As Origens da Crença em Demônios na Mesopotâmia e Sua Influência no Cristianismo
A crença em demônios possui
raízes profundas na antiga Mesopotâmia, uma das mais antigas e influentes
regiões da história humana. Situada entre os rios Tigre e Eufrates, abrangendo
o atual Iraque e áreas vizinhas, essa civilização lançou os fundamentos de
concepções religiosas e cosmológicas que atravessariam séculos, influenciando diretamente
o judaísmo e, por efeito, o cristianismo.
Para os povos mesopotâmicos,
sumérios, acadianos, babilônios e assírios, o mundo era permeado por forças
invisíveis e instáveis. A realidade cotidiana estava intimamente ligada ao
sobrenatural, e doenças, desastres naturais, infertilidade e tragédias pessoais
eram frequentemente atribuídos à ação de entidades espirituais.
Entre essas entidades estavam
os utukku, gallu, rabisu e outros seres demoníacos que, segundo as crenças,
podiam penetrar o corpo humano por aberturas naturais, provocando enfermidades
físicas, distúrbios mentais e infortúnios diversos.
Diferentemente da visão cristã
posterior, na qual os demônios são concebidos como essencialmente malignos e
subordinados a uma figura central do mal, como Satanás, a demonologia
mesopotâmica era marcada pela ambiguidade moral.
Muitos desses seres não eram
intrinsecamente maus: podiam agir como agentes destrutivos ou como protetores,
dependendo das circunstâncias e da forma como eram invocados.
Essa cosmovisão deu origem a
complexos rituais de proteção e exorcismo, conduzidos por sacerdotes
especializados conhecidos como āšipu. Esses rituais incluíam
encantamentos, fórmulas mágicas, amuletos, estatuetas e oferendas, com o
objetivo de apaziguar ou expulsar entidades hostis.
A religião mesopotâmica,
portanto, não buscava eliminar o mal, mas controlá-lo e equilibrá-lo. Com o
avanço das rotas comerciais, migrações e conquistas militares, essas ideias se
espalharam pelo Oriente Próximo.
Um momento decisivo nesse
processo ocorreu durante o Exílio Babilônico dos judeus, no século VI a.C.
Nesse período, conceitos mesopotâmicos foram assimilados pela tradição
hebraica, influenciando textos apócrifos como o Livro de Enoque e
contribuindo para o desenvolvimento de uma demonologia mais elaborada no
judaísmo tardio.
No cristianismo primitivo,
essas concepções foram reinterpretadas à luz de uma teologia dualista. Os
demônios passaram a ser vistos como anjos caídos, rebelados contra Deus e
liderados pelo Diabo.
A possessão demoníaca
tornou-se um elemento central dos Evangelhos, especialmente nas narrativas dos
exorcismos realizados por Jesus, reforçando a ideia de uma luta cósmica entre o
bem e o mal.
Assim, entidades mesopotâmicas
originalmente dúbias foram progressivamente transformadas em símbolos do mal
absoluto. Um exemplo emblemático desse processo é Lamashtu, uma das figuras
mais temidas da antiga Mesopotâmia.
Considerada filha do deus Anu,
Lamashtu era associada a ataques contra mulheres grávidas, recém-nascidos e
crianças, sendo responsabilizada por abortos espontâneos, doenças infantis e
mortes precoces. Sua iconografia híbrida, combinando traços humanos e animais,
simbolizava o medo do desconhecido e da fragilidade da vida.
Para combatê-la, os
mesopotâmicos recorriam a outra entidade igualmente temida: Pazuzu.
Pazuzu: o Demônio
Ambíguo da Mitologia Neo-Assíria
Pazuzu surge com destaque no
período neo-assírio, aproximadamente 934-610 a.C., como o rei dos demônios do
vento e filho da divindade Hanbi. Ele personificava ventos destrutivos
associados a secas, tempestades, pragas e fomes.
Sua representação era
deliberadamente assustadora, combinando elementos humanos e animais, reforçando
sua natureza liminar entre ordem e caos. Paradoxalmente, apesar de sua
associação com calamidades, Pazuzu era frequentemente invocado como protetor,
sobretudo contra Lamashtu.
Amuletos com sua imagem eram
usados por mulheres grávidas ou colocados em residências para afastar a
entidade rival. Inscrições e estatuetas mostram Pazuzu dominando ou expulsando
Lamashtu para o submundo, ilustrando a lógica mesopotâmica de que uma figura
perigosa poderia ser usada para conter um mal ainda maior.
Essa concepção revela uma
visão de mundo profundamente pragmática: o universo era instável e ameaçador, e
sobreviver exigia negociar com forças sombrias, não simplesmente negá-las.
Pazuzu na Cultura
Pop: O Exorcista
No cinema moderno, Pazuzu
ganhou notoriedade com o filme O Exorcista (1973), dirigido por William
Friedkin e baseado no romance de William Peter Blatty. Embora o nome do demônio
só seja explicitamente mencionado na sequência de 1977, ele é a entidade
central da narrativa.
O filme se inicia com o padre
Lankester Merrin em escavações arqueológicas no norte do Iraque, onde encontra
uma estatueta de Pazuzu, um símbolo direto da herança mesopotâmica. A partir
desse momento, a entidade é associada à possessão da jovem Regan MacNeil, nos
Estados Unidos.
Os eventos que se seguem
culminam em um exorcismo dramático, no qual os padres Merrin e Damien Karras
enfrentam o demônio, resultando no sacrifício final de Karras para salvar a
menina.
A obra cinematográfica elimina
completamente a ambiguidade original de Pazuzu, transformando-o em uma
encarnação absoluta do mal. Essa adaptação reflete a visão cristã moderna da
demonologia e contribuiu para fixar Pazuzu como um ícone do horror na cultura
popular, ao mesmo tempo em que despertou o interesse contemporâneo pela
mitologia mesopotâmica.
A crença mesopotâmica em
demônios não era maniqueísta, mas complexa, funcional e profundamente integrada
à vida cotidiana. Entidades como Pazuzu demonstram como os antigos povos
enfrentavam o medo e o caos: não tentando eliminá-los, mas dialogando com eles.
Ao longo dos séculos, essas figuras foram reinterpretadas, moralizadas e absorvidas por sistemas religiosos posteriores, especialmente pelo cristianismo. Ainda assim, elas permanecem vivas na imaginação coletiva, lembrando-nos de que as narrativas sobre o mal - e sobre como lidar com ele - são tão antigas quanto a própria civilização.









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