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quinta-feira, abril 16, 2026

A tragédia moderna do ruído vazio


“Metade do mundo é composta por pessoas que têm algo a dizer e não podem. A outra metade não tem nada a dizer… e continua falando.”

Essa frase, atribuída ao poeta americano Robert Frost, carrega uma ironia cortante que ainda hoje soa assustadoramente atual. Ela nos coloca diante de um desconforto silencioso: o desequilíbrio entre voz e conteúdo, entre direito de expressão e capacidade real de contribuir com algo significativo.

De um lado, estão aqueles que guardam experiências profundas, ideias valiosas, histórias que poderiam enriquecer o debate público, mas são silenciados — seja por medo, por falta de plataforma, por censura explícita ou pela sutil exclusão cultural.

São vozes que poderiam trazer perspectiva, sabedoria ou simplesmente honestidade crua para um mundo que parece cada vez mais barulhento e vazio ao mesmo tempo.

Do outro lado, vemos uma enxurrada constante de opiniões. Pessoas que falam sem parar, ocupam espaços, dominam timelines, podcasts, lives e reuniões, muitas vezes sem ter refletido minimamente sobre o que estão dizendo.

O ruído se multiplica, as redes sociais recompensam a velocidade e a performance em vez da profundidade, e o resultado é um oceano de palavras que pouco acrescentam.

O mais triste é que esse desequilíbrio não é novo, mas ganhou proporções industriais nas últimas décadas. A democratização das ferramentas de comunicação prometia dar voz a quem nunca tinha sido ouvido.

Em parte, cumpriu: movimentos sociais, denúncias importantes e conhecimentos antes invisíveis ganharam visibilidade. Porém, o mesmo mecanismo que ampliou vozes necessárias também inflou egos, incentivou a superficialidade e transformou a opinião em produto de consumo rápido.

Vivemos uma época em que falar se facilitou mais do que pensar. O algoritmo valoriza engajamento, não verdade ou utilidade. Quem grita mais alto, quem provoca mais, quem se posiciona de forma mais extremada costuma ser ouvido primeiro.

Enquanto isso, muitos que realmente teriam algo denso e honesto a contribuir permanecem em silêncio, ou são rapidamente soterrados pelo volume do barulho alheio.

Frost, com sua habitual lucidez poética, não estava apenas fazendo uma piada. Ele apontava para uma tragédia humana recorrente: a inversão entre quem merece ser ouvido e quem insiste em ser ouvido.

E o pior é que, quanto mais tempo passa, mais difícil fica distinguir um do outro em meio ao caos informacional. Talvez a grande pergunta que fica seja: como criamos espaços onde as vozes que realmente importam possam ser ouvidas, sem serem sufocadas pelo excesso de quem fala por falar?

Como cultivamos o silêncio necessário para pensar antes de abrir a boca — ou o teclado — novamente? Enquanto não respondermos a isso com mais humildade e discernimento, continuaremos presos nessa estranha divisão que Frost descreveu com tanta precisão: metade do mundo calada, apesar de ter muito a dizer; a outra metade falando sem parar, apesar de ter tão pouco.

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