Propaganda

quarta-feira, março 04, 2026

Invisibilidade



“Mas o futuro é desconhecido; ele se ergue diante do homem como a névoa de outono que sobe dos pântanos úmidos e traiçoeiros. Nela, as aves voam desorientadas, para cima e para baixo, batendo asas em desespero, sem que umas percebam as outras - a pomba não enxerga o gavião que paira acima, o gavião não distingue a pomba que cruza seu caminho -, e ninguém sabe a que distância exata está voando de sua própria perdição...”

(Nikolai Gógol, Tarás Bulba)

Essa imagem poderosa, escrita por Gógol por volta de 1835 e revisada na edição de 1842, surge em um momento de tensão dramática na narrativa. Tarás Bulba, o velho cossaco ucraniano, contempla o destino imprevisível enquanto observa seus filhos - o valente Ostap e o impulsivo André - lançados às guerras contra a Comunidade Polonesa-Lituana e aos conflitos internos da Irmandade Zaporógia.

O cenário é de fervor patriótico, honra guerreira e lealdade absoluta, mas também de brutalidade, fanatismo e decisões irreversíveis. A névoa dos pântanos não é apenas metáfora: ela remete ao ambiente real das estepes e das regiões alagadiças do sul da Ucrânia, território marcado por invasões, disputas territoriais e instabilidade política.

Ali, os cossacos viviam numa fronteira física e moral - entre civilização e barbárie, fé e violência, liberdade e caos. A natureza descrita por Gógol não é mero pano de fundo; ela espelha o estado de espírito dos homens que a habitam.

No desenrolar do enredo, o futuro revela-se impiedoso. A traição de André - seduzido pelo amor por uma jovem polonesa - rompe o vínculo sagrado da lealdade cossaca. Seu gesto não é apenas uma escolha amorosa, mas um rasgo na própria identidade coletiva.

Ostap, por sua vez, enfrenta o martírio com estoicismo quase mítico, enquanto Tarás encarna a dureza implacável de um código de honra que não admite fraquezas.

Cercos sangrentos, execuções públicas e a destruição da Sich zaporogiana confirmam a metáfora inicial: ninguém vê claramente o próprio destino até que ele se cumpra.

A pomba e o gavião simbolizam inocência e ferocidade, vítima e predador - papéis que se alternam de maneira trágica na guerra. Hoje se caça; amanhã se é caçado. O campo de batalha dissolve certezas morais e revela a fragilidade das distinções humanas. Na névoa, todos estão vulneráveis.

Gógol demonstra um olhar ambíguo: há admiração pelo heroísmo cossaco, pela coragem quase épica de seus personagens; mas há também uma crítica silenciosa à violência cega e ao destino moldado por paixões extremas.

O autor parece sugerir que, por maior que seja a bravura ou a convicção, o ser humano permanece limitado diante das forças históricas, políticas e emocionais que o arrastam.

Essa passagem permanece atual porque captura uma verdade universal: a angústia diante do imprevisível. Seja em guerras contemporâneas, crises econômicas, transformações tecnológicas ou instabilidades sociais, ainda voamos nessa névoa.

A informação é abundante, mas a compreensão é escassa; os riscos se multiplicam sem que possamos medi-los com precisão. Muitas vezes não sabemos se estamos ascendendo rumo à salvação ou descendo em direção ao abismo.

Talvez a grande lição dessa metáfora seja a consciência da própria vulnerabilidade. Reconhecer a névoa não a dissipa, mas nos torna mais atentos ao bater das asas - nossas e dos outros.

E, se não podemos controlar o futuro, ao menos podemos escolher como voar através dele: com cegueira e desespero, ou com lucidez, mesmo sabendo que o horizonte jamais será totalmente visível.

0 Comentários: