiva e hipocrisia, leva o pintor ao sótão e revela o
retrato - agora uma visão grotesca, putrefata, carregada de todos os seus
crimes e vícios.
Enfurecido por ser “culpado” da própria
danação, Dorian pega uma faca e assassina Basil com várias facadas. Depois,
friamente chantageia um antigo amigo cientista, Alan Campbell, obrigando-o a
dissolver o corpo em ácido nítrico.
A perseguição de James Vane
Procurando esquecer o crime, Dorian vai a um
antro de ópio. Por coincidência, James Vane - que voltou da Austrália ao saber
da morte da irmã - está lá. Ao ouvir alguém chamar Dorian de “Príncipe
Encantado”, James tenta matá-lo.
Dorian salva-se mentindo que é jovem demais
para ser o homem que conheceu Sibyl dezoito anos antes. Uma prostituta do
local, porém, reconhece Dorian e revela a James que ele “vendeu a alma ao
diabo” para nunca envelhecer.
James corre atrás dele, mas já é tarde. Dias
depois, durante uma caçada na propriedade rural de um duque amigo de Dorian,
James, escondido num matagal à espreita, é acidentalmente baleado e morto por
um dos caçadores.
O fim: a facada no retrato
Com a última ameaça eliminada, Dorian sente,
por um breve instante, o desejo de regeneração. Conhece uma jovem pura chamada
Hetty Merton e, pela primeira vez, decide não a corromper. Corre ao sótão para
ver se o retrato mostra sinais de melhora.
Encontra-o ainda mais horrendo e percebe que
até seu “arrependimento” foi motivado apenas por vaidade e curiosidade estética
- mais uma sensação nova a experimentar.
Compreendendo que nunca poderá escapar da
própria consciência enquanto o retrato existir, Dorian decide destruí-lo. Pega
a mesma faca que matou Basil e apunhala o quadro no coração.
Os criados ouvem um grito terrível. Quando
arrombam a porta do sótão, encontram um velho cadavérico, enrugado e
irreconhecível, esfaqueado no peito - é Dorian Gray, finalmente carregando no
corpo toda a podridão de sua alma. Ao lado do corpo, o retrato voltou à sua
beleza original, intocado e radiante.
Curiosidades e contexto histórico
Publicado inicialmente em 1890 na revista
Lippincott’s Monthly Magazine, o romance causou escândalo imediato. Críticos
acusaram-no de imoralidade, e a versão revista de 1891 (com seis capítulos
novos e um prefácio famoso defendendo a arte pela arte) foi usada como prova no
julgamento de Wilde por “indecência grave” em 1895 - o que acabou levando-o a
dois anos de trabalhos forçados e à sua ruína.
Oscar Wilde afirmou que Basil representa o
que ele achava que era, Lord Henry o que o mundo pensava que ele era, e Dorian
o que ele gostaria de ter sido em outras épocas.
O livro é considerado um dos precursores da literatura gótica moderna, do horror psicológico e até da estética “faustiana” do século XX. O Retrato de Dorian Gray permanece uma das mais perturbadoras fábulas morais da literatura: a beleza sem consciência é o mais terrível dos monstros.








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