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domingo, abril 12, 2026

Pouco tempo...

 



“Contei meus anos e percebi, com uma serenidade que antes me escapava, que o tempo que ainda me resta é menor do que aquele que já percorri. Essa constatação não me trouxe medo, mas uma espécie de lucidez tranquila — como se, de repente, tudo ganhasse o seu devido peso e lugar.

Sinto-me como um menino diante de uma bacia de jabuticabas. No início, ele as saboreia sem pressa, distraído, certo de que são muitas e durarão bastante. Mas, ao notar que restam poucas, muda o gesto: passa a aproveitar cada uma com intensidade, quase reverência, sem desperdiçar sequer o caroço.

Assim me encontro agora — menos displicente, mais atento ao valor de cada instante. Já não tenho tempo para mediocridades que se disfarçam de importância. Reuniões onde egos inflados disputam protagonismo me cansam antes mesmo de começarem.

Há um ruído constante em ambientes assim, uma necessidade de aparecer que sufoca o que realmente importa. Também me inquieta a inveja — esse sentimento silencioso que corrói por dentro e tenta destruir aquilo que, no fundo, admira. Não quero mais perder energia com isso.

Projetos grandiosos demais, que prometem mundos e entregam raramente sentido, já não me seduzem. Aprendi que grandeza não está no tamanho, mas na verdade que sustenta cada gesto.

Tampouco me interessam conversas intermináveis sobre a vida alheia, vazias de propósito e cheias de julgamentos. O tempo, quando escasso, exige escolhas mais honestas.

Não tenho mais disposição para administrar suscetibilidades infantis em corpos adultos, nem para mediar conflitos insignificantes que nascem do orgulho ferido. Há batalhas que simplesmente não merecem ser travadas. Prefiro o silêncio a certas discussões, a paz à necessidade de estar certo.

Meu tempo tornou-se precioso demais para rótulos e aparências. Quero a essência — aquilo que permanece quando tudo o mais cai. Há uma urgência mansa em mim, uma pressa da alma que não grita, mas orienta. Ela me conduz para o que é simples, verdadeiro e necessário.

Com poucas jabuticabas na bacia, escolho melhor minhas companhias. Quero estar ao lado de gente profundamente humana — daquelas que reconhecem seus erros sem se diminuírem, que riem de si mesmas, que não se deslumbram com vitórias nem se julgam escolhidas antes do tempo.

Pessoas que encaram a própria finitude sem desespero, e por isso mesmo valorizam a vida em sua inteireza. Quero caminhar perto de quem defende a dignidade dos esquecidos, de quem estende a mão sem alarde, de quem encontra no cotidiano pequenos gestos de grandeza.

Gente que compreende que viver é, sobretudo, um exercício de presença e de cuidado. Aproximar-me do que é verdadeiro — das coisas, das pessoas, dos afetos — nunca será perda de tempo. Pelo contrário: é nisso que o tempo encontra seu melhor sentido. Porque, no fim, fazer a vida valer a pena não é o excesso, mas a essência.

Basta o essencial.

Rubem Alves (1933–2014)

A arte permanece onde a verdade encontra abrigo.”

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