“Faz sentido que se esteja a
enviar para o espaço uma sonda para explorar Plutão enquanto aqui as pessoas
morrem de fome? Estamos neuróticos. Não só existe desigualdade na distribuição
da riqueza, como também na satisfação das necessidades básicas.
Não nos orientamos por um
sentido de racionalidade mínima. A Terra está rodeada de milhares de satélites,
podemos ter em casa cem canais de televisão, mas para que nos serve isto neste
mundo onde tantos morrem?
É uma neurose coletiva: as pessoas já não sabem o que lhes é essencial para a
sua felicidade!” - José Saramago
Essa reflexão de José
Saramago, proferida em um contexto próximo ao lançamento da missão New Horizons,
da NASA, em janeiro de 2006, permanece profundamente atual.
A sonda foi enviada para
explorar Plutão, realizando um sobrevoo histórico em julho de 2015, que revelou
um mundo gelado e surpreendentemente complexo, com montanhas de gelo, planícies
vastas, uma atmosfera ativa e indícios de possíveis oceanos subterrâneos.
O feito ampliou de forma
decisiva o conhecimento humano sobre o Sistema Solar e redefiniu a compreensão
dos chamados planetas anões. A missão, que custou entre 700 e 780 milhões de
dólares ao longo de aproximadamente 15 anos, tornou-se um marco científico.
No entanto, Saramago não
questionava o valor do conhecimento em si, mas sim as prioridades éticas e
políticas da humanidade. Sua pergunta central ecoa como um incômodo moral: por
que a civilização é capaz de mobilizar recursos imensos para explorar um corpo
celeste distante, enquanto milhões de pessoas, no próprio planeta, seguem
privadas do mínimo necessário para viver com dignidade?
Quase duas décadas depois, em 2025,
essa crítica mantém-se dolorosamente pertinente. De acordo com o relatório The
State of Food Security and Nutrition in the World (SOFI 2025), da ONU, cerca de
673 milhões de pessoas enfrentaram a fome em 2024 - o equivalente a 8,2% da
população mundial.
Embora haja uma ligeira
redução em relação aos anos anteriores, o mundo permanece muito distante da
meta de erradicar a fome até 2030, estabelecida pelos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável.
Conflitos armados que afetam
mais de 295 milhões de pessoas, crises econômicas persistentes, desigualdades
estruturais e os efeitos cada vez mais severos das mudanças climáticas
continuam a alimentar essa tragédia, sobretudo em regiões como a África
Subsaariana e a Ásia Ocidental.
Milhões de crianças sofrem de
subnutrição crônica, com impactos irreversíveis sobre o desenvolvimento físico,
cognitivo e emocional - uma perda silenciosa de potencial humano.
Enquanto isso, a exploração
espacial avança em ritmo acelerado. Em 2025, projetos como a Europa Clipper,
destinada a investigar a lua gelada de Júpiter em busca de condições para a
vida; a missão SPHEREx, que mapeia o universo em infravermelho; a ESCAPADE, com
duas sondas orbitando Marte para estudar a perda de sua atmosfera; e o
ambicioso programa Artemis, que prevê o retorno humano à Lua, consomem bilhões
de dólares dos orçamentos de agências espaciais ao redor do mundo.
É inegável que esses
investimentos produzem benefícios indiretos relevantes, impulsionando avanços
em áreas como comunicações, medicina, engenharia de materiais e energias
alternativas. Contudo, como alertava Saramago, existe uma espécie de “neurose
coletiva” que nos leva a celebrar o extraordinário e o distante, enquanto
toleramos o inaceitável que ocorre à nossa porta.
Não se trata de opor ciência a
solidariedade, nem de negar o valor do conhecimento cósmico. O problema reside
no desequilíbrio. O escritor português - Prêmio Nobel de Literatura em 1998 e
voz incansável contra as desigualdades - denunciava a ausência de um “sentido
de racionalidade mínima”, capaz de alinhar progresso tecnológico com justiça
social.
Num mundo em que a riqueza
global seria suficiente para erradicar a fome extrema com uma fração dos gastos
militares ou espaciais, persiste a pergunta essencial: o que é, afinal,
verdadeiramente necessário para a felicidade coletiva?
Talvez o grande desafio da nossa era não seja apenas alcançar as estrelas, mas aprender, com urgência, a cuidar da Terra e das pessoas que nela vivem.

























