Quando alguém agradece a Deus
por ter sido salvo de uma doença grave, de um acidente ou de uma tragédia, na
verdade está celebrando apenas o cumprimento de uma obrigação mínima.
Afinal, se Deus é o criador
absoluto de todas as coisas - o universo inteiro, as leis da natureza, a
biologia, o tempo e o espaço -, ele também criou (ou ao menos permitiu) as
condições para que existissem desgraças, doenças, desastres naturais,
pandemias, terremotos, cânceres, guerras e sofrimentos de toda ordem.
Salvar alguém de um mal que ele
mesmo instituiu ou consentiu não é um ato extraordinário de bondade; é, no
mínimo, reparar parcialmente o dano que o sistema por ele projetado permite ou
provoca.
O conceito de livre-arbítrio
apresentado pela teologia tradicional também é problemático. Na prática, ele
não é verdadeiramente livre: reduz-se a uma escolha binária forçada entre o
"bem" (obedecer a Deus, seguir os mandamentos) e o "mal"
(desobedecer, pecar).
Quem opta pelo "mal"
enfrenta punição eterna ou sofrimento; quem opta pelo "bem" recebe
recompensa. Isso se assemelha mais a uma coação disfarçada do que a uma
liberdade genuína.
Um livre-arbítrio autêntico
implicaria a existência de múltiplas opções viáveis, todas positivas ou
neutras, sem ameaça de castigo desproporcional ou eterno por uma escolha
"errada".
Na realidade, o modelo teísta
clássico apresenta uma dicotomia coercitiva: obediência sob pena de tormento
infinito ou submissão recompensada. Isso não é liberdade; é ultimato.
O argumento mais forte contra a
existência de um Deus onisciente, onipotente e misericordioso permanece o
clássico problema do mal, formulado já na Antiguidade (atribuído a Epicuro).
Se Deus é onisciente, ele sabia
perfeitamente - desde a eternidade - que Adão e Eva (ou a humanidade em geral)
iriam pecar, que o mal moral se espalharia, que bilhões sofreriam e que a
maioria das almas acabaria condenada (segundo muitas doutrinas).
Se é onipotente, ele poderia ter
criado um mundo onde o pecado fosse impossível sem violar a liberdade (por
exemplo, um paraíso sem árvore do conhecimento, ou seres que livremente nunca
escolhessem o mal).
Se é verdadeiramente
misericordioso e amoroso, sem dúvida alguma teria evitado - ou ao menos
minimizado drasticamente - tanto sofrimento inocente (crianças com câncer,
vítimas de catástrofes, genocídios).
A coexistência desses três
atributos (onisciência + onipotência + bondade infinita) com a quantidade e a
qualidade do mal observável no mundo é logicamente incompatível.
Teólogos tentaram respostas como
a "defesa do livre-arbítrio" (o mal moral seria necessário para que
houvesse liberdade genuína) ou a ideia de Leibniz de que este seria "o
melhor dos mundos possíveis" (onde o mal serve a um bem maior que não
compreendemos).
No entanto, essas defesas
esbarram em contraexemplos: por que um Deus onipotente não poderia criar seres
livres que, por sua própria natureza, sempre escolhessem o bem?
Ou por que permitir males
"desnecessários" (sofrimento animal antes da existência humana,
desastres que matam milhares de inocentes) se o objetivo fosse apenas testar ou
aperfeiçoar o livre-arbítrio?
Em resumo, a gratidão por
"salvações" seletivas, o conceito restritivo de livre-arbítrio e a
persistência inexplicável do mal formam um conjunto de incoerências que
questionam seriamente as qualidades tradicionalmente atribuídas a Deus.
Se ele existe, ou não é
onisciente, ou não é onipotente, ou não é misericordioso - ou, talvez, nenhuma
dessas três coisas ao mesmo tempo, segundo a opinião de Perrone



























