Leandro: a voz que ajudou a transformar a música sertaneja brasileira
Luiz José Costa nasceu em
Goianápolis, Goiás, em 15 de agosto de 1961. Conhecido nacionalmente como
Leandro, tornou-se um dos maiores nomes da música sertaneja brasileira ao lado
de seu irmão, Emival Eterno Costa, o Leonardo.
Mais do que cantor e
compositor, Leandro foi símbolo de uma geração que viu o sertanejo deixar as
raízes restritas ao interior e conquistar o país inteiro.
Filho de Avelino Virgulino da
Costa e Carmem Divina Eterno da Silva, cresceu em uma família simples e
numerosa, ao lado de oito irmãos. A infância foi marcada pela vida na zona
rural, onde estudou até o ensino fundamental e aprendeu, desde cedo, o valor do
trabalho.
Ainda menino, ajudava os pais
em pequenas plantações de tomate e jiló. A lida no campo fazia parte da rotina
familiar, mas o futuro cantor jamais escondeu que seu coração batia por outros
sonhos. A música, ainda silenciosa, já ocupava espaço em sua imaginação.
Antes do reconhecimento
artístico, Leandro e Leonardo enfrentaram diversas dificuldades. Trabalharam no
Mercado Central de Goiânia como vendedores de sapatos e engraxates durante o
período natalino, buscando contribuir para o sustento da família.
Foi nesse período de batalhas
que Leandro começou a descobrir sua vocação musical. Chegou a atuar como
vocalista da banda “Os Dominantes”, grupo que interpretava sucessos dos Beatles
e de Roberto Carlos, experiência que ajudou a moldar sua presença de palco e
seu estilo vocal.
A história da dupla sertaneja
começou a tomar forma em 1983. Leonardo, que trabalhava como balconista na Farmácia
São Benedito, em Goiânia, acabou demitido após uma sequência de empregos
difíceis e instáveis.
Antes disso, havia trabalhado
como boia-fria e entregador de remédios. Entre tropeços e recomeços, os irmãos
decidiram apostar definitivamente na música.
Munidos apenas de talento,
coragem e violas, passaram a cantar em bares modestos de Goianápolis e pequenas
cidades goianas. O início foi marcado por apresentações simples, cachês baixos
e muitas portas fechadas. Ainda assim, persistiram.
A trajetória começou a mudar
quando uma fita demo, gravada de maneira rudimentar, chegou aos executivos da
gravadora Continental. O material chamou atenção pela autenticidade e pela
força emocional da interpretação dos irmãos. Entre as músicas estava “Entre
Tapas e Beijos”, composição que mais tarde se transformaria em um dos maiores
sucessos da música brasileira.
O nome artístico da dupla
surgiu inspirado nos filhos gêmeos de um amigo dos irmãos. Assim nasceram
Leandro & Leonardo, uma parceria que rapidamente conquistaria espaço em um
mercado altamente competitivo.
O sertanejo apresentado pelos
irmãos possuía características distintas da tradicional moda de viola.
Misturando romantismo, melodias acessíveis e produção moderna, ajudaram a
consolidar o chamado “sertanejo moderno”, movimento que revolucionaria o gênero
nas décadas seguintes.
Em 1986, lançaram o primeiro
álbum, que trazia a canção “Contradições”. Embora o disco não tenha alcançado
grande repercussão nacional, vendeu cerca de 38 mil cópias — um resultado
promissor para artistas ainda desconhecidos.
A consagração definitiva
chegou em 1989. Com “Entre Tapas e Beijos”, presente no terceiro álbum da
dupla, Leandro & Leonardo ultrapassaram a marca de 1,3 milhão de cópias
vendidas e se transformaram em fenômeno popular.
O sucesso não se limitava às
rádios. A dupla passou a lotar ginásios, feiras agropecuárias e grandes casas
de espetáculo, tornando-se presença constante na televisão brasileira. O quarto
álbum, impulsionado pelo enorme sucesso de “Pense em Mim”, vendeu quase três
milhões de cópias e consolidou a dupla como uma das maiores do país.
Pela primeira vez, artistas
sertanejos atingiam números de vendagem comparáveis aos maiores nomes da música
popular brasileira. Leandro, responsável pela segunda voz e por parte
importante da identidade musical da dupla, nunca escondeu que o som que
produziam dialogava mais com o romantismo contemporâneo do que com a tradição
sertaneja clássica. Essa honestidade artística ajudou a aproximar a dupla de
diferentes públicos.
O reconhecimento levou Leandro
& Leonardo ao centro do entretenimento nacional. Participaram do programa
“Amigos”, exibido pela Rede Globo, ao lado de outros gigantes do gênero,
tornando-se representantes de uma era dourada da música sertaneja.
