A religião que você escolheu nos considera
pecadores ao nascer, culpados antes mesmo de dar o primeiro suspiro,
responsáveis por algo que jamais fizemos. Ela oferece perdão instantâneo e imerecido para os crimes mais horríveis e pune
pessoas cujo único “crime” é a descrença - para sempre.
Ela já foi usada para defender a escravidão,
denegrir as mulheres, amaldiçoar os homossexuais, ordenar o apedrejamento de
crianças desobedientes, sancionar guerras e envenenar mentes com medo e culpa.
Ela inclui apenas um crime verdadeiramente
imperdoável: a descrença.
- Isso é justo? (Matt Dillahunty)
O texto é uma
crítica contundente à moralidade e às doutrinas de determinadas tradições
religiosas, expressa por Matt Dillahunty, conhecido debatedor e ativista ateu,
além de ex-cristão.
Sua argumentação não se limita a uma rejeição
emocional da fé, mas busca provocar uma reflexão racional sobre justiça,
responsabilidade moral e coerência ética.
Quando afirma
que a religião considera as pessoas pecadoras ao nascer, Dillahunty refere-se
principalmente à doutrina do pecado original, presente em várias correntes do
cristianismo. Segundo essa crença, a humanidade herdou a culpa do pecado de
Adão e Eva.
Para o crítico, isso representa um problema
moral fundamental: como pode alguém ser responsabilizado por um ato que não
cometeu? A noção de culpa herdada entra em conflito com princípios modernos de
justiça, que pressupõem responsabilidade individual e proporcionalidade.
Ao mencionar o
“perdão instantâneo e não merecido”, ele questiona a lógica da salvação baseada
na fé. Em muitas tradições cristãs, um indivíduo pode cometer atos extremamente
graves e, ao arrepender-se e aceitar a fé, obter perdão divino.
Ao mesmo tempo, alguém que tenha vivido de
forma ética, mas não compartilhe da crença religiosa, poderia enfrentar
condenação eterna. Para Dillahunty, essa assimetria moral parece incompatível
com a ideia de justiça equitativa.
A crítica se
intensifica quando ele cita práticas como escravidão, opressão das mulheres,
perseguição a homossexuais e punições violentas descritas em textos sagrados.
Historicamente, de fato, passagens bíblicas
foram usadas para justificar a escravidão nas Américas, sustentar estruturas
patriarcais rígidas, condenar identidades LGBTQ+ e legitimar guerras
religiosas.
Embora muitos fiéis contemporâneos
interpretem tais textos de maneira contextual ou simbólica, o argumento de
Dillahunty aponta para o fato de que esses escritos já serviram como base moral
para graves injustiças.
Ao destacar que
a descrença seria o único pecado imperdoável, ele faz alusão à ideia da
“blasfêmia contra o Espírito Santo” e à condenação eterna associada à falta de
fé em algumas correntes cristãs.
Sua objeção central é que a descrença não
constitui, em si, um ato prejudicial contra terceiros. Assim, punir eternamente
alguém por não estar convencido de determinada proposição religiosa lhe parece
desproporcional.
A pergunta final
- “Isso é justo?” - é retórica, mas profundamente filosófica. Ela convida o
leitor a confrontar a tensão entre moralidade religiosa e ética secular
contemporânea.
Em uma era marcada por direitos humanos
universais, igualdade de gênero, liberdade de consciência e pluralismo
cultural, surgem questionamentos sobre como harmonizar textos antigos com
valores modernos.
É importante observar,
contudo, que as religiões não são blocos monolíticos. Há inúmeras correntes
teológicas que reinterpretam o pecado original como metáfora, que rejeitam a
ideia de condenação eterna literal, que defendem igualdade de gênero e
inclusão, e que reconhecem erros históricos cometidos em nome da fé.
Muitos crentes argumentam que a essência de
sua religião está no amor, na compaixão e na transformação moral positiva. Assim,
a crítica de Dillahunty se insere em um debate mais amplo: a fonte da
moralidade é divina ou humana?
A justiça depende da fé ou pode ser
construída pela razão e pela empatia? Textos sagrados devem ser lidos
literalmente ou à luz do contexto histórico? Mais do que um ataque isolado, o
texto é um convite ao exame crítico - tanto para crentes quanto para não
crentes.
Ele desafia o leitor a ponderar se as crenças que sustenta são moralmente coerentes e compatíveis com seus próprios princípios de justiça. E, sobretudo, reforça a importância do diálogo honesto entre fé e ceticismo, num mundo onde a convivência plural exige reflexão, respeito e maturidade intelectual.
























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