Um dos trechos mais belos e libertadores da
literatura vem do livro O Profeta, de Kahlil Gibran. Quando uma mulher solicita ao
profeta Almustafa que fale sobre os filhos, ele responde com uma sabedoria
profunda e ao mesmo tempo carinhosa:
Vossos filhos não são vossos filhos. São os
filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não
de vós. E, embora vivam convosco, não vos pertencem.
Gibran nos lembra que os filhos são muito
mais do que uma extensão dos pais. Eles não nascem para cumprir nossos sonhos,
corrigir nossos erros ou carregar nossas expectativas.
São seres independentes, portadores de sua
própria alma, de seus próprios pensamentos e de um destino que pertence
primeiro à própria Vida. Na prática, isso acontece todos os dias, de formas
sutis ou dramáticas.
A criança que escolhe uma profissão
completamente diferente da que imaginávamos. O adolescente que questiona
valores que sempre consideramos inabaláveis.
O jovem adulto que decide morar longe,
viajar, amar alguém que não aprovamos ou simplesmente ser alguém que nunca
previmos. Cada uma dessas “rebeldias” ou escolhas é, na verdade, a Vida se
manifestando através deles — não através de nós.
Muitos pais sentem isso como perda. Outros,
com o tempo, aprendem a transformar em gratidão. Porque educar não é moldar
alguém à nossa imagem, mas sim preparar um arco para a flecha voar com força
e precisão para onde ela precisa ir.
Nós damos o amor, o abrigo, os valores, os
exemplos… mas não podemos — nem devemos — habitar a alma deles. Gibran continua
o texto dizendo que podemos dar amor, mas não nossos pensamentos, porque eles
já têm os seus próprios.
Podemos abrigar o corpo, mas as almas moram
na “casa do amanhã”, um lugar que nem em sonho conseguimos visitar. Essa visão
traz um alívio enorme para quem está criando filhos hoje.
Num mundo que cobra perfeição parental, resultados
garantidos e filhos “bem-sucedidos” segundo padrões sociais, Gibran nos convida
a soltar um pouco. A amar com intensidade, mas sem posse.
A guiar sem controlar. A preparar sem
prender. No fim das contas, ser pai ou mãe é uma das experiências mais bonitas
e humildes da existência: participar da chegada de alguém que nunca nos
pertenceu de verdade, mas que, por um tempo, divide a jornada conosco.
E, quando chega a hora de soltar o arco, a maior prova de amor é justamente desejar que a flecha voe longe, livre e feliz. Porque os filhos não são nossos. Eles são da Vida.









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