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quarta-feira, dezembro 10, 2025

O Especialista



Para você que chegou agora - justamente agora - apenas para criticar o que já está feito: onde estava quando tudo era poeira no chão e esboço no papel? Onde estava quando a gente segurava prego com a mão e esperança com a outra? Onde estava quando precisávamos de ideias - não prontas, não copiadas - mas inventadas ali, no improviso, quando ainda não existia modelo nenhum?

É muito confortável aparecer depois que o prédio está de pé para dizer que a cor da parede poderia ser outra, que a porta não está perfeitamente alinhada ou que o evento teria ficado melhor com música ao vivo.

Conveniente ser especialista quando o risco já passou, o esforço já foi gasto e o tempo já foi consumido. Difícil mesmo é estar lá no dia em que faltou energia no meio do processo, no dia em que um fornecedor cancelou de última hora, no dia em que a equipe era meia dúzia, mas o problema era do tamanho de cem.

Criticar sem jamais ter sujado as mãos é o refúgio preferido de quem não quer assumir responsabilidade. E responsabilidade não é sobre discurso, é sobre presença: é estar no sábado à noite quando ninguém quer estar, é abrir mão de descanso quando o prazo encurta, é reconhecer que talvez fique imperfeito - e fazer mesmo assim.

Quem fez, fez com as ferramentas que tinha, não com as que gostaria de ter. Fez com orçamento contado, com dúvidas penduradas nos ombros e com a coragem mínima necessária para não desistir. Fez sem manual, sem mapa e sem plateia.

Às vezes fez no escuro - literalmente - com lanterna emprestada e café frio. Fez porque alguém precisava tomar a decisão, assinar o documento, puxar o primeiro tijolo, sacrificar o último minuto de energia.

E ainda assim, sabia que você viria depois - você e o seu olhar técnico, retroativo, cirúrgico - e apontaria falhas. Porque crítico nunca falta. É como sombra: aparece quando o sol já brilhou e a obra já está construída.

Antes de abrir a boca para julgar, pergunte-se: Eu teria feito melhor com o que havia disponível naquele momento?

Eu teria feito alguma coisa, ao menos uma, se estivesse no lugar de quem fez?
Ou teria feito aquilo que sempre faço - observar, comentar, esperar o esforço alheio e opinar depois?

Quem critica sem nunca ter construído nada não está colaborando: está apenas anestesiando a própria ausência, justificando sua distância, consolando-se por não ter participado. É a tentativa de transformar falta de ação em superioridade intelectual.

O mundo já tem críticos suficientes. Especialistas em defeitos, consultores da obviedade, guardiões do “se fosse comigo”. O que falta - e falta muito - é gente que faça apesar das incertezas, que construa com o que existe, que assuma riscos e aceite a possibilidade de não ser aplaudida.

Assina com carinho, com algumas cicatrizes e com um pouco de orgulho ferido,
aquele que fez - quando ninguém sabia como fazer, quando ninguém queria fazer, quando todos esperavam que alguém começasse. E alguém começou.

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