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quinta-feira, outubro 15, 2026

Acredite no amor!



O amor não precisa de explicações

Em junho de 2013, poucos dias antes do Dia dos Namorados, minha namorada terminou comigo. Sem entender o motivo, passei um mês sofrendo, tentando encontrar respostas para uma pergunta que não saía da minha cabeça: se ela dizia que me amava, por que foi embora?

Certo dia, entrei no quarto do meu pai, chorando, e perguntei:

– Pai, ela dizia que me amava. Então, por que terminou comigo?

Ele respondeu:

– Meu filho, você nunca vai superar seus traumas se continuar procurando lógica no amor. Construa uma nova história.

Perguntei de onde viria a força para recomeçar.

– Não se preocupe com isso. Todo começo nasce de algum final.

Uma semana depois, meu pai foi diagnosticado com uma doença rara e degenerativa. Os médicos nos disseram que ele teria poucos dias de vida. Minha mãe não o abandonou. Permaneceu ao seu lado, mostrando que o amor também se revela quando a vida deixa de ser fácil.

Todas as sextas-feiras, meu pai saía para comer pizza com dois irmãos. Quando deixou de andar, meus tios passaram a trazer a pizza para nossa casa. Diziam que, sem ele, não tinha graça.

Hoje, mesmo quando meu pai já não consegue comer, eles continuam vindo. O que os reúne não é mais a pizza, mas o amor e a amizade que construíram ao longo da vida.

Meu pai também estudou em Juazeiro do Norte, Ceará. Ao se formarem, ele e três amigos combinaram que se encontrariam a cada cinco anos. Neste ano, como meu pai não podia mais viajar, os amigos saíram do interior cearense e vieram visitá-lo. Trouxeram uma fotografia dos quatro e a colocaram na parede do quarto. Depois, disseram:

– Agora, a nossa república é a sua casa.

E prometeram voltar dali a cinco anos. Meu pai chorou. Naquele momento, percebi que algumas amizades não dependem da proximidade nem da convivência diária. Elas sobrevivem ao tempo, à distância e às dificuldades.

No dia 2 de junho, meus pais completaram 47 anos de casados. Todos os anos, costumavam dançar juntos nessa data. Mas meu pai já não conseguia se levantar. Minha mãe entrou no quarto, colocou a música que costumavam dançar e me pediu:

– Meu filho, traga a cadeira de rodas.

Perguntei o que ela faria.

– Vou fazer o que seu pai faria por mim.

Acomodei meu pai na cadeira. Minha mãe ajoelhou-se ao lado dele, abraçou-o e disse:

– Vamos dançar?

Então, começou a girar a cadeira ao som da música, permanecendo ajoelhada durante toda a canção. Meu pai chorava e ria ao mesmo tempo. E os dois dançaram, não como antes, mas do jeito que ainda era possível.

Voltei para o quarto chorando e comecei a escrever este texto.

Foi naquela cena que compreendi como complicamos o amor. Criamos lista de exigências, estabelecemos condições e esperamos que o outro corresponda a todas as nossas expectativas. Esquecemos que amar também é estar presente quando a vida muda e já não podemos fazer as mesmas coisas de antes.

Minha mãe não precisava que meu pai voltasse a andar para celebrar os 47 anos de casamento. Precisava apenas estar perto dele. E ele, mesmo sem conseguir se levantar, ainda podia oferecer seu sorriso, suas lágrimas e toda uma vida de lembranças.

O amor verdadeiro não exige que o outro permaneça sempre igual. Ele aprende a acolher as mudanças que a vida impõe. É claro que amar não significa aceitar humilhações ou desrespeito. O amor também exige dignidade, reciprocidade e cuidado.

Mas existe uma diferença entre construir uma relação saudável e transformar o outro em alguém que precisa cumprir uma lista interminável de exigências. Não espere que alguém perca a capacidade de andar para descobrir que ainda é possível dançar.

Não espere que a distância se torne definitiva para visitar um amigo. Não espere a ausência para reconhecer o valor de uma presença. A vida passa depressa demais para desperdiçarmos o amor tentando enquadrá-lo em regras perfeitas.

Porque amar não é apenas caminhar de mãos dadas quando ambos conseguem andar. Às vezes, amar é ajoelhar-se, abraçar quem já não pode se levantar e encontrar, juntos, uma maneira de continuar dançando.

Acredite no amor. Não apenas naquele que se declara com palavras bonitas, mas naquele que se revela nas atitudes, na presença e na coragem de permanecer. Naquele que, mesmo diante das limitações, encontra um jeito de dançar.

Acredite no amor. Porque, quando a vida já não nos permite fazer tudo o que fazíamos antes, amar pode ser a maneira mais bonita de continuar vivendo.

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