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quinta-feira, dezembro 25, 2025

A Origem dos Demônios


As Origens da Crença em Demônios na Mesopotâmia e Sua Influência no Cristianismo

A crença em demônios possui raízes profundas na antiga Mesopotâmia, uma das mais antigas e influentes regiões da história humana. Situada entre os rios Tigre e Eufrates, abrangendo o atual Iraque e áreas vizinhas, essa civilização lançou os fundamentos de concepções religiosas e cosmológicas que atravessariam séculos, influenciando diretamente o judaísmo e, por efeito, o cristianismo.

Para os povos mesopotâmicos, sumérios, acadianos, babilônios e assírios, o mundo era permeado por forças invisíveis e instáveis. A realidade cotidiana estava intimamente ligada ao sobrenatural, e doenças, desastres naturais, infertilidade e tragédias pessoais eram frequentemente atribuídos à ação de entidades espirituais.

Entre essas entidades estavam os utukku, gallu, rabisu e outros seres demoníacos que, segundo as crenças, podiam penetrar o corpo humano por aberturas naturais, provocando enfermidades físicas, distúrbios mentais e infortúnios diversos.

Diferentemente da visão cristã posterior, na qual os demônios são concebidos como essencialmente malignos e subordinados a uma figura central do mal, como Satanás, a demonologia mesopotâmica era marcada pela ambiguidade moral.

Muitos desses seres não eram intrinsecamente maus: podiam agir como agentes destrutivos ou como protetores, dependendo das circunstâncias e da forma como eram invocados.

Essa cosmovisão deu origem a complexos rituais de proteção e exorcismo, conduzidos por sacerdotes especializados conhecidos como āšipu. Esses rituais incluíam encantamentos, fórmulas mágicas, amuletos, estatuetas e oferendas, com o objetivo de apaziguar ou expulsar entidades hostis.

A religião mesopotâmica, portanto, não buscava eliminar o mal, mas controlá-lo e equilibrá-lo. Com o avanço das rotas comerciais, migrações e conquistas militares, essas ideias se espalharam pelo Oriente Próximo.

Um momento decisivo nesse processo ocorreu durante o Exílio Babilônico dos judeus, no século VI a.C. Nesse período, conceitos mesopotâmicos foram assimilados pela tradição hebraica, influenciando textos apócrifos como o Livro de Enoque e contribuindo para o desenvolvimento de uma demonologia mais elaborada no judaísmo tardio.

No cristianismo primitivo, essas concepções foram reinterpretadas à luz de uma teologia dualista. Os demônios passaram a ser vistos como anjos caídos, rebelados contra Deus e liderados pelo Diabo.

A possessão demoníaca tornou-se um elemento central dos Evangelhos, especialmente nas narrativas dos exorcismos realizados por Jesus, reforçando a ideia de uma luta cósmica entre o bem e o mal.

Assim, entidades mesopotâmicas originalmente dúbias foram progressivamente transformadas em símbolos do mal absoluto. Um exemplo emblemático desse processo é Lamashtu, uma das figuras mais temidas da antiga Mesopotâmia.

Considerada filha do deus Anu, Lamashtu era associada a ataques contra mulheres grávidas, recém-nascidos e crianças, sendo responsabilizada por abortos espontâneos, doenças infantis e mortes precoces. Sua iconografia híbrida, combinando traços humanos e animais, simbolizava o medo do desconhecido e da fragilidade da vida.

Para combatê-la, os mesopotâmicos recorriam a outra entidade igualmente temida: Pazuzu.

Pazuzu: o Demônio Ambíguo da Mitologia Neo-Assíria

Pazuzu surge com destaque no período neo-assírio, aproximadamente 934-610 a.C., como o rei dos demônios do vento e filho da divindade Hanbi. Ele personificava ventos destrutivos associados a secas, tempestades, pragas e fomes.

Sua representação era deliberadamente assustadora, combinando elementos humanos e animais, reforçando sua natureza liminar entre ordem e caos. Paradoxalmente, apesar de sua associação com calamidades, Pazuzu era frequentemente invocado como protetor, sobretudo contra Lamashtu.

Amuletos com sua imagem eram usados por mulheres grávidas ou colocados em residências para afastar a entidade rival. Inscrições e estatuetas mostram Pazuzu dominando ou expulsando Lamashtu para o submundo, ilustrando a lógica mesopotâmica de que uma figura perigosa poderia ser usada para conter um mal ainda maior.

Essa concepção revela uma visão de mundo profundamente pragmática: o universo era instável e ameaçador, e sobreviver exigia negociar com forças sombrias, não simplesmente negá-las.

Pazuzu na Cultura Pop: O Exorcista

No cinema moderno, Pazuzu ganhou notoriedade com o filme O Exorcista (1973), dirigido por William Friedkin e baseado no romance de William Peter Blatty. Embora o nome do demônio só seja explicitamente mencionado na sequência de 1977, ele é a entidade central da narrativa.

O filme se inicia com o padre Lankester Merrin em escavações arqueológicas no norte do Iraque, onde encontra uma estatueta de Pazuzu, um símbolo direto da herança mesopotâmica. A partir desse momento, a entidade é associada à possessão da jovem Regan MacNeil, nos Estados Unidos.

Os eventos que se seguem culminam em um exorcismo dramático, no qual os padres Merrin e Damien Karras enfrentam o demônio, resultando no sacrifício final de Karras para salvar a menina.

A obra cinematográfica elimina completamente a ambiguidade original de Pazuzu, transformando-o em uma encarnação absoluta do mal. Essa adaptação reflete a visão cristã moderna da demonologia e contribuiu para fixar Pazuzu como um ícone do horror na cultura popular, ao mesmo tempo em que despertou o interesse contemporâneo pela mitologia mesopotâmica.

A crença mesopotâmica em demônios não era maniqueísta, mas complexa, funcional e profundamente integrada à vida cotidiana. Entidades como Pazuzu demonstram como os antigos povos enfrentavam o medo e o caos: não tentando eliminá-los, mas dialogando com eles.

Ao longo dos séculos, essas figuras foram reinterpretadas, moralizadas e absorvidas por sistemas religiosos posteriores, especialmente pelo cristianismo. Ainda assim, elas permanecem vivas na imaginação coletiva, lembrando-nos de que as narrativas sobre o mal - e sobre como lidar com ele - são tão antigas quanto a própria civilização.



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