A infância é uma fase decisiva na formação da
personalidade, do caráter e dos padrões emocionais que nos acompanham ao longo
da vida. Muitos dos valores, crenças e modos automáticos de reagir ao mundo são
assimilados nesse período, frequentemente de maneira implícita, antes mesmo de
termos maturidade para refletir conscientemente sobre o que estamos
vivenciando.
O ambiente familiar, a qualidade dos vínculos
afetivos e as experiências de cuidado ou de abandono moldam a forma como
aprendemos a confiar, a amar, a nos proteger e a nos posicionar diante das
dificuldades.
Aquilo que a criança internaliza como
“normal” tende a se tornar, mais tarde, o seu referencial de mundo - ainda que
esse padrão seja doloroso ou disfuncional. Experiências traumáticas, especialmente
abusos físicos, sexuais ou emocionais, bem como negligência, rejeição constante
ou exposição à violência, deixam marcas profundas.
Desde as formulações de Sigmund Freud até as
abordagens contemporâneas da neurociência e da psicologia do desenvolvimento,
reconhece-se que eventos traumáticos podem ser reprimidos ou dissociados como
mecanismo de proteção.
A mente, tentando preservar a sobrevivência
psíquica, “afasta” da consciência aquilo que é excessivamente doloroso. Contudo,
o fato de uma memória não estar claramente acessível não significa que o trauma
tenha desaparecido. Ele continua a influenciar comportamentos, emoções e
escolhas de maneira indireta, muitas vezes silenciosa. Pode manifestar-se como:
Dificuldades nos relacionamentos, incluindo
medo intenso de abandono, desconfiança excessiva ou repetição de padrões
afetivos prejudiciais.
Problemas de autoestima, com sentimentos
persistentes de inadequação, culpa ou vergonha.
Ansiedade, depressão, transtorno de estresse
pós-traumático (TEPT) ou comportamentos autodestrutivos, como vícios e
impulsividade.
Reações emocionais intensas e aparentemente
desproporcionais a situações cotidianas - os chamados “gatilhos”, que reativam
experiências passadas não elaboradas.
Pesquisas atuais em psicologia e psiquiatria
também demonstram que traumas na infância podem impactar o próprio
funcionamento biológico, afetando a regulação do estresse, o sono, o sistema
imunológico e até a saúde cardiovascular.
Ou seja, o trauma não é apenas uma lembrança
psicológica: ele pode se inscrever no corpo. Diante disso, é legítimo
questionar o ditado popular de que “o tempo cura tudo”. O tempo, por si só, não
resolve traumas de infância. Sem elaboração consciente e apoio adequado, os
efeitos tendem a se perpetuar - e, em alguns casos, a se intensificar -
influenciando a vida emocional, profissional e relacional por décadas.
Muitas pessoas vivem sob a influência dessas
marcas sem perceber claramente a origem de seus comportamentos. Agem, reagem,
afastam-se ou sabotam oportunidades “sem saber por quê”.
Esse desconhecimento pode gerar frustração e
a sensação de que há algo errado consigo mesmas, quando, na verdade, trata-se
de feridas antigas ainda não cuidadas.
A boa notícia é que é possível trabalhar
esses traumas. A psicoterapia psicodinâmica ou psicanalítica pode ajudar a
trazer à consciência conteúdos reprimidos, ressignificar experiências e
elaborar emoções.
Outras abordagens baseadas em evidências,
como o EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares), a
terapia cognitivo-comportamental focada em trauma e técnicas de regulação
emocional e integração corporal, apresentam resultados consistentes na redução
dos sintomas e no fortalecimento da autonomia psíquica.
O processo terapêutico não apaga o passado,
mas transforma a relação que a pessoa estabelece com ele. O que antes era uma
ferida aberta pode tornar-se uma cicatriz integrada à história pessoal - não
mais um comando invisível que determina escolhas e reações.
Se essa reflexão nasce de uma experiência
própria ou da observação de alguém próximo, reconhecer a influência do passado
já é um passo imenso. Buscar ajuda profissional - de um psicólogo ou psiquiatra
especializado em trauma - pode representar o início de um caminho de
reconstrução.
As marcas da infância não precisam definir o
destino de ninguém; com apoio adequado, é possível construir novas narrativas,
novos vínculos e uma relação mais saudável consigo mesmo.








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