Em
poucos lugares do mundo a ostentação se apresenta de forma tão visível quanto
no Brasil. E, paradoxalmente, em poucos
lugares ela revela com tanta clareza a fragilidade de quem a sustenta.
Aqui,
muitos dos que acumulam riqueza parecem, sob certos aspectos, viver uma espécie
de pobreza disfarçada - não material, mas existencial.
São “pobres” porque trocam parte significativa de
suas fortunas por carros de luxo importados, equipados com o que há de mais
avançado em tecnologia e conforto, apenas para permanecerem imóveis em
congestionamentos intermináveis.
No
fim, compartilham o mesmo tempo perdido - e, muitas vezes, a mesma frustração -
daqueles que seguem espremidos em transportes públicos vindos das periferias.
São “pobres” porque vivem cercados por
dispositivos de proteção que, em vez de libertar, aprisionam. Vidros blindados,
sistemas de vigilância, condomínios fechados e rotinas cuidadosamente
planejadas não eliminam o medo - apenas o administram.
Assaltos,
sequestros relâmpago e a violência urbana transformaram-se em presenças
constantes no imaginário - e, não raramente, na realidade - das grandes
cidades.
São “pobres” também porque confundem cuidado com
compensação. Presenteiam os filhos com carros antes mesmo da maturidade
necessária para compreendê-los, como se o objeto pudesse substituir o tempo, o
diálogo e a orientação.
E,
a partir daí, o que deveria ser conforto transforma-se em inquietação: cada
saída é acompanhada por uma espera silenciosa, cada demora se torna angústia.
Essa ostentação que não protege, esse luxo que
não tranquiliza e essa riqueza que convive com a insegurança revelam uma
verdade incômoda: o dinheiro, por si só, é incapaz de garantir paz.
No
Brasil, ele compra visibilidade, distinção social e acesso - mas raramente
oferece serenidade. Talvez porque a verdadeira segurança não esteja nos
objetos, mas nas condições coletivas.
Não
nasce do isolamento, mas da confiança social. Enquanto persistirem
desigualdades profundas, mobilidade urbana precária e uma sensação difusa de
insegurança, a riqueza continuará sendo, em certa medida, uma tentativa de
defesa - e não um caminho para a tranquilidade.
No fim, a contradição permanece: quanto mais se tenta aparentar invulnerabilidade, mais evidente se torna a vulnerabilidade que se deseja esconder. E assim, entre blindagens, luxos e medos silenciosos, constrói-se uma riqueza que, embora vistosa, revela-se inquieta - e, por isso mesmo, incompleta.









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