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sábado, dezembro 06, 2025

Deixe de ser um copo. Torne-se um lago.


Um velho Mestre, percebendo a profunda tristeza que carregava o coração de seu jovem aprendiz, pediu-lhe que pegasse uma mão cheia de sal e a dissolvesse num copo d’água. Em seguida, ordenou que bebesse. - Qual é o gosto? - perguntou o Mestre, com voz calma. - Salgado, horrível - respondeu o rapaz, franzindo o rosto.

O Mestre apenas sorriu, sem dizer palavra. Levantou-se e fez sinal para que o jovem o seguisse. Caminharam em silêncio até um lago tranquilo, cercado por árvores antigas, cujas águas refletiam o céu da tarde. Ali, o velho pediu que o aprendiz tomasse outra mão cheia de sal - exatamente a mesma quantidade - e a jogasse no lago.

O jovem obedeceu. O sal desapareceu instantaneamente na imensidão daquele corpo d’água. - Agora beba - disse o Mestre. O rapaz se abaixou, colheu água com as mãos em concha e bebeu. A água era fresca, limpa, ligeiramente doce pela brisa que vinha das montanhas. - E então? Qual é o gosto agora? - perguntou o velho.

- Bom, refrescante - respondeu o jovem, surpreso.

- Você sente o sal?

- Nem um pouco.

O Mestre sentou-se na margem, ao lado do aprendiz, e tomou sua mão com carinho. Olhou fundo em seus olhos e falou com voz serena:

- A dor na vida é como esse sal: é real, é inevitável, e todos nós recebemos, mais cedo ou mais tarde, a nossa porção. A quantidade de sofrimento que a vida nos dá não muda tanto de pessoa para pessoa, o que muda é o recipiente que escolhemos para carregá-la.

Quando você coloca toda a sua dor dentro de um copo pequeno - seus pensamentos, seu coração fechado, sua visão estreita do mundo -, ela se torna insuportável, amarga, sufocante.

Mas quando você enlarguece o recipiente - quando abre o coração para a imensidão das coisas boas que ainda existem, para as pessoas que te amam, para as pequenas graças do dia, para a beleza que não morreu -, a mesma dor se dilui. Ela ainda está lá, mas já não tem força para envenenar tudo. Pare de ser um copo, meu jovem. Torne-se um lago.

E, depois de um longo silêncio, o Mestre acrescentou, quase num sussurro:

- Os grandes lagos não negam as tempestades que recebem. Eles apenas têm espaço suficiente para que nenhuma tempestade os transforme inteiramente em lama.

O jovem olhou para as águas tranquilas à sua frente, sentiu o vento tocar seu rosto e, pela primeira vez em muitos meses, respirou fundo e sorriu.

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