Israel Kamakawiwo'ole: a voz que o Havaí entregou ao mundo
Havia algo de profundamente
comovente na voz de Israel Ka‘ano‘i Kamakawiwo'ole. Era uma voz aparentemente
simples, quase desarmada, acompanhada apenas pelo som delicado de um ukulele.
Mas, por trás daquela
suavidade, havia um homem inteiro: sua terra, sua ancestralidade, suas dores,
seus sonhos e a memória de um povo que jamais deixou de lutar para preservar a
própria identidade.
Conhecido carinhosamente como “Braddah
IZ”, Israel nasceu em 20 de maio de 1959, em Honolulu, no Havaí, descendente de
uma linhagem de nativos havaianos. Cresceu em um ambiente no qual a música não
era apenas entretenimento, mas também uma forma de preservar histórias,
sentimentos e tradições.
Desde cedo, a relação de
Israel com o Havaí ultrapassava o orgulho de ter nascido em uma das ilhas mais
bonitas do planeta. Ele carregava consigo a consciência de pertencer a uma
cultura que havia sofrido profundas transformações após a chegada das potências
estrangeiras.
Por isso, nunca escondeu suas
posições políticas e culturais. Defendia os direitos dos nativos havaianos e
manifestava simpatia pela ideia de independência do arquipélago.
Para Israel, cantar era também
uma maneira de falar sobre aquilo que muitas vezes permanecia em silêncio. E
talvez seja justamente por isso que sua voz tenha atravessado tantas
fronteiras.
Uma voz maior que o próprio corpo
Israel enfrentou durante
praticamente toda a vida problemas relacionados ao peso. Seu corpo chegou a
atingir aproximadamente 343 quilos, distribuídos por uma estrutura de 1,88
metro.
A obesidade mórbida trouxe
graves consequências para sua saúde e tornou sua existência cotidiana cada vez
mais difícil. Mas seria injusto contar sua história apenas pela dimensão física
de sua doença.
Havia um homem por trás
daquele corpo. Um homem sensível, ligado à sua cultura e profundamente
apaixonado por sua terra. Alguém que encontrou na música uma forma de existir,
de resistir e de permanecer próximo das próprias raízes.
Israel não precisava de
grandes orquestras para emocionar. Bastava-lhe o ukulele e aquela voz limpa,
tranquila, quase como se estivesse cantando para alguém sentado ao seu lado.
Em suas interpretações, havia
uma espécie de intimidade. O ouvinte tinha a sensação de que não estava diante
de um artista tentando impressionar uma multidão, mas de alguém contando uma
história baixinho.
E foi justamente essa
simplicidade que o tornou inesquecível.
“Facing Future”
Em 1993, Israel lançou o álbum
Facing Future, trabalho que o projetou internacionalmente e o
transformou em um dos mais conhecidos representantes da música havaiana.
Entre as faixas estava uma
interpretação que mudaria para sempre sua trajetória: “Somewhere Over the
Rainbow/What a Wonderful World”.
A gravação reunia dois
clássicos da música norte-americana – “Somewhere Over the Rainbow”,
imortalizada no filme O Mágico de Oz, e “What a Wonderful World” – em
uma combinação inesperada e extremamente delicada.
Não havia ali uma produção
musical grandiosa. Havia apenas Israel, seu ukulele e sua voz. E isso parecia suficiente. A interpretação começou a conquistar ouvintes muito além das
praias e das montanhas do Havaí.
A música ganhou o mundo,
tornou-se presença constante em programas de televisão, filmes, comerciais e
diferentes momentos da cultura popular. Sua gravação apareceu em produções como
Cold Case, E.R. e Young Americans.
Nesta última, “Somewhere Over
the Rainbow” foi utilizada tanto no primeiro episódio quanto no encerramento da
série, criando uma espécie de círculo musical que começava e terminava com a
mesma voz.
Também integrou trilhas
sonoras de filmes como Encontro Marcado (1998), Encontrando Forrester
(2000) e Como Se Fosse a Primeira Vez (2004). Era curioso pensar que
aquela voz, nascida em uma ilha distante do centro da indústria musical
norte-americana, havia conseguido chegar tão longe.
