Segundo a mais famosa lenda da ufologia
moderna, uma espaçonave extraterrestre teria se acidentado - ou, como alguns
descrevem, “espatifado” - no deserto do Novo México, nos primeiros dias de
julho de 1947, nas proximidades da pequena cidade de Roswell.
O episódio, que à primeira vista poderia
parecer apenas mais um entre milhares de relatos de discos voadores registrados
ao longo do século XX, tornou-se um dos casos mais emblemáticos e duradouros da
cultura contemporânea.
O que diferencia
o chamado Incidente de Roswell não é apenas a alegação de um objeto voador não
identificado, mas a extraordinária vitalidade do caso ao longo das décadas e o
impacto que exerceu em círculos científicos, militares, governamentais e
jurídicos. Roswell transformou-se em símbolo de um suposto encobrimento oficial
e no marco fundador da ufologia moderna.
Tudo ocorreu em
meio a uma verdadeira onda de avistamentos nos Estados Unidos. Em 24 de junho
de 1947, o piloto civil Kenneth Arnold relatou ter visto nove objetos voando em
formação sobre o Monte Rainier, no estado de Washington.
Ele descreveu o movimento como “pires
saltando sobre a água”, expressão que a imprensa transformou no popular termo
“flying saucer” (disco voador). Nas semanas seguintes, centenas de relatos
semelhantes inundaram jornais de todo o país.
Foi nesse
contexto que, no final de junho ou início de julho de 1947, o fazendeiro
William “Mac” Brazel encontrou destroços espalhados por seu rancho, próximo à
localidade de Corona, cerca de 120 quilômetros de Roswell.
Entre os fragmentos estavam materiais leves e
incomuns: lâminas metálicas finas, tiras de borracha, estruturas semelhantes a
vigas de madeira leve e folhas metálicas semelhantes a papel-alumínio.
Intrigado - e influenciado pelo clima de excitação provocado pelas notícias
sobre discos voadores - Brazel comunicou o fato ao xerife local em 7 de julho.
No dia seguinte,
8 de julho de 1947, a base militar Roswell Army Air Field (RAAF), sede do 509º
Grupo de Bombardeio - a mesma unidade responsável pelo lançamento das bombas
atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki - emitiu um comunicado surpreendente: o
exército havia recuperado um “disco voador” em um rancho da região.
A manchete do jornal Roswell Daily Record
estampou: “RAAF Captures Flying Saucer on Ranch in Roswell Region”. A notícia
rapidamente ganhou repercussão nacional e internacional.
Entretanto,
menos de 24 horas depois, veio a reviravolta. Autoridades militares recuaram e
afirmaram que o objeto não passava de um balão meteorológico comum, utilizado
para monitoramento atmosférico.
Fotografias dos destroços foram apresentadas
à imprensa como prova da explicação oficial. O episódio, aparentemente
esclarecido, caiu gradualmente no esquecimento nas décadas seguintes.
O caso ressurgiu
com força no final dos anos 1970, quando o físico e ufólogo Stanton Friedman
entrevistou o major Jesse Marcel, oficial de inteligência da base em 1947 e
responsável pela análise inicial dos destroços.
Marcel declarou que o material exibido nas
fotos não era o mesmo que ele havia examinado e que a explicação do balão fora
uma “cortina de fumaça”. Segundo ele, tratava-se de algo extraordinário, com
propriedades incomuns - leve, resistente e aparentemente não fabricado por
tecnologia conhecida à época.
A partir daí,
novos relatos começaram a emergir, muitos deles tardios e controversos. Algumas
testemunhas afirmaram que corpos de pequenas criaturas humanoides teriam sido
recuperados, supostamente submetidos a autópsias secretas.
Surgiram também alegações de ameaças à civis
para manter silêncio e de que os destroços teriam sido transportados para
instalações militares altamente sigilosas, como a hoje famosa Área 51, em
Nevada.
Diante da
crescente pressão pública, a Força Aérea dos Estados Unidos publicou relatórios
oficiais em 1994 e 1997. Neles, afirmou que os destroços pertenciam ao Projeto
Mogul - um programa ultrassecreto da Guerra Fria destinado a detectar testes
nucleares soviéticos por meio de trens de balões de grande altitude equipados
com sensores acústicos e refletores de radar.
Quanto aos supostos “corpos alienígenas”, o
relatório de 1997 sugeriu que relatos posteriores poderiam ter resultado da
confusão com manequins antropomórficos utilizados em testes de queda realizados
na década de 1950 - embora esses experimentos tenham ocorrido anos depois do
incidente original, o que alimentou ainda mais controvérsias.
O contexto
histórico também contribui para a complexidade do caso. O ano de 1947 marcava o
início da Guerra Fria, período de intensa tensão entre Estados Unidos e União
Soviética.
O sigilo militar era regra, especialmente em
projetos estratégicos ligados à segurança nacional. Essa atmosfera favoreceu
suspeitas e teorias de encobrimento, ampliadas pelo fato de Roswell abrigar uma
das unidades mais estratégicas da força aérea americana.
Independentemente
da explicação aceita - balão secreto ou nave extraterrestre -, o Incidente de
Roswell tornou-se o epicentro da cultura ufológica mundial. Inspirou livros,
documentários, filmes, séries de televisão e consolidou o imaginário popular
sobre alienígenas “cinzentos” de grandes olhos negros.
A própria cidade de Roswell transformou o
episódio em parte de sua identidade cultural e econômica, com museus temáticos,
lojas especializadas e festivais anuais que atraem turistas de várias partes do
mundo.
Mais de 75 anos depois, o caso continua
dividindo opiniões entre céticos, pesquisadores independentes e entusiastas do
fenômeno UFO. Para alguns, trata-se de um mal-entendido amplificado pelo
contexto da época; para outros, é a evidência de um dos maiores segredos
governamentais já mantidos.
Seja qual for a verdade, Roswell permanece
como símbolo do fascínio humano pelo desconhecido - uma narrativa situada na
delicada fronteira entre história, mistério e imaginação coletiva.








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