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sexta-feira, maio 29, 2026

Leandro - Da Dupla Leandro e Leonardo


Leandro: a voz que ajudou a transformar a música sertaneja brasileira

Luiz José Costa nasceu em Goianápolis, Goiás, em 15 de agosto de 1961. Conhecido nacionalmente como Leandro, tornou-se um dos maiores nomes da música sertaneja brasileira ao lado de seu irmão, Emival Eterno Costa, o Leonardo.

Mais do que cantor e compositor, Leandro foi símbolo de uma geração que viu o sertanejo deixar as raízes restritas ao interior e conquistar o país inteiro.

Filho de Avelino Virgulino da Costa e Carmem Divina Eterno da Silva, cresceu em uma família simples e numerosa, ao lado de oito irmãos. A infância foi marcada pela vida na zona rural, onde estudou até o ensino fundamental e aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho.

Ainda menino, ajudava os pais em pequenas plantações de tomate e jiló. A lida no campo fazia parte da rotina familiar, mas o futuro cantor jamais escondeu que seu coração batia por outros sonhos. A música, ainda silenciosa, já ocupava espaço em sua imaginação.

Antes do reconhecimento artístico, Leandro e Leonardo enfrentaram diversas dificuldades. Trabalharam no Mercado Central de Goiânia como vendedores de sapatos e engraxates durante o período natalino, buscando contribuir para o sustento da família.

Foi nesse período de batalhas que Leandro começou a descobrir sua vocação musical. Chegou a atuar como vocalista da banda “Os Dominantes”, grupo que interpretava sucessos dos Beatles e de Roberto Carlos, experiência que ajudou a moldar sua presença de palco e seu estilo vocal.

A história da dupla sertaneja começou a tomar forma em 1983. Leonardo, que trabalhava como balconista na Farmácia São Benedito, em Goiânia, acabou demitido após uma sequência de empregos difíceis e instáveis.

Antes disso, havia trabalhado como boia-fria e entregador de remédios. Entre tropeços e recomeços, os irmãos decidiram apostar definitivamente na música.

Munidos apenas de talento, coragem e violas, passaram a cantar em bares modestos de Goianápolis e pequenas cidades goianas. O início foi marcado por apresentações simples, cachês baixos e muitas portas fechadas. Ainda assim, persistiram.

A trajetória começou a mudar quando uma fita demo, gravada de maneira rudimentar, chegou aos executivos da gravadora Continental. O material chamou atenção pela autenticidade e pela força emocional da interpretação dos irmãos. Entre as músicas estava “Entre Tapas e Beijos”, composição que mais tarde se transformaria em um dos maiores sucessos da música brasileira.

O nome artístico da dupla surgiu inspirado nos filhos gêmeos de um amigo dos irmãos. Assim nasceram Leandro & Leonardo, uma parceria que rapidamente conquistaria espaço em um mercado altamente competitivo.

O sertanejo apresentado pelos irmãos possuía características distintas da tradicional moda de viola. Misturando romantismo, melodias acessíveis e produção moderna, ajudaram a consolidar o chamado “sertanejo moderno”, movimento que revolucionaria o gênero nas décadas seguintes.

Em 1986, lançaram o primeiro álbum, que trazia a canção “Contradições”. Embora o disco não tenha alcançado grande repercussão nacional, vendeu cerca de 38 mil cópias — um resultado promissor para artistas ainda desconhecidos.

A consagração definitiva chegou em 1989. Com “Entre Tapas e Beijos”, presente no terceiro álbum da dupla, Leandro & Leonardo ultrapassaram a marca de 1,3 milhão de cópias vendidas e se transformaram em fenômeno popular.

O sucesso não se limitava às rádios. A dupla passou a lotar ginásios, feiras agropecuárias e grandes casas de espetáculo, tornando-se presença constante na televisão brasileira. O quarto álbum, impulsionado pelo enorme sucesso de “Pense em Mim”, vendeu quase três milhões de cópias e consolidou a dupla como uma das maiores do país.

Pela primeira vez, artistas sertanejos atingiam números de vendagem comparáveis aos maiores nomes da música popular brasileira. Leandro, responsável pela segunda voz e por parte importante da identidade musical da dupla, nunca escondeu que o som que produziam dialogava mais com o romantismo contemporâneo do que com a tradição sertaneja clássica. Essa honestidade artística ajudou a aproximar a dupla de diferentes públicos.

O reconhecimento levou Leandro & Leonardo ao centro do entretenimento nacional. Participaram do programa “Amigos”, exibido pela Rede Globo, ao lado de outros gigantes do gênero, tornando-se representantes de uma era dourada da música sertaneja.

Nos anos 1990, o sucesso alcançou também os círculos políticos e empresariais. Os irmãos realizaram apresentações particulares para autoridades, incluindo shows na Casa da Dinda e no Palácio do Planalto, durante o governo de Fernando Collor de Mello.

Fora dos palcos, Leandro revelou-se um empresário atento e visionário. Investiu em propriedades rurais, criação de gado e imóveis, construindo patrimônio sólido. Possuía fazendas em Goiás e Tocantins, além de imóveis em Goiânia.

Ainda assim, a principal fonte de renda continuava sendo a música. Os cachês da dupla figuravam entre os maiores do país, reforçados por campanhas publicitárias e contratos comerciais.

A luta contra a doença

A vida de Leandro sofreu uma mudança dramática em abril de 1998. Durante uma pescaria em uma de suas fazendas no Tocantins, em 19 de abril, o cantor sentiu uma forte dor nas costas ao puxar o molinete da vara de pesca. A princípio, o episódio parecia algo passageiro, mas os sintomas se agravaram rapidamente.

Dias depois, já em São Paulo, foi encontrado desacordado enquanto tomava banho e levado a um hospital para exames. Uma radiografia revelou uma mancha preocupante no pulmão direito.

O diagnóstico definitivo veio em 8 de maio, após avaliação médica realizada no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos. Leandro sofria de um raríssimo tumor maligno conhecido como tumor de Askin, localizado na região torácica.

A notícia chocou o país.

Tratava-se de um câncer agressivo, de evolução extremamente rápida, que comprometia pulmões, coração, brônquios e vasos sanguíneos importantes. Apesar da gravidade, não houve confirmação de metástase para outros órgãos.

Leandro iniciou imediatamente uma intensa batalha pela vida. Submeteu-se a sessões de quimioterapia e a procedimentos complexos, incluindo a colocação de um stent na veia cava superior, comprimida pelo tumor, além de uma embolização destinada a reduzir a irrigação sanguínea da massa cancerígena.

Mesmo diante do sofrimento físico e emocional, procurava demonstrar serenidade e esperança. Sua última aparição pública ocorreu em 8 de junho de 1998.

Já debilitado pelos efeitos do tratamento e sem os cabelos devido à quimioterapia, surgiu na varanda de seu apartamento enrolado em uma bandeira brasileira, acenando para fãs e torcendo pela Seleção na Copa do Mundo da França. A cena emocionou o país e permanece viva na memória de milhares de admiradores.

Uma semana depois, em 15 de junho, sofreu uma parada cardiorrespiratória em seu apartamento no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Foi levado às pressas ao Hospital São Luiz, onde permaneceu internado, sedado e dependente de aparelhos.

Na madrugada de 23 de junho de 1998, às 0h10, Leandro faleceu em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Tinha apenas 36 anos.

O adeus de um país inteiro

A morte de Leandro provocou uma das maiores comoções populares da história recente da música brasileira. Seu corpo foi velado na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde mais de 25 mil pessoas compareceram para prestar homenagens. Fãs enfrentaram longas filas para uma despedida silenciosa e carregada de emoção.

Políticos, artistas e personalidades estiveram presentes no velório, entre eles o então vice-presidente Marco Maciel, o senador Eduardo Suplicy, o prefeito Celso Pitta, além de nomes conhecidos da televisão e da música brasileira.

Em Goiânia, cidade que acompanhou o nascimento artístico da dupla, a despedida foi ainda mais impressionante. O cortejo até o Cemitério Parque Jardim das Palmeiras reuniu cerca de 150 mil pessoas. Estima-se que dezenas de milhares tenham passado diante do caixão durante o velório.

Leandro recebeu honras oficiais do governo estadual, e seu caixão foi conduzido por cadetes do Exército até o local do sepultamento.

A repercussão da morte foi tão intensa que emissoras de televisão alteraram suas programações e priorizaram a cobertura do funeral, inclusive durante a Copa do Mundo de 1998. O caso ganhou repercussão internacional e chegou às páginas do jornal norte-americano The New York Times.

Passadas décadas de sua partida, a voz de Leandro permanece viva nas rádios, nas plataformas digitais e, sobretudo, na memória afetiva do povo brasileiro.

Ao lado de Leonardo, ajudou a redefinir a música sertaneja, abrindo caminhos para inúmeras duplas que surgiriam depois. Sua história é lembrada não apenas pelo sucesso extraordinário, mas pela trajetória de um homem simples do interior goiano que transformou dificuldades em canções e deixou um legado que o tempo não apagou.


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