William Tyndale nasceu em Gloucestershire,
Inglaterra, por volta de 1484, e tornou-se uma das figuras mais influentes da
Reforma Protestante antes de sua execução, em 6 de outubro de 1536, próximo a
Bruxelas, então parte das Dezessete Províncias.
Reconhecido como erudito, linguista e
teólogo, Tyndale entrou para a história principalmente por sua decisiva
contribuição à tradução da Bíblia para o inglês, trabalho profundamente
influenciado pelas ideias humanistas de Erasmo de Rotterdam e pelas reformas
religiosas defendidas por Martinho Lutero.
Desde os
primeiros séculos da era cristã, já existiam tentativas de traduzir partes das
Escrituras para o inglês. No entanto, o cenário religioso e político da
Inglaterra tornava esse empreendimento extremamente delicado.
A tradução associada a John Wycliffe, no
final do século XIV, provocou forte reação das autoridades religiosas e civis,
gerando perseguições severas. A posse de versões não autorizadas da Bíblia em
inglês podia resultar em punições rigorosas, inclusive a pena de morte, mesmo
quando traduções em outras línguas europeias eram toleradas.
Foi nesse ambiente
de tensão que William Tyndale assumiu uma missão considerada revolucionária:
tornar as Escrituras acessíveis diretamente ao povo comum. Diferentemente das
traduções inglesas anteriores, muitas vezes baseadas na Vulgata latina, Tyndale
trabalhou diretamente a partir dos textos originais em hebraico e grego.
Esse método refletia o espírito renascentista
e humanista da época, que incentivava o retorno às fontes originais do
conhecimento. Sua tradução do Novo Testamento representou um marco histórico por
várias razões.
Além de ser a primeira tradução inglesa
elaborada diretamente dos idiomas bíblicos originais, também foi uma das
primeiras a se beneficiar da recente tecnologia da prensa móvel, permitindo
ampla reprodução e circulação dos textos.
Tyndale introduziu ainda escolhas
linguísticas que deixariam marcas permanentes na tradição bíblica inglesa,
incluindo o uso do nome “Jeová” (“Iehouah”) para designar Deus, opção
valorizada por diversos reformadores protestantes.
O projeto,
contudo, foi visto como um desafio frontal tanto à autoridade da Igreja
Católica quanto ao sistema religioso e político inglês, que mantinha estreita
ligação entre Estado e religião.
Convencido de que dificilmente obteria
autorização para seu trabalho na Inglaterra, Tyndale deixou o país em 1524,
apoiado financeiramente por comerciantes londrinos simpáticos às ideias
reformistas.
Refugiou-se em territórios alemães, onde teve
contato mais direto com os movimentos da Reforma e aprofundou seus estudos,
inclusive aprendendo alemão para consultar as traduções bíblicas de Lutero e os
textos latinos editados por Erasmo.
Em 1525,
concluiu sua tradução do Novo Testamento. As primeiras impressões ocorreram em
Colônia e, posteriormente, em outras cidades europeias, após dificuldades e
perseguições que chegaram a interromper parte do processo editorial.
Em 1526, exemplares começaram a ser
contrabandeados para a Inglaterra, escondidos entre mercadorias comerciais.
Apesar das tentativas das autoridades de apreender e destruir esses livros, as
cópias circularam rapidamente e alcançaram leitores de diferentes camadas
sociais.
Tyndale não se
limitou ao Novo Testamento. Determinado a concluir toda a obra bíblica, iniciou
a tradução do Antigo Testamento diretamente do hebraico. Contudo, sua atividade
constante e sua notoriedade como reformador acabaram atraindo perseguição
crescente.
Em 1535, foi traído, preso e encarcerado
perto de Bruxelas. Após mais de um ano de detenção e julgamento por heresia,
foi condenado à morte.
Em 6 de outubro
de 1536, William Tyndale foi executado por estrangulamento e, em seguida, teve
seu corpo queimado na fogueira. Segundo relatos históricos, suas últimas
palavras teriam sido uma súplica: “Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra.”
A
ironia da história é que, poucos anos após sua morte, grande parte de seu
trabalho passou a influenciar diretamente as traduções bíblicas autorizadas na
própria Inglaterra. Décadas depois, sua linguagem e suas escolhas de tradução
exerceriam enorme influência sobre a famosa Bíblia do Rei James, publicada em
1611.
Assim,
aquilo que antes fora considerado crime e ameaça acabou moldando profundamente
a tradição religiosa, literária e cultural do mundo de língua inglesa,
transformando William Tyndale em um símbolo da liberdade de consciência e do
acesso ao conhecimento religioso.









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