“Contei meus anos e percebi, com uma
serenidade que antes me escapava, que o tempo que ainda me resta é menor do que
aquele que já percorri. Essa constatação não me trouxe medo, mas uma espécie de
lucidez tranquila — como se, de repente, tudo ganhasse o seu devido peso e
lugar.
Sinto-me como um
menino diante de uma bacia de jabuticabas. No início, ele as saboreia sem
pressa, distraído, certo de que são muitas e durarão bastante. Mas, ao notar
que restam poucas, muda o gesto: passa a aproveitar cada uma com intensidade,
quase reverência, sem desperdiçar sequer o caroço.
Assim me encontro agora — menos displicente,
mais atento ao valor de cada instante. Já não tenho tempo para mediocridades
que se disfarçam de importância. Reuniões onde egos inflados disputam
protagonismo me cansam antes mesmo de começarem.
Há um ruído constante em ambientes assim, uma
necessidade de aparecer que sufoca o que realmente importa. Também me inquieta
a inveja — esse sentimento silencioso que corrói por dentro e tenta destruir aquilo
que, no fundo, admira. Não quero mais perder energia com isso.
Projetos
grandiosos demais, que prometem mundos e entregam raramente sentido, já não me
seduzem. Aprendi que grandeza não está no tamanho, mas na verdade que sustenta
cada gesto.
Tampouco me interessam conversas
intermináveis sobre a vida alheia, vazias de propósito e cheias de julgamentos.
O tempo, quando escasso, exige escolhas mais honestas.
Não tenho mais
disposição para administrar suscetibilidades infantis em corpos adultos, nem
para mediar conflitos insignificantes que nascem do orgulho ferido. Há batalhas
que simplesmente não merecem ser travadas. Prefiro o silêncio a certas
discussões, a paz à necessidade de estar certo.
Meu tempo
tornou-se precioso demais para rótulos e aparências. Quero a essência — aquilo
que permanece quando tudo o mais cai. Há uma urgência mansa em mim, uma pressa
da alma que não grita, mas orienta. Ela me conduz para o que é simples,
verdadeiro e necessário.
Com poucas
jabuticabas na bacia, escolho melhor minhas companhias. Quero estar ao lado de
gente profundamente humana — daquelas que reconhecem seus erros sem se
diminuírem, que riem de si mesmas, que não se deslumbram com vitórias nem se
julgam escolhidas antes do tempo.
Pessoas que encaram a própria finitude sem
desespero, e por isso mesmo valorizam a vida em sua inteireza. Quero caminhar
perto de quem defende a dignidade dos esquecidos, de quem estende a mão sem
alarde, de quem encontra no cotidiano pequenos gestos de grandeza.
Gente que compreende que viver é, sobretudo,
um exercício de presença e de cuidado. Aproximar-me do que é verdadeiro — das
coisas, das pessoas, dos afetos — nunca será perda de tempo. Pelo contrário: é
nisso que o tempo encontra seu melhor sentido. Porque, no fim, fazer a vida
valer a pena não é o excesso, mas a essência.
Basta o
essencial.
— Rubem Alves
(1933–2014)
A arte permanece onde a verdade encontra
abrigo.”









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