Yara Silva do Amaral nasceu em 16 de setembro de
1936, em Jaboticabal, interior de São Paulo. Filha de um português e de uma
brasileira, ainda no primeiro ano de vida a família se mudou para a capital.
Cresceu no Belenzinho, bairro de ruas estreitas,
casas baixas e cheiro de pão fresco pela manhã. Ali, a menina quieta que
observava o mundo pelas frestas das janelas, descobriu cedo o poder de inventar
outras vidas.
Estudou na Escola de Arte Dramática da Universidade
de São Paulo e se formou em 1964. O teatro a pegou de vez. Em 1968, no Teatro
de Arena, entrou no elenco de Arena conta Tiradentes, de Gianfrancesco
Guarnieri.
O palco era suado, as luzes quentes, o público
perto demais. Yara sentia o chão vibrar sob os pés e entendia que aquele era o
lugar onde conseguia ser mais verdadeira do que na vida comum. Passou também
pelo Teatro Oficina, onde o excesso e a ousadia se misturavam ao talento.
Nos anos 1970, veio o primeiro grande
reconhecimento: o Prêmio Molière de melhor atriz pelo trabalho em Réveillon, de
Flávio Márcio, ao lado de Regina Duarte e Sérgio Mamberti. Ao todo, participou
de cerca de trinta espetáculos e conquistou três Molières.
Cada um deles era mais do que um troféu: era a
confirmação de que a menina do Belenzinho tinha encontrado a própria voz. No
cinema, estreou em 1975 com O Rei da Noite, de Hector Babenco. Depois vieram
papéis marcantes em A dama do lotação, Mulher objeto e Leila Diniz.
Na televisão, começou em 1968, na TV Tupi, com a
novela O décimo mandamento, de Benedito Ruy Barbosa. Nos anos 1970, chegou à
Globo e brilhou em Dancin’ Days, O amor é nosso, Sol de verão, Guerra dos
Sexos, Um sonho a mais, Cambalacho, Anos dourados e Fera radical.
Cada personagem carregava um pedaço dela: a força,
a ironia fina, a capacidade de tornar o ordinário extraordinário. Casou-se com
o diretor Luiz Fernando Goulart. Juntos tiveram dois filhos, Bernardo e João
Mário.
Em casa, Yara era a mulher que contava histórias
antes de dormir, que ria alto das próprias gafes e que, mesmo cansada dos
ensaios, ainda encontrava tempo para ouvir os meninos.
A mãe, presença constante, seguia ao lado dela em
muitas noites importantes. Na virada de 1988 para 1989, Yara e a mãe embarcaram
no Bateau Muche para o réveillon na Baía de Guanabara.
O barco estava lotado. A noite prometia fogos,
champanhe e o recomeço que todo ano novo carrega. Yara não sabia nadar. Quando
o naufrágio aconteceu, o mar frio e escuro engoliu dezenas de vidas.
Ela tinha 52 anos. A mãe também não sobreviveu. Hoje descansa no Cemitério São João Batista, em Botafogo, Rio de Janeiro. Mas quem a viu em cena ainda carrega o eco daquela presença: a atriz que transformava o cotidiano em teatro e o teatro em algo profundamente humano.










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