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sexta-feira, maio 29, 2026

Então Pergunto



O parasita Loa-Loa e o questionamento de David Attenborough

Quando criacionistas defendem a ideia de um deus que cria cada espécie separadamente, como um ato individual e intencional, costumam recorrer às manifestações mais belas da natureza como exemplo de perfeição e propósito.

Citam beija-flores delicados, orquídeas exuberantes, girassóis voltados para a luz e inúmeras outras formas que despertam admiração e encantamento. Entretanto, o naturalista britânico David Attenborough propôs uma reflexão menos confortável — e justamente por isso profundamente provocadora.

Em vez de olhar apenas para a beleza da criação, Attenborough direciona o olhar para um dos aspectos mais cruéis e perturbadores do mundo natural: o verme parasita Loa loa, conhecido popularmente como “verme africano do olho”.

Encontrado em regiões da África Ocidental e Central, esse parasita é transmitido por moscas e pode migrar pelos tecidos humanos, inclusive atravessando a região ocular, provocando dor, inflamação e, em alguns casos, sérios danos à visão.

A partir dessa realidade biológica, Attenborough levanta um questionamento filosófico e teológico que desafia respostas simples:

“Quando criacionistas falam sobre Deus criando cada espécie individualmente, costumam citar beija-flores, orquídeas, girassóis e outras coisas belas. Mas eu tendo a pensar, em vez disso, no verme parasita Loa loa, que pode atravessar o olho de uma criança e causar cegueira. Então pergunto: vocês estão me dizendo que o Deus em que acreditam, um Deus misericordioso que se importa com cada um de nós individualmente, também criou deliberadamente esse verme, cuja sobrevivência depende do sofrimento de um ser inocente?”

A observação de Attenborough não é um ataque simplista à fé, mas um convite a uma antiga e difícil reflexão sobre a existência do sofrimento na natureza. Trata-se de uma questão debatida há séculos por filósofos, teólogos e cientistas: como conciliar a ideia de um criador bondoso e misericordioso com a presença de dor, doença e mecanismos biológicos que dependem do sofrimento para existir?

A natureza revela extraordinária beleza, mas também expõe competição, parasitismo e destruição. Entre flores e predadores, entre paisagens deslumbrantes e organismos que sobrevivem à custa de outros seres vivos, emerge uma realidade complexa que desafia visões simples do mundo.

Talvez o verdadeiro peso da pergunta de Attenborough esteja justamente aí: não apenas na existência do verme, mas na necessidade humana de confrontar as partes mais difíceis da realidade enquanto busca compreender o significado da vida, da criação e do sofrimento.

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