Que a nossa passagem pela vida não seja motivo de sofrimento
Que ninguém, por tua culpa,
tenha passado fome, sentido medo ou sofrido com o frio. Que ninguém tenha sido
impedido de viver por tua causa, nem tenha temido a morte ou desejado morrer
por causa da dor que lhe provocaste.
Que nenhuma pessoa tenha
pronunciado o teu nome com pavor, nem olhado para o teu rosto com desprezo. Que
as tuas palavras não tenham sido pedras lançadas contra quem já carregava
feridas, e que as tuas atitudes não tenham roubado a esperança de quem
precisava apenas de um pouco de compreensão.
Que, quando partires, alguém
sinta a tua falta. Não por aquilo que possuías, pelo poder que exerceste ou
pela posição que ocupaste, mas pela bondade que ofereceste, pelo amparo que
proporcionaste e pela diferença que fizeste na vida de alguém.
Que tenhas sido abrigo para
quem sentia frio, alimento para quem tinha fome, consolo para quem chorava e
presença para quem acreditava estar sozinho.
Que não tenhas utilizado a
fragilidade alheia para te sentires forte, nem a confiança de alguém como
oportunidade para enganar. Que não tenhas confundido autoridade com
superioridade, sinceridade com crueldade ou liberdade com o direito de ferir.
A vida não nos exige
perfeição. Somos falíveis, cometemos erros, decepcionamos pessoas e, por vezes,
ferimos sem perceber. Mas há uma diferença entre errar e persistir no erro,
entre machucar e não se importar com a dor provocada.
A grandeza humana também se
revela na capacidade de reconhecer os próprios equívocos, pedir perdão e tentar
reparar o mal que fizemos. No fim, pouco importará quantas coisas acumulamos,
quantas disputas vencemos ou quantas pessoas se curvaram diante de nós.
O que realmente permanecerá
será aquilo que despertamos no coração dos outros. Que a nossa passagem pela
vida deixe mais alívio do que sofrimento, mais esperança do que medo e mais
amor do que ressentimento.
Assim, quando chegar a hora da
despedida, o coração não carregará o chumbo das culpas, das crueldades e dos
arrependimentos que poderiam ter sido evitados. Estará mais leve, livre do peso
de ter feito da vida alheia um lugar de dor.
E talvez seja essa uma das
maneiras mais bonitas de partir: deixando saudade em vez de alívio, gratidão em
vez de rancor e lembranças que continuem aquecendo os corações muito depois da
nossa ausência. Que o nosso coração seja, enfim, mais leve do que a mais leve
pluma.









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