Kramer sendo escoltado por soldados ingleses em Bergen-Belsen após ser capturado, 1945.
Josef Kramer foi um dos mais impiedosos
criminosos de guerra nazistas, diretamente responsável pela morte de milhares
de judeus durante o Holocausto, na Segunda Guerra Mundial.
Seu nome está associado de forma indelével ao
campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, onde atuou como comandante
e ganhou dos próprios prisioneiros o sinistro apelido de “Besta de Belsen”, símbolo máximo da
brutalidade desumana do regime nazista em seus estertores.
Nascido em 10 de
novembro de 1906, na cidade de Munique, Kramer ingressou no Partido Nazista em
1931 e, no ano seguinte, alistou-se na SS (Schutzstaffel). Após o treinamento
interno da organização, iniciou sua carreira como guarda prisional e, com o
início da guerra, foi designado para atuar nos campos de concentração, espaços
onde a ideologia nazista se materializava em violência sistemática e
extermínio.
Em 1934, Kramer
foi destacado para o campo de Dachau, onde rapidamente ascendeu na hierarquia.
Passou a ocupar cargos de supervisão em outros campos, como Sachsenhausen e
Mauthausen, consolidando sua reputação como um oficial rigoroso, violento e
absolutamente fiel às diretrizes do regime.
Em 1940, tornou-se assistente de Rudolf Höss
em Auschwitz, o maior complexo de extermínio do Terceiro Reich. Dois anos
depois, em 1942, foi promovido ao posto de SS-Hauptsturmführer,
assumindo responsabilidades diretas sobre as câmaras de gás de
Auschwitz-Birkenau.
Durante o
período em Auschwitz, Kramer destacou-se pela extrema crueldade com que tratava
tanto prisioneiros quanto subordinados. O médico da SS Franz Lucas,
posteriormente acusado em julgamentos de crimes de guerra, relatou que evitava
ao máximo cumprir ordens dadas por Kramer, chegando a alegar dores estomacais e
intestinais para fugir das tarefas impostas.
Em certa ocasião, ao ver seu nome incluído na
lista de médicos responsáveis pela seleção de prisioneiros recém-chegados da
Hungria - que determinava quem seria enviado ao trabalho forçado e quem seguiria
diretamente para a morte - Lucas protestou. A resposta de Kramer foi direta e
ameaçadora:
“Eu sei que você
está sendo investigado por favorecer prisioneiros. Estou lhe ordenando agora
que suba aquela rampa e faça seu trabalho. Se se recusar a obedecer, eu o mato
no local.”
Em agosto de 1943, Auschwitz recebeu um grupo de quarenta mulheres destinadas à execução imediata. Kramer, auxiliado por homens da SS, ordenou que fossem despidas e empurradas para dentro das câmaras de gás.
Do lado de fora, observou calmamente, através
de um pequeno visor, enquanto as mulheres gritavam em desespero até caírem
mortas no chão. Questionado posteriormente sobre o que sentia ao presenciar
tais cenas, respondeu com frieza:
- “Eu
não sentia nada ao fazer essas coisas. Estava apenas obedecendo ordens. Foi
assim que fui treinado.”
Em dezembro de
1944, Josef Kramer assumiu o comando do campo de concentração de Bergen-Belsen.
Àquela altura, a Alemanha já caminhava para o colapso, mas as regras impostas
por Kramer eram de uma brutalidade extrema.
As condições do campo deterioraram-se
rapidamente: fome, doenças e abandono tornaram-se parte da rotina. Sua conduta
cruel consolidou definitivamente o apelido de “Besta
de Belsen” entre os prisioneiros.
Mesmo com a
desintegração da administração nazista, Kramer permaneceu obsessivamente fiel à
burocracia. Em março de 1945, registrou friamente em um relatório que, dos 25
mil prisioneiros sob sua custódia, cerca de 300 haviam morrido de tifo apenas
na semana anterior.
Com a aproximação do fim da guerra,
Bergen-Belsen passou a receber prisioneiros transferidos de outros campos
evacuados às pressas diante do avanço dos Aliados. Em meados de abril, o campo
abrigava mais de 80 mil pessoas, muito além de sua capacidade.
Sepultura simbólica de Anne Frank uma das vítimas de Kramer em Bergen-Belsen
A administração entrou em colapso total. A
maioria dos guardas abandonou o campo para evitar represálias, deixando os
prisioneiros entregues à própria sorte. Corpos em decomposição espalhavam-se
por toda parte; ratos atacavam os vivos, especialmente aqueles fracos demais
para se defender. A morte tornou-se onipresente.
Josef Kramer, no
entanto, permaneceu no campo até o fim. Quando os soldados britânicos
finalmente chegaram para libertar Bergen-Belsen, ele mostrou-se indiferente.
Conduziu-os em uma espécie de “visita” pelo
local, exibindo sem qualquer sinal de arrependimento as cenas de degradação
absoluta: pilhas de corpos esqueléticos amontoados, valas comuns cheias de
cadáveres insepultos e barracões onde sobreviventes mal conseguiam distinguir a
vida da morte, física e mentalmente destruídos.
Kramer foi preso
juntamente com outros 44 membros da equipe de Bergen-Belsen, incluindo quinze
mulheres. Todos foram levados a julgamento por uma corte militar britânica na
cidade de Lüneburg. O processo ocorreu entre setembro e novembro de 1945 e
ficou conhecido como um dos julgamentos mais emblemáticos do pós-guerra.
Em 17 de
novembro de 1945, Josef Kramer foi condenado à morte por crimes contra a
humanidade. A sentença foi cumprida em 13 de dezembro de 1945, na prisão de
Hamelin. O responsável por sua execução foi o carrasco britânico Albert Pierrepoint, que também executou
diversos outros criminosos nazistas.
Assim terminou a trajetória de um homem cuja
obediência cega e desumanização extrema contribuíram para um dos capítulos mais
sombrios da história da humanidade.





