Nos anos 1990, o sucesso
alcançou também os círculos políticos e empresariais. Os irmãos realizaram
apresentações particulares para autoridades, incluindo shows na Casa da Dinda e
no Palácio do Planalto, durante o governo de Fernando Collor de Mello.
Fora dos palcos, Leandro
revelou-se um empresário atento e visionário. Investiu em propriedades rurais,
criação de gado e imóveis, construindo patrimônio sólido. Possuía fazendas em
Goiás e Tocantins, além de imóveis em Goiânia.
Ainda assim, a principal fonte
de renda continuava sendo a música. Os cachês da dupla figuravam entre os
maiores do país, reforçados por campanhas publicitárias e contratos comerciais.
A luta contra a doença
A vida de Leandro sofreu uma
mudança dramática em abril de 1998. Durante uma pescaria em uma de suas
fazendas no Tocantins, em 19 de abril, o cantor sentiu uma forte dor nas costas
ao puxar o molinete da vara de pesca. A princípio, o episódio parecia algo
passageiro, mas os sintomas se agravaram rapidamente.
Dias depois, já em São Paulo,
foi encontrado desacordado enquanto tomava banho e levado a um hospital para
exames. Uma radiografia revelou uma mancha preocupante no pulmão direito.
O diagnóstico definitivo veio
em 8 de maio, após avaliação médica realizada no Hospital Johns Hopkins, em
Baltimore, nos Estados Unidos. Leandro sofria de um raríssimo tumor maligno
conhecido como tumor de Askin, localizado na região torácica.
A notícia chocou o país.
Tratava-se de um câncer
agressivo, de evolução extremamente rápida, que comprometia pulmões, coração,
brônquios e vasos sanguíneos importantes. Apesar da gravidade, não houve
confirmação de metástase para outros órgãos.
Leandro iniciou imediatamente
uma intensa batalha pela vida. Submeteu-se a sessões de quimioterapia e a
procedimentos complexos, incluindo a colocação de um stent na veia cava
superior, comprimida pelo tumor, além de uma embolização destinada a reduzir a
irrigação sanguínea da massa cancerígena.
Mesmo diante do sofrimento
físico e emocional, procurava demonstrar serenidade e esperança. Sua última
aparição pública ocorreu em 8 de junho de 1998.
Já debilitado pelos efeitos do
tratamento e sem os cabelos devido à quimioterapia, surgiu na varanda de seu
apartamento enrolado em uma bandeira brasileira, acenando para fãs e torcendo
pela Seleção na Copa do Mundo da França. A cena emocionou o país e permanece
viva na memória de milhares de admiradores.
Uma semana depois, em 15 de
junho, sofreu uma parada cardiorrespiratória em seu apartamento no bairro do
Itaim Bibi, em São Paulo. Foi levado às pressas ao Hospital São Luiz, onde
permaneceu internado, sedado e dependente de aparelhos.
Na madrugada de 23 de junho de
1998, às 0h10, Leandro faleceu em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Tinha
apenas 36 anos.
O adeus de um país inteiro
A morte de Leandro provocou
uma das maiores comoções populares da história recente da música brasileira. Seu
corpo foi velado na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde mais de 25 mil
pessoas compareceram para prestar homenagens. Fãs enfrentaram longas filas para
uma despedida silenciosa e carregada de emoção.
Políticos, artistas e
personalidades estiveram presentes no velório, entre eles o então
vice-presidente Marco Maciel, o senador Eduardo Suplicy, o prefeito Celso
Pitta, além de nomes conhecidos da televisão e da música brasileira.
Em Goiânia, cidade que acompanhou
o nascimento artístico da dupla, a despedida foi ainda mais impressionante. O
cortejo até o Cemitério Parque Jardim das Palmeiras reuniu cerca de 150 mil
pessoas. Estima-se que dezenas de milhares tenham passado diante do caixão
durante o velório.
Leandro recebeu honras
oficiais do governo estadual, e seu caixão foi conduzido por cadetes do
Exército até o local do sepultamento.
A repercussão da morte foi tão
intensa que emissoras de televisão alteraram suas programações e priorizaram a
cobertura do funeral, inclusive durante a Copa do Mundo de 1998. O caso ganhou
repercussão internacional e chegou às páginas do jornal norte-americano The New
York Times.
Passadas décadas de sua
partida, a voz de Leandro permanece viva nas rádios, nas plataformas digitais e,
sobretudo, na memória afetiva do povo brasileiro.
Ao lado de Leonardo, ajudou a
redefinir a música sertaneja, abrindo caminhos para inúmeras duplas que
surgiriam depois. Sua história é lembrada não apenas pelo sucesso
extraordinário, mas pela trajetória de um homem simples do interior goiano que
transformou dificuldades em canções e deixou um legado que o tempo não apagou.









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