Israel cantava sobre um lugar
específico, mas sua música passou a pertencer a pessoas de lugares que ele
provavelmente jamais conheceria.
O homem por trás da canção
Existe uma tendência humana de
transformar artistas em símbolos depois que eles morrem. Pegamos suas fotografias,
suas músicas e suas histórias e construímos uma imagem quase perfeita.
Mas Israel não foi perfeito. Foi
humano. Tinha limitações, fragilidades, problemas de saúde e contradições.
Carregava um corpo que, com o passar dos anos, tornou-se cada vez mais difícil
de sustentar. Sua saúde se deteriorava enquanto sua carreira ganhava
reconhecimento.
Talvez essa seja uma das
partes mais dolorosas de sua história. Enquanto o mundo descobria sua voz,
Israel enfrentava uma batalha silenciosa contra o próprio corpo. A fama não
conseguiu protegê-lo. Os aplausos não conseguiram curá-lo. E o sucesso não foi
suficiente para impedir que sua saúde chegasse ao limite.
A despedida
Israel Ka‘ano‘i Kamakawiwo'ole
faleceu em 26 de junho de 1997, em Honolulu, aos 38 anos. A causa da morte
esteve relacionada a uma insuficiência respiratória decorrente de graves
problemas de saúde associados à obesidade mórbida.
Sua morte provocou uma
profunda comoção no Havaí. Pouco tempo depois, em 12 de julho de 1997, suas
cinzas foram espalhadas pelo Oceano Pacífico. A imagem daquele momento parece
carregar um simbolismo inevitável.
O homem que havia cantado para
o mundo voltou ao mar de sua terra. O oceano que cercava as ilhas que tanto
amava recebeu aquilo que restava de seu corpo, enquanto sua voz permanecia.
E talvez essa seja uma das
formas mais bonitas de compreender o legado de Israel. Seu corpo desapareceu. Sua
voz, não.
O arco-íris depois da tempestade
Israel Kamakawiwo'ole não
viveu o suficiente para assistir à dimensão que sua interpretação de “Somewhere
Over the Rainbow/What a Wonderful World” alcançaria após sua morte. Não
viu novas gerações descobrirem sua música.
Não viu pessoas em diferentes países
se emocionarem ao ouvir aquele ukulele aparentemente frágil acompanhado de uma
voz que parecia carregar a tranquilidade do mar. Não viu sua imagem
transformar-se em símbolo do Havaí. Mas talvez não precisasse ver.
Algumas obras continuam
crescendo depois que seus autores partem. Aquela gravação simples tornou-se uma
dessas obras. Quando Israel canta sobre o arco-íris, sobre um mundo maravilhoso
e sobre a possibilidade de encontrar beleza depois da tristeza, sua voz parece
carregar algo maior do que as palavras.
Carrega saudade. Carrega
esperança. Carrega a memória de um povo. E carrega também uma pergunta
silenciosa: o que fazemos com a nossa vida enquanto ainda estamos aqui?
Israel viveu apenas 38 anos.
Foi pouco, sobretudo para alguém que ainda tinha tanto a oferecer. Mas há
pessoas que conseguem transformar uma existência breve em algo que permanece
por décadas.
Ele foi cantor, compositor,
defensor de sua cultura e uma voz importante na valorização da identidade
havaiana. Mas, acima de tudo, foi um homem que cantou com a própria alma. Talvez
por isso sua voz continue chegando até nós com uma estranha sensação de
proximidade.
Como se Israel ainda estivesse
sentado em algum lugar do Havaí, segurando seu ukulele, olhando para o
horizonte e cantando baixinho. E, ao fundo, o Pacífico continua respirando. As
ondas continuam chegando.
O céu continua mudando de cor.
E, em algum lugar entre o mar e o arco-íris, a voz de Braddah IZ continua
dizendo que, apesar de tudo, talvez ainda exista beleza neste mundo.









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