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sexta-feira, abril 17, 2026

Os filhos



Um dos trechos mais belos e libertadores da literatura vem do livro O Profeta, de Kahlil Gibran. Quando uma mulher solicita ao profeta Almustafa que fale sobre os filhos, ele responde com uma sabedoria profunda e ao mesmo tempo carinhosa:

Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E, embora vivam convosco, não vos pertencem.

Gibran nos lembra que os filhos são muito mais do que uma extensão dos pais. Eles não nascem para cumprir nossos sonhos, corrigir nossos erros ou carregar nossas expectativas.

São seres independentes, portadores de sua própria alma, de seus próprios pensamentos e de um destino que pertence primeiro à própria Vida. Na prática, isso acontece todos os dias, de formas sutis ou dramáticas.

A criança que escolhe uma profissão completamente diferente da que imaginávamos. O adolescente que questiona valores que sempre consideramos inabaláveis.

O jovem adulto que decide morar longe, viajar, amar alguém que não aprovamos ou simplesmente ser alguém que nunca previmos. Cada uma dessas “rebeldias” ou escolhas é, na verdade, a Vida se manifestando através deles — não através de nós.

Muitos pais sentem isso como perda. Outros, com o tempo, aprendem a transformar em gratidão. Porque educar não é moldar alguém à nossa imagem, mas sim preparar um arco para a flecha voar com força e precisão para onde ela precisa ir.

Nós damos o amor, o abrigo, os valores, os exemplos… mas não podemos — nem devemos — habitar a alma deles. Gibran continua o texto dizendo que podemos dar amor, mas não nossos pensamentos, porque eles já têm os seus próprios.

Podemos abrigar o corpo, mas as almas moram na “casa do amanhã”, um lugar que nem em sonho conseguimos visitar. Essa visão traz um alívio enorme para quem está criando filhos hoje.

Num mundo que cobra perfeição parental, resultados garantidos e filhos “bem-sucedidos” segundo padrões sociais, Gibran nos convida a soltar um pouco. A amar com intensidade, mas sem posse.

A guiar sem controlar. A preparar sem prender. No fim das contas, ser pai ou mãe é uma das experiências mais bonitas e humildes da existência: participar da chegada de alguém que nunca nos pertenceu de verdade, mas que, por um tempo, divide a jornada conosco.

E, quando chega a hora de soltar o arco, a maior prova de amor é justamente desejar que a flecha voe longe, livre e feliz. Porque os filhos não são nossos. Eles são da Vida.

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