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sábado, fevereiro 14, 2026

Vivencias


A infância é uma fase decisiva na formação da personalidade, do caráter e dos padrões emocionais que nos acompanham ao longo da vida. Muitos dos valores, crenças e modos automáticos de reagir ao mundo são assimilados nesse período, frequentemente de maneira implícita, antes mesmo de termos maturidade para refletir conscientemente sobre o que estamos vivenciando.

O ambiente familiar, a qualidade dos vínculos afetivos e as experiências de cuidado ou de abandono moldam a forma como aprendemos a confiar, a amar, a nos proteger e a nos posicionar diante das dificuldades.

Aquilo que a criança internaliza como “normal” tende a se tornar, mais tarde, o seu referencial de mundo - ainda que esse padrão seja doloroso ou disfuncional. Experiências traumáticas, especialmente abusos físicos, sexuais ou emocionais, bem como negligência, rejeição constante ou exposição à violência, deixam marcas profundas.

Desde as formulações de Sigmund Freud até as abordagens contemporâneas da neurociência e da psicologia do desenvolvimento, reconhece-se que eventos traumáticos podem ser reprimidos ou dissociados como mecanismo de proteção.

A mente, tentando preservar a sobrevivência psíquica, “afasta” da consciência aquilo que é excessivamente doloroso. Contudo, o fato de uma memória não estar claramente acessível não significa que o trauma tenha desaparecido. Ele continua a influenciar comportamentos, emoções e escolhas de maneira indireta, muitas vezes silenciosa. Pode manifestar-se como:

Dificuldades nos relacionamentos, incluindo medo intenso de abandono, desconfiança excessiva ou repetição de padrões afetivos prejudiciais.

Problemas de autoestima, com sentimentos persistentes de inadequação, culpa ou vergonha.

Ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou comportamentos autodestrutivos, como vícios e impulsividade.

Reações emocionais intensas e aparentemente desproporcionais a situações cotidianas - os chamados “gatilhos”, que reativam experiências passadas não elaboradas.

Pesquisas atuais em psicologia e psiquiatria também demonstram que traumas na infância podem impactar o próprio funcionamento biológico, afetando a regulação do estresse, o sono, o sistema imunológico e até a saúde cardiovascular.

Ou seja, o trauma não é apenas uma lembrança psicológica: ele pode se inscrever no corpo. Diante disso, é legítimo questionar o ditado popular de que “o tempo cura tudo”. O tempo, por si só, não resolve traumas de infância. Sem elaboração consciente e apoio adequado, os efeitos tendem a se perpetuar - e, em alguns casos, a se intensificar - influenciando a vida emocional, profissional e relacional por décadas.

Muitas pessoas vivem sob a influência dessas marcas sem perceber claramente a origem de seus comportamentos. Agem, reagem, afastam-se ou sabotam oportunidades “sem saber por quê”.

Esse desconhecimento pode gerar frustração e a sensação de que há algo errado consigo mesmas, quando, na verdade, trata-se de feridas antigas ainda não cuidadas.

A boa notícia é que é possível trabalhar esses traumas. A psicoterapia psicodinâmica ou psicanalítica pode ajudar a trazer à consciência conteúdos reprimidos, ressignificar experiências e elaborar emoções.

Outras abordagens baseadas em evidências, como o EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares), a terapia cognitivo-comportamental focada em trauma e técnicas de regulação emocional e integração corporal, apresentam resultados consistentes na redução dos sintomas e no fortalecimento da autonomia psíquica.

O processo terapêutico não apaga o passado, mas transforma a relação que a pessoa estabelece com ele. O que antes era uma ferida aberta pode tornar-se uma cicatriz integrada à história pessoal - não mais um comando invisível que determina escolhas e reações.

Se essa reflexão nasce de uma experiência própria ou da observação de alguém próximo, reconhecer a influência do passado já é um passo imenso. Buscar ajuda profissional - de um psicólogo ou psiquiatra especializado em trauma - pode representar o início de um caminho de reconstrução.

As marcas da infância não precisam definir o destino de ninguém; com apoio adequado, é possível construir novas narrativas, novos vínculos e uma relação mais saudável consigo mesmo.

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