Mar Morto: o lago que está desaparecendo
O Mar Morto é um dos lugares
mais singulares do planeta. Localizado no vale do rio Jordão, entre Israel, a
Jordânia e a Cisjordânia, é um lago salgado conhecido pela elevada concentração
de sais minerais, pela extrema salinidade de suas águas e por estar situado no
ponto mais baixo da superfície terrestre em terra firme.
Apesar do nome, o Mar Morto
não é um mar, mas um lago endorreico – ou seja, um corpo de água sem saída
natural para outro rio ou oceano. Suas águas recebem contribuições
principalmente do rio Jordão, mas são continuamente reduzidas pela evaporação.
Por que se chama Mar Morto?
O nome está relacionado à
dificuldade de sobrevivência da maioria dos organismos aquáticos em suas águas,
devido à concentração extremamente elevada de sais. Enquanto a salinidade média
dos oceanos é de aproximadamente 3,5%, a do Mar Morto gira em torno de 34%,
embora varie conforme a região e a profundidade.
Nessas condições, peixes e
outros organismos aquáticos comuns não conseguem sobreviver. Quando um peixe
levado pelo rio Jordão chega às águas do lago, a mudança brusca de salinidade é
fatal.
Isso não significa, porém, que
não exista vida alguma ali. Certas arqueias e algas microscópicas conseguem
sobreviver em condições específicas, demonstrando a capacidade de adaptação de
alguns organismos a ambientes extremos.
Um lago que encolhe a cada ano
Durante o século XX, o Mar
Morto sofreu uma redução significativa de sua superfície e de seu nível. Em
1930, sua área era estimada em cerca de 1.050 km². Em 2014, havia diminuído
para aproximadamente 650 km².
Essa transformação está
relacionada, sobretudo, ao desvio e à captação de águas do rio Jordão para
abastecimento humano, agricultura e outras atividades, tanto em Israel quanto
na Jordânia. Com menos água chegando ao lago, a evaporação natural – intensa
naquela região árida – contribui para acelerar seu encolhimento.
Outro fator está ligado às
atividades industriais que exploram os sais minerais presentes na região,
especialmente os compostos de potássio. Empresas instaladas nas margens do lago
utilizam processos de evaporação em grandes áreas de piscinas industriais,
contribuindo para alterações locais no balanço hídrico.
A consequência é visível: o
nível da água diminui, a linha da margem recua e o território ao redor passa
por profundas transformações ambientais.
O lugar mais baixo da superfície terrestre
O Mar Morto ocupa uma
depressão geológica formada por movimentos de placas tectônicas, ao longo do
sistema de falhas que integra o vale do Jordão e se prolonga em direção ao mar
Vermelho.
Sua superfície está atualmente
a mais de 430 metros abaixo do nível médio do mar, embora essa profundidade
relativa varie conforme o nível da água. Por isso, a região é conhecida como o
ponto de menor altitude em terra firme do planeta.
A geografia local também ajuda
a explicar o clima extremamente seco. As montanhas e os planaltos próximos
influenciam a distribuição das chuvas, enquanto as temperaturas elevadas
favorecem a evaporação. Em determinadas áreas, a precipitação anual é inferior
a 100 milímetros.
Na margem sudoeste encontra-se
o monte Sodoma, uma formação geológica composta predominantemente por sal, que
integra a paisagem incomum da região.
Uma história geológica de milhares de anos
A formação do Mar Morto está
ligada aos movimentos tectônicos que criaram uma extensa depressão entre a
África e a Arábia. Ao longo de milhares de anos, mudanças climáticas, variações
no abastecimento de água e a evaporação moldaram os lagos que ocuparam essa
região.
Em períodos mais úmidos,
corpos de água muito maiores se estenderam pelo vale. Com as mudanças
climáticas e a redução das entradas de água, esses lagos recuaram, contribuindo
para a configuração atual do Mar Morto.
Ao contrário de uma explicação
simplificada, segundo a qual o Mediterrâneo teria secado e deixado o lago para
trás, a história geológica da região é mais complexa e envolve sucessivas
transformações ambientais.
Existe uma solução
para salvar o Mar Morto?
Em dezembro de 2013, Israel,
Jordânia e representantes palestinos anunciaram um acordo relacionado a um
projeto para transferir água do Mar Vermelho para a região do Mar Morto. A
proposta buscava enfrentar a diminuição do lago e, ao mesmo tempo, ampliar o
acesso à água na região.
Entretanto, o projeto
despertou preocupações ambientais. A composição química do Mar Morto é muito
diferente da dos mares abertos, e a introdução de água com características
distintas poderia alterar seu equilíbrio ecológico e favorecer mudanças
químicas e biológicas ainda difíceis de prever.
O desafio permanece: conciliar
o abastecimento de água, as atividades econômicas e a preservação de um ambiente
natural único.
O Mar Morto é mais do que uma
curiosidade geográfica. É um exemplo de como a combinação entre condições
naturais, mudanças climáticas e intervenção humana pode transformar uma
paisagem ao longo de poucas décadas. Seu encolhimento é um alerta sobre a
importância de administrar os recursos hídricos com responsabilidade antes que
as consequências se tornem ainda mais difíceis de reverter.










0 Comentários:
Postar um comentário