Um velho Mestre, percebendo a profunda
tristeza que carregava o coração de seu jovem aprendiz, pediu-lhe que pegasse
uma mão cheia de sal e a dissolvesse num copo d’água. Em seguida, ordenou que bebesse.
- Qual é o gosto? - perguntou o Mestre, com voz calma. - Salgado, horrível -
respondeu o rapaz, franzindo o rosto.
O Mestre apenas sorriu, sem dizer palavra.
Levantou-se e fez sinal para que o jovem o seguisse. Caminharam em silêncio até
um lago tranquilo, cercado por árvores antigas, cujas águas refletiam o céu da
tarde. Ali, o velho pediu que o aprendiz tomasse outra mão cheia de sal -
exatamente a mesma quantidade - e a jogasse no lago.
O jovem obedeceu. O sal desapareceu
instantaneamente na imensidão daquele corpo d’água. - Agora beba - disse o
Mestre. O rapaz se abaixou, colheu água com as mãos em concha e bebeu. A água
era fresca, limpa, ligeiramente doce pela brisa que vinha das montanhas. - E
então? Qual é o gosto agora? - perguntou o velho.
- Bom, refrescante - respondeu o jovem, surpreso.
- Você sente o sal?
- Nem um pouco.
O Mestre sentou-se na margem, ao lado do
aprendiz, e tomou sua mão com carinho. Olhou fundo em seus olhos e falou com
voz serena:
- A dor na vida é como esse sal: é real, é
inevitável, e todos nós recebemos, mais cedo ou mais tarde, a nossa porção. A
quantidade de sofrimento que a vida nos dá não muda tanto de pessoa para pessoa,
o que muda é o recipiente que escolhemos para carregá-la.
Quando você coloca toda a sua dor dentro de
um copo pequeno - seus pensamentos, seu coração fechado, sua visão estreita do
mundo -, ela se torna insuportável, amarga, sufocante.
Mas quando você enlarguece o recipiente -
quando abre o coração para a imensidão das coisas boas que ainda existem, para
as pessoas que te amam, para as pequenas graças do dia, para a beleza que não
morreu -, a mesma dor se dilui. Ela ainda está lá, mas já não tem força para
envenenar tudo. Pare de ser um copo, meu jovem. Torne-se um lago.
E, depois de um longo silêncio, o Mestre
acrescentou, quase num sussurro:
- Os grandes lagos não negam as tempestades
que recebem. Eles apenas têm espaço suficiente para que nenhuma tempestade os
transforme inteiramente em lama.
O jovem olhou para as águas tranquilas à sua frente, sentiu o vento tocar seu rosto e, pela primeira vez em muitos meses, respirou fundo e sorriu.









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