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sábado, janeiro 03, 2026

Fogo Santo: A Inquisição e a Arte de Matar sem Sangue



A utilização das fogueiras como forma de execução dos condenados entregues ao braço secular pela Inquisição tornou-se o método mais emblemático da pena capital associada aos tribunais inquisitoriais, embora não tenha sido o único.

Prisão perpétua, confisco de bens, degredo e penitências públicas também figuravam entre as sanções aplicadas. Ainda assim, o fogo consolidou-se como o símbolo máximo do castigo imposto aos considerados hereges, apóstatas ou inimigos da fé.

O significado da fogueira era essencialmente religioso e simbólico. Em uma sociedade profundamente marcada pela religiosidade, que permeava não apenas a população em geral, mas também monarcas, clérigos e senhores feudais, o fogo representava a purificação espiritual.

Queimar o corpo do condenado expressava a ideia de expurgar o pecado, ilustrando a desobediência a Deus e evocando, de forma pedagógica e aterradora, a imagem do Inferno.

O suplício tinha, portanto, uma função moralizante: não se destinava apenas a punir o indivíduo, mas a servir de advertência coletiva. O historiador Brian Innes sustenta que a lógica subjacente a esse castigo extremo baseava-se na crença de que a alma eterna do herege poderia, em última instância, ser preservada.

Segundo essa visão, ao destruir o corpo e a mente considerados corrompidos pelo erro doutrinário, libertava-se a alma para que, purificada, pudesse escapar de punições ainda mais severas na vida após a morte. Assim, paradoxalmente, a violência era apresentada como um ato de misericórdia espiritual.

Já Jennifer Deane destaca o aspecto jurídico-teológico da escolha do fogo como meio de execução. De acordo com as determinações do Concílio de Verona, em 1184, o corpo do condenado deveria ser aniquilado de tal forma que não pudesse ser ressuscitado, eliminando qualquer possibilidade simbólica de retorno ou redenção terrena.

Além disso, as proibições canônicas contra o derramamento de sangue, reafirmadas no Quarto Concílio de Latrão, em 1215, influenciaram diretamente essa prática. Como a Inquisição se apresentava formalmente como um tribunal eclesiástico, evitava-se a execução direta, transferindo-se o condenado à autoridade secular, que aplicava a pena capital sem “manchar” a Igreja com o sangue do réu.

No contexto português, o historiador A. J. Saraiva, ao estudar a Inquisição de Lisboa, descreve os autos de fé como eventos públicos cuidadosamente encenados. Os condenados à fogueira eram amarrados à estaca em posição elevada, em locais abertos e frequentemente sujeitos ao vento.

O objetivo era prolongar o espetáculo, transformando o sofrimento em um ritual coletivo assistido por multidões. Esses eventos reuniam fiéis, autoridades e curiosos, criando uma atmosfera de excitação e fervor religioso que reforçava o poder do tribunal inquisitorial e a ideia de ordem divina.

A destruição pelo fogo não se limitava às pessoas. Livros considerados heréticos ou perigosos à fé também eram queimados em praças públicas, como símbolos materiais do pecado e da desobediência intelectual.

Um registro de maio de 1624 relata que, ao final de um auto de fé, foi lida a sentença contra livros proibidos, determinando-se a queima de três canastras inteiras dessas obras. A eliminação do texto equivalia à tentativa de apagar ideias, memórias e questionamentos.

Um caso emblemático é o do Cavaleiro de Oliveira, condenado por sua obra Discours pathétique au sujet des calamités, publicada em Londres em 1756. Considerado herege convicto, foi relaxado à justiça secular e simbolicamente queimado em estátua durante o auto de fé realizado em Lisboa, em 1761, com o livro suspenso ao pescoço.

O gesto evidenciava que, mesmo quando o corpo físico estava ausente, a Inquisição buscava aniquilar publicamente a reputação, a obra e o pensamento do acusado.

Assim, o uso do fogo na Inquisição ultrapassava a mera execução penal. Tratava-se de um instrumento de controle social, religioso e intelectual, destinado a reforçar a autoridade da Igreja, suprimir a dissidência e moldar consciências por meio do medo e da ritualização da punição.

O lema implícito de “matar sem derramar sangue” revelava uma tentativa de conciliar violência extrema com justificativas teológicas, deixando marcas profundas na história da intolerância religiosa no Ocidente.

